ESPECIAL DIA DAS MÃES

Pepper ainda não reunira a coragem necessária para consultar um especialista em reprodução. Patrícia compreendia essa atitude, pois ela também sempre adiava momentos importantes e decisivos.

Essa era uma das razões pelas quais sua vida estava tão confusa, mas essa confusão teria de esperar enquanto pensava numa forma de ajudar a irmã a superar a dor e o medo.

O cunhado realmente partiria se Pepper não pudesse dar a ele o tão desejado filho? Manifestara o desejo de começar a tentar antes que Pepper se sentisse preparada, e talvez a culpasse por isso.

Patrícia sentiu o nó que se formava em sua garganta. Se, Deus não permitisse, sua irmã fosse incapaz de ter filhos, Luca ainda a aceitaria como esposa?

Demonstrara o fervor com que a amava quando a perseguira até Las Vegas. O namoro havia sido tão diferente quanto se pode imaginar, até culminar com o casamento na pequena capela de Glen.

Sem soltar a mão da irmã, Patrícia abaixou a cabeça.

Preciso de ajuda. Sei que tenho implorado por seu auxílio para descobrir o que devo fazer com minha vida, mas podemos deixar isso de lado por um momento? Que tal algo por minha irmã? Não suporto vê-la sofrendo tanto. Não pode me dar um sinal, uma indicação da direção que devo seguir?

A campainha interrompeu sua prece silenciosa.

Um sinal definitivo, Patrícia decidiu.

Ela soltou a mão fria e trêmula da irmã, levantou-se do sofá e caminhou até a porta da frente da espaçosa casa na cidade.

A mulher parada diante dela ia além de qualquer possibilidade de descrição.

Os cabelos caíam até a cintura, longos, loiros e fartos. As orelhas ostentavam tantos brincos quantos podiam suportar, e uma ofuscante coleção de cristais adornava o pescoço, os pulsos, e até um tornozelo que podia ser visto sob a ampla saia de tecido esvoaçante e colorido.

— Olá, Pep! Pronta para ir?

Um engano comum e freqüente, já que eram gêmeas idênticas.

— Não sou Pepper! Sou irmã dela.

— Patrícia! Oh, ela fala muito a seu respeito! — A mulher agarrou sua mão e apertou-a com vigor. — Sua mãe não ficou maluca quando soube que teria dois bebês?

Já havia escutado todo o tipo de comentário sobre o fato de ter uma irmã gêmea, mas essa mulher tinha algo de original na maneira de falar, algo que fazia jus a uma resposta direta e honesta.

—Ela ficou bastante emocionada, especialmente quando viu isto aqui — e tocou uma mecha dos cabelos vermelhos.

A mulher riu.

— Admito que também ficaria emocionada. Chocada, talvez. Meu nome é Deva. Sua irmã está em casa?

— Sim, mas... ela não se sente muito bem no momento.

— Hmmm. — Compaixão e praticidade misturavam-se na expressão da exótica visitante. — Talvez ela tenha esquecido nosso compromisso.

—Com um especialista em reprodução?

Deva suspirou, balançou a cabeça e fitou-a com um olhar grave.

— Não. Com madame Babala da Hungria, a melhor técnica em hipnose que Las Vegas pode oferecer. Pesquisei todas elas, e essa mulher já alcançou resultados impressionantes.

— Vamos ver se estou entendendo. Vai levar minha irmã a uma técnica em hipnose para ajudá-la a conceber?

— Resumindo, é isso mesmo.

— E ela sabe disso?

— Ela mesma me pediu para encontrar a melhor da cidade.

Pepper devia estar maluca!

— Não sei se ela está em condições de ver alguém, Deva.

— Mas, Patrícia...

— Pode me chamar de Pat, como todo mundo.

— Uau! Que apelido incrível! Aposto que tem um grande impacto!

— Tem seus momentos.

Deva voltou ao assunto original, os cristais brilhando sob o sol forte do deserto.

—Pat, ela precisa ir! Madame Babala tem uma agenda muito cheia, e precisei usar de uma certa influência para conseguir essa consulta. Era o único horário disponível para os próximos três meses.

— Essa mulher é tão boa assim? .

—É simplesmente a melhor.

— Acha que ela poderá ajudar?

— Ela já ajudou muitas outras mulheres a relaxaram o suficiente para engravidar. — Deva tocou seu braço e Pat viu simpatia nos olhos azuis que a fitavam. — Já ouviu falar sobre a síndrome da adoção? Uma mulher adota uma criança, e logo depois descobre que está grávida. Às vezes, fazer alguma coisa para diminuir a pressão pode ser muito útil.

Patrícia suspirou enquanto ponderava o que acabara de ouvir.

Um sinal. Uma indicação. Uma direção. Está bem, seguirei por esse caminho.

Resignada, Pat terminou de abrir a porta e convidou Deva a entrar.

Madame Babala era uma visão e tanto.

Vivia numa casa espaçosa nos arredores da cidade, e no minuto em que entraram as três visitantes foram recebidas pelos aromas de goulash, noz moscada e patchouli.

— Entrem, entrem! Não tenham medo!

— Já não vi esse mesmo cenário em Contos da Cripta? — Patrícia sussurrou.

Deva envolveu-a num olhar de censura.

—Ah, então temos uma descrente em nosso meio.

Pat deparou-se com os olhos mais escuros e profundos que já havia visto. Era uma mulher bonita, dona de um rosto largo de traços marcantes, certamente originária do leste europeu. Não havia reprovação na maneira como a encarava, apenas uma tentativa de compreendê-la.

De repente sentiu-se envergonhada por debochar de algo que a irmã encarava com seriedade e esperança.

Desculpe — pediu em voz baixa.

— Não precisa desculpar-se. Todos nós ficamos nervosos quando fazemos algo que não compreendemos. Madame Babala passou um braço sobre os ombros trêmulos de Pepper e levou-a para uma sala de estar arejada e ensolarada.

Pat lançou um olhar aborrecido na direção de Deva.

— E melhor que isso funcione!

— Vai funcionar — ela murmurou, sem desviar os olhos da dona da casa. — Esta tarde mudará nossas vidas. Estou sentindo!

Pat não tinha idéia de como a afirmação de Deva se mostraria verdadeira.

_ Não posso entrar sozinha — Pepper sussurrou, agarrando o braço da irmã.

— Por quê? Ela vai hipnotizá-la, não colocá-la sobre a maldição do conde Drácula — Patrícia respondeu, soltando gentilmente da mão que segurava sua blusa.

— Eu... não posso Pat! Não sou corajosa como você.

— Casou-se com Luca. Para mim isso é prova de grande coragem.

— Por favor, Pat, me ajude.

Madame Babala passou um braço sobre os ombros de Pat e ela pulou.

— Não tenha medo. Não há razão para isso. Se quiser entrar com sua irmã, sinta-se à vontade.

— Oh, eu não. Isso me parece muito particular e íntimo...

— Por favor, Pat!

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