Esmeraldas Quebradas, Alma Reconstruída

Voltei para casa naquela noite, mas a casa parecia vazia e fria, um mausoléu para as memórias de um casamento que acabara de morrer. Na minha oficina, sob a luz forte de uma luminária de mesa, espalhei os fragmentos do colar sobre um pano de veludo preto.

Tentei por horas. Com minhas pinças mais delicadas e a lupa de joalheiro, tentei ver se alguma coisa poderia ser salva. Mas a destruição foi intencional, brutal. As pedras principais estavam rachadas ao meio, as menores, pulverizadas. O ouro da corrente estava torcido e quebrado. Era inútil. Cada pedaço quebrado era um lembrete da traição de Lucas e da maldade de Camila. A dor era uma pressão constante no meu peito, uma ferida que não podia ser consertada, assim como o colar.

Lucas não voltou para casa naquela noite. Nem na noite seguinte.

Ele não atendeu minhas ligações, não respondeu minhas mensagens. O silêncio dele era uma confissão, uma confirmação de que ele não se importava, que ele havia me descartado junto com o colar. A solidão e o abandono alimentavam a raiva que crescia dentro de mim.

No terceiro dia, liguei novamente. Desta vez, para minha surpresa, alguém atendeu.

Mas não era a voz de Lucas.

"Alô?" A voz era feminina, melosa e inconfundivelmente a de Camila.

Meu corpo inteiro ficou rígido. A audácia dela me deixou sem fôlego por um segundo.

"Onde está o Lucas?" perguntei, minha voz saindo fria e controlada, apesar da fúria que fervia por dentro.

"Ah, Sofia. O Lucas está ocupado agora," ela respondeu, com um tom de diversão. "Ele está no banho. Quer deixar recado?"

A provocação era tão explícita, tão descarada. Ela queria que eu soubesse. Ela queria me machucar.

"Passe o telefone para ele. Agora," eu disse, a autoridade na minha voz surpreendendo até a mim mesma.

Ouvi um barulho, e a voz de Camila ficou mais distante, como se ela tivesse coberto o bocal. "Amor, é a sua esposa. Ela parece brava." Depois, uma risadinha.

Meu sangue gelou. "Amor".

Lucas finalmente pegou o telefone. Sua voz estava irritada.

"O que você quer, Sofia? Eu não te disse para não ser dramática?"

"Onde você está, Lucas?"

"Não te interessa. O que é tão importante que você precisa que a Camila atenda meu telefone?" ele disse, virando a culpa para mim.

"Eu quero que ela pague pelo colar que destruiu," eu disse, direta. "Aquele colar tem um valor que ela nunca vai entender, mas o valor material, ela vai pagar. Cada centavo."

Houve uma pausa. Eu podia quase ouvi-lo revirar os olhos.

"Você está falando sério? Por causa daquele pedaço de lixo velho? A Camila não fez por mal, foi um acidente."

"Um acidente?" Eu ri, um som amargo e sem alegria. "Ela o jogou no chão, Lucas! Na minha frente! Ela sorriu enquanto fazia isso!"

"Ela ficou nervosa porque você a confrontou na frente de todo mundo! Você a humilhou!"

A lógica distorcida dele me deixou atordoada. Eu o humilhei?

"Lucas, aquele colar era a última coisa que meu pai me deu," minha voz falhou, a emoção finalmente quebrando minha fachada de frieza. "Era a coisa mais preciosa que eu tinha. Tinha o trabalho da vida dele, o amor dele. Você sabia disso. Você sabia o quanto significava para mim."

Eu esperava uma faísca de remorso, um pingo de humanidade. Mas não veio.

"Deixa de drama. Meu pai morreu e eu superei. Você também deveria," ele respondeu, com uma crueldade inacreditável.

De repente, ouvi um choro falso no fundo. Camila.

"Lucas... ela está me assustando," a voz dela soou chorosa e fraca. "Eu não queria quebrar... eu só... eu estava com medo..."

A performance era digna de um prêmio.

Imediatamente, o tom de Lucas mudou. A irritação dele comigo se transformou em preocupação por ela.

"Calma, meu bem, calma. Não chora," ele disse, a voz cheia de uma ternura que ele não usava comigo há anos. "Não foi sua culpa."

Ele voltou a falar comigo, e a raiva em sua voz era palpável.

"Você ouviu isso, Sofia? Você a fez chorar. Você está feliz agora? Deixe-a em paz. Esqueça o maldito colar. Eu compro outro para você."

"Eu não quero outro colar, Lucas! Eu quero o meu! O que você deu para a sua amante e ela destruiu!" eu gritei, a represa finalmente se rompendo.

"Chega! Eu não vou mais discutir isso com você," ele disse, ríspido. "Você está agindo como uma louca. A Camila é só uma menina, ela está assustada. Tenha um pouco de decência."

"Uma menina?" cuspi as palavras. "Ela tem idade suficiente para dormir com o marido de outra pessoa e destruir as coisas dela!"

"Eu já disse, chega!" ele gritou, e então desligou o telefone na minha cara.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Fiquei parada no meio da minha oficina, o telefone ainda na minha mão, o coração batendo forte de raiva e dor. Ele a defendeu. Ele me culpou. Ele me chamou de louca.

A imagem de Camila, com suas lágrimas de crocodilo, e Lucas, correndo para confortá-la, se gravou na minha mente. A injustiça era tão grande, tão sufocante.

Eu olhei para os fragmentos do colar na mesa.

A raiva não era mais suficiente. Eu precisava de mais. Eu precisava de justiça. E eu ia conseguir, não importava o custo.

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