Fogo Encontra Gasolina

Segredinho, somente um pequeno segredinho, porém algo que mexia com algo mais que o corpo, ia além da mente... E tocava no coração. Talvez para ele fosse normal trair, mas pra ela isso não tinha nada de normal. Se sentiu culpada, mesmo que a namorada do mesmo fosse alguém tão fútil e vazia, ela não merecia passar por aquilo. O homem que estava em sua cama não era dela, nem nunca haveria de ser, de corpo sim, mas de coração ele jamais seria dela.

Ou de outra pessoa, Nathan Jones era apenas de si mesmo.

Mesmo cansada, não conseguia adormecer, a culpa a corroía por dentro, mexia com ela e aquela frase dita por ele ainda mais... “amante”?

— Amante? – a palavra escapou de sua boca, em tom baixo, mas por estarem próximos, ele ouviu.

— Sarah é fria, não me esquenta mais, mas você é quente, me aquece em questão de segundos... – isso a surpreendeu, ela não podia crer no que ouvia, porém aquilo lhe embrulhava ainda mais o estômago.

— Amante? – mais uma vez a palavra foi pronunciada, ainda havia incredulidade.

— Amantes cumplices. – aquilo lhe serviria como confirmação para o que ele entendeu como pergunta, ela estava cheia de dúvidas, ele de certezas.

Levantou seu corpo, sua mão tocou a face da moça, e como quem confirmava o futuro, a beijou. Um beijo que ambos queriam, e ele não era de se negar o que quer. Regina tinha a boca mais chamativa que ele já vira, mais doce e saborosa.

— Eu tenho que ir, nos vemos amanhã na escola. – dito isto ele levantou e vestiu sua roupa. Ela apenas o olhava enquanto ele fazia isso, Oh! Como aquele homem era perfeito e cada pedacinho de seu corpo era como um pedaço do paraíso.

Já vestido ele voltou-se para ela. E lhe dando apenas um leve selinho se despediu:

— Até mais.

— Tchau, Nathan.

Ela não gaguejou, ele preferia assim, dessa forma se sentia menos culpado ao roubar a inocência de alguém. E como se fosse um programa ele partiu como quem não conseguiria vê-la mais, porém sabia que isso era mentira, sabia que no dia seguinte estaria novamente naquela mesma cama, nos braços daquela mesma mulher.

No caminho de casa tudo o que conseguia pensar era nela, tudo pelo caminho o fazia lembrar do que fizera, não era de seu costume trair, não mesmo, Nathan só queria provar algo para si mesmo, mas ao fazer isso traiu seus próprios princípios, ele queria ser como os homens que via na TV, trair sem se importar, trair por diversão, mas ele não conseguia deixar a culpa de lado.

E naquela noite tudo o que sonhou foi ela, era como se algo tivesse escrito o nome de Regina dentro da sua mente, era se alguém houvesse tatuado ela em seu corpo.

— Miller... O que tem em você que me fez ficar tão viciado assim? – perguntou para si mesmo, como quem buscava dentro da própria mente uma explicação para a própria dúvida.

(...)

Regina por sua vez não conseguia dormir, sentia a mesma culpa que ele, talvez ainda pior. Mas ela não conseguia se arrepender, ter aquele homem em sua cama foi a melhor sensação que já teve, era magnifico. O cheiro dele nos lençóis só piorava tudo, mesmo que sentisse suas pernas como se estivessem quebradas, ela havia adorado cada instante.

E no amanhecer daquele novo dia, ela levantou com mais gosto, mesmo com as pernas bambas e fracas, ela se pôs de pé com mais orgulho, até mesmo seu andar estava diferente, andava não mais como a virgem insegura de ontem, mas como a mulher de hoje.

O mesmo uniforme cumprido e largo foi vestido, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo baixo e frouxo, colocou os óculos sem grau e pôs em sua bolsa os livros do dia.

Desceu, tomou café e o motorista da família a levou para a escola como sempre.

No caminho observou as paisagens que antes não notara muito, era uma cidade bonita e mesmo estando ainda tão cedo já existia muito movimento, Nova Iorque nunca parava. Regina viu as crianças atravessarem o sinal, viu uma das meninas entregar uma flor para o guarda, viu os pássaros voarem no céu, viu o sinal vermelho ficar verde, viu as doces velhotas entregarem flores. O mundo lá fora era bonito.

O motorista parou em frente ao colégio, desceu do carro e abriu a porta para que Regina saísse. Ela saiu e foi para sua sala. No caminho não falou com ninguém, não tinha muitos amigos, possivelmente nenhum, naquela escola as pessoas costumavam ser fúteis muitas vezes, davam muita importância para a aparência, ou mantinham-se apenas dentro de suas tribos.

Ela não tinha tribo, ou melhor, tinha, e não se agradava muito dela, ser considerado da tribo dos CDF’s não era muito bom, ser uma “nerd” não era lá essas coisas.

Sentou na mesma cadeira de sempre, a primeira da fila do meio onde seu professor a havia colocado, naquela escola somente os professores prestaram atenção em Regina. Sentada lá ela esperou o sinal tocar calmamente. Ele tocou. Nathan ainda não havia chegado.

Os alunos entraram em sala e cada um tomou seu rumo até sua cadeira. Somente então que Nathan chegou.

Ele foi até a cadeira de Regina e jogou sua mochila ali, logo em seguida se sentou, ela não deu uma única palavra. Ele também não, mas por baixo da mesa ele tocou sua mão e a apertou, era como um “Oi” secreto. Ela ficou vermelha.

Sarah entrou em sala e vendo Nathan ali foi direto até ele, intrigada com o que via, ali não era o lugar dele. Ao estar próxima se sentou em seu colo e entrelaçou as mãos ao redor do pescoço do mesmo.

— Por que está sentado aqui? Essa não é a nossa mesa! – perguntou cheia de manha na voz.

— Ordens do Sr. Davis, tenho que melhorar minhas notas, depois converso com você. – respondeu o loiro.

— Hmmm – gemeu a loira – Mas eu não quero ficar longe do meu benzinho.

A voz que ela fazia era irritante aos ouvidos de qualquer um.

— Eu também não quero ficar longe do meu amor, mas são ordens.

— Vai ser um horror pro meu benzinho sentar do lado dessa baranga todos os dias, ela vai te dar pesadelos à noite! – falou se referindo a Regina que ouvia tudo calada, mal sabia a loira que o que Regina dava a Nathan não era nenhum pesadelo.

— Não fala assim da garota, vai pro seu lugar, Sarah. – ele queria defender, mas não podia dar sinal de nada, Sarah era muito ciumenta e desconfiaria de qualquer coisa.

— Não vai nem me dar um beijinho antes da aula? – ela se insinuou manhosa enquanto sua aproximava da boca do loiro.

Ele a beijou para responder aos seus caprichos, Sarah o beijava cheia de volúpia enquanto de esquina de olho olhava para Regina, era como se tentasse marcar território ou dissesse com os olhos que não queria que a morena tocasse em seu homem, mas já era tarde para marcar um território que já havia sido marcado.

O professor Morris entrou na sala, atrasado como sempre, Sarah foi para o lugar dela vendo que o professor chegara.

Nathan olhou para trás e vendo a namorada distraída cochichou no ouvido da Miller:

— “Não liga pra ela, mais tarde você se vinga.”

Ela se avermelhou um pouco mais.

— Bom dia alunos! – O Sr. Morris cumprimentou a turma, que respondeu em uníssono – A aula de hoje será um pouco diferente porque vamos lá para fora. Peço que não se separem de seus parceiros de mesa.

A turma gostou da noticia e feito uma fila dupla eles foram caminharam até o ginásio da escola sendo guiados pelo professor.

No ginásio haviam algumas bolas e cordas além de papeis e canetas espalhados por toda a quadra. O professor os dividiu os mantendo nas duplas das mesas para iniciar a aula.

— Na aula de física de hoje eu quero que vocês me mostrem o quanto são habilidosos, quero ver até onde vai a força de vocês, quero saber do que são feitos! – O Sr. Morris gritou com uma animação que beirava a ser engraçada, mas a turma parecia não entender, o que aquilo tinha a ver com física?

— Mas professor, o que isso tem a ver com a aula de física? – a pergunta escapou de um dos alunos.

— Nada, absolutamente nada, eu só quero testar vocês, saber até onde eu posso ir com cada um, ser professor é conhecer cada um, é ensinar mais do que matérias, ser professor é demonstrar valores. – ele respondeu.

A turma se animou com aquilo, o Sr. Morris era um professor diferente, dele poderia se esperar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo!

— Vamos fazer assim, a dupla que fizer mais pontos hoje vai ganhar cinco pontos na minha matéria, é um bom incentivo para vocês? – todos responderam que sim – Então vamos começar!

Nathan sentiu que não ganharia aqueles pontos nem sonhando, Regina era fraca e tímida e pelo que via os testes que ele faria exigiriam força. Se sentiu prejudicado, mesmo que todas as duplas ali fossem em casais.

— O primeiro teste vai ser de chute a gol, vou dividi-los em duas equipes e os eliminando de um a um até que só sobre uma dupla!

— Aí não vale! – uma das alunas protestou – Quem vai ganhar da Tamara?

Tamara era a capitã do time feminino de futebol da escola, eleita a melhor jogadora de três campeonatos seguidos. De fato, vencê-la era um grande desafio.

— Eu garanto que você terá uma chance, mas se jogar de salto não vai ter nenhuma! – respondeu o professor.

A garota não gostou muito, mas Tamara estava satisfeita.

Com os grupos separados as garotas retiraram seus saltos agulhas, mesmo que odiassem estar com os pés no chão, queriam aqueles cinco pontos.

Já haviam começado e como era de se esperar as garotas estavam péssimas e eliminavam a cada rodada, só se ouviam reclamações de parceiros desgostosos e nada satisfeitos com a situação. Como já era previsível, Tamara chutava muito bem a gol e sabia comemorar com seu namorado que também era zagueiro da seleção masculina.

Até que chegou a vez de Nathan e Regina, ele foi primeiro e como jogava no time masculino se saiu muito bem com o goleiro reserva. Já Regina estava nervosa e trêmula, não sabia o que fazer e nem como agir, mas ele era compreensível e indo até ela cochichou em seu ouvido:

— “Eu acredito em você, sei que vai conseguir, você está me ajudando a recuperar minhas notas, conseguir esses cinco pontos é uma ótima oportunidade...”

Ela ficou confiante com aquilo, queria ajuda-lo e iria fazer isso mesmo que para isso tivesse que desmanchar a fachada de garota tímida. Ela parou de tremer, olhou para a garota no gol, examinou suas mãos, era destra, chutou no canto esquerdo... Gol! Ela estava incrédula, não imaginou que isso daria certo, finalmente ser nerd serviu para alguma coisa além dos exames e provas. Ele estava mais incrédulo ainda e por incrível que pareça o Sr. Morris estava ainda mais.

— Boa, Miller! – ele a parabenizou, queria beija-la, mas sabia que se fizesse isso seria o fim de seu casinho, com certeza.

Ela sorriu e baixou o olhar.

Continuaram e uma a uma as duplas iam sendo eliminadas até que sobrassem apenas duas, e para deixar o clima ainda mais tenso sobraram apenas Nathan e Regina, Tamara e seu namorado. Não havia duvidas em quem apostar, ninguém passava por Tamara, ninguém defendia um chute dela, a força daquela garota era de deixar qualquer homem no chinelo, quem dirá alguém feito Regina!

— Se quiser desistir eu entendo. – até Nathan estava sem esperança.

— Eu vou, não se preocupe comigo. – ela respondeu.

Ela foi para entre as traves, ficaria no gol e Tamara chutaria, ninguém acreditava em um resultado que não fosse Regina desmaiada depois de levar uma bolada daquelas. Tamara chutou com pouco força, achou que seria o suficiente. Mas o que parecia impossível aconteceu. Regina pegou a bola com as duas mãos e a segurou firme, mesmo que aquilo tenha doído muito ela conseguiu se manter de pé.

A capitã do time de futebol abriu a boca incrédula, é raro alguém segurar seu chute, tinha visto isso pouca vezes, nunca havia perdido um única pênalti na vida. Mas como era uma jogadora civilizada, foi até Regina e lhe estendeu a mão:

— Parabéns. – disse a loira. Mesmo hesitante Miller apertou a mão da mesma.

— Obrigada.

Nathan foi até ela e a abraçou e junto a ela rodopiou seu corpo alegre. Sarah viu a cena cheia de raiva e ciúme, não gostava que seu homem tocasse em outra garota, Ah! Ele se veria com ela no final da aula! Regina se mostrou ativa em tudo o que fizeram, o impressionou, não sabia que ela era boa em subir cordas e muito menos que tivesse uma mira tão boa.

Ela o surpreendia a cada segundo, que mulher era aquela? Era como se a tímida Regina Miller agora fosse outra pessoa que se divertia com os colegas e era elogiada por alguém além do professor, ela era tudo, menos a mesma.

No final de tudo como o esperado, eles ganharam o primeiro lugar com boa vantagem, logo atrás o casal que era favorito nisso tudo, Tamara Resting e Sean Nolan, que ganharam três pontos e em terceiro outro casal qualquer, amigos próximos de Nathan.

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