Expulsa de Casa, Renascida na Luta

O rosto da minha avó ficou pálido. A mão que segurava o telefone tremia.

"Sílvia, não fales assim da minha neta. E muito menos da minha filha."

"Não falar? A sua neta acabou de ligar ao meu filho, a ameaçá-lo com o fim do noivado! O Pedro está destroçado! O Tiago ouviu tudo, ficou num estado de nervos, o braço partido a doer-lhe ainda mais! Vocês só causam problemas!"

A minha avó respirou fundo, tentando manter a calma.

"O voo atrasou, a tempestade, ficámos presas no aeroporto durante horas. Eu não me estou a sentir bem. A Ana só queria que o noivo dela a viesse buscar."

"Não se está a sentir bem? O meu Tiago partiu um braço! Um braço! E o cão quase morria! Isso não é mais importante? A Ana é uma adulta, pode muito bem apanhar um táxi. Que egoísmo!"

A minha avó desligou. O seu peito subia e descia rapidamente.

Ela olhou para mim, os olhos cheios de uma dor que eu conhecia bem.

"Vamos para casa, querida."

Não havia táxis. A cidade estava um caos por causa da tempestade. Acabámos por apanhar um autocarro que demorou uma eternidade.

Quando finalmente chegámos a casa, a porta estava trancada.

Eu tinha a minha chave, mas não funcionava. A fechadura tinha sido mudada.

Toquei à campainha. Ninguém abriu.

Liguei ao Pedro. Bloqueado.

Liguei para o telefone de casa. Ninguém atendeu.

A minha avó encostou-se à parede, exausta.

"Eles não nos querem aqui, Ana."

Naquele momento, um carro parou em frente à casa. Era o meu pai, a minha madrasta Sílvia, o meu irmão Tiago com o braço ao peito, e o Pedro.

Saíram todos do carro, a rir de qualquer coisa.

Quando nos viram, as suas expressões mudaram.

O meu pai foi o primeiro a falar, o seu tom era duro.

"O que é que estão aqui a fazer? A Sílvia já não vos disse para não virem?"

"Pai, esta é a minha casa. A casa da avó."

"Era", corrigiu a Sílvia, com um sorriso vitorioso. "Agora é a nossa casa. O Pedro e eu decidimos que era melhor para o Tiago recuperar aqui, com mais espaço. E como tu e o Pedro iam casar e mudar-se, achámos que podíamos adiantar as coisas."

Olhei para o Pedro, à espera que ele dissesse alguma coisa. Que me defendesse.

Ele desviou o olhar, incapaz de me encarar.

"Pedro? O que é que isto significa?"

Foi a Sílvia que respondeu.

"Significa que acabou, querida. O Pedro percebeu que não pode casar com alguém tão egoísta e insensível. Ele escolheu a família dele. Nós."

Ela disse "nós" com uma força que me atingiu como um soco.

A minha avó deu um passo em frente.

"Esta casa é minha. Foi o meu marido que a construiu. Vocês não têm o direito."

O meu pai riu-se, um som amargo.

"Mãe, a casa está em meu nome. Legalmente, é minha. E eu decido quem vive nela."

Era verdade. Depois da morte do meu avô, a minha avó, num gesto de confiança, passou a casa para o nome do único filho. Nunca pensou que ele a usaria contra ela.

"Então é assim", disse eu, a voz a tremer de raiva. "Vocês expulsam-nos da nossa própria casa."

"Não sejas dramática", disse o Pedro, finalmente encontrando a voz. "Podes ficar num hotel por uns dias. Até encontrares outro sítio."

Um hotel. Com a minha avó doente. Sem dinheiro, porque a minha carteira com os cartões estava dentro de casa.

"As nossas coisas", disse a minha avó, a voz fraca. "Pelo menos deixem-nos ir buscar as nossas coisas."

A Sílvia abanou a cabeça.

"Não. Já está tarde. E não queremos confusão. Amanhã, se se portarem bem, talvez. Agora, vão-se embora."

Ela apontou para a rua, como se estivesse a enxotar cães vadios.

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