Entre o ódio e a Redenção

Seis anos depois...

O som suave do jazz enchia o bar mais badalado da Avenida Paulista.

Luzes douradas refletiam nos copos de cristal, misturando-se a risadas abafadas, conversas discretas e ao aroma de vinho caro com perfume importado.

Era um cenário perfeito - elegante, superficial e sufocante.

Helena, impecável em um vestido preto de cetim, havia passado a noite cercada por investidores que falavam demais e entendiam de menos, e agora, com a cabeça latejando e um sorriso profissional ainda colado ao rosto, tudo o que queria era um canto silencioso para respirar.

Mas o destino - como sempre - não lhe concedia pausas.

Tania a seguiu até o corredor dos fundos.

- Tania... - murmurou Helena, com um meio sorriso cansado. - Tem algo que queira me dizer?

A empresária cruzou os braços, o olhar duro como gelo.

- Tenho, sim. - Sua voz cortou o ar. - É verdade que você se inscreveu no teste de roteirista assistente do filme "Me Ame, se For Capaz"?

Helena inclinou a cabeça, serena, como quem já previa o ataque.

- Sim. E qual o problema?

- O problema é que você não vai a esse teste! - disparou Tania, a voz carregada de autoridade. - E isso não é um pedido, Helena. É uma ordem!

Helena arqueou uma sobrancelha, indiferente.

- Ah, é? E por quê?

- Porque você agiu pelas minhas costas! - Tania avançou um passo. - A empresa já decidiu que Camila será a protagonista. E não precisamos de duas da mesma família no mesmo projeto!

Helena soltou um riso baixo - curto, frio.

- Interessante... - murmurou, tomando um gole do vinho que ainda segurava. - Isso conflita com o meu trabalho de roteirista? Ou Camila mandou você vir aqui me ameaçar?

Seus olhos brilharam com ironia.

- Não me diga que ela tem medo de perder... para mim.

- Acorda, Helena! - Tania estourou. - A família Rodrigues investiu cinco milhões nesse filme. O papel é dela. Sempre foi!

Helena ergueu o olhar, tranquila demais.

- Então, se o papel já é dela... por que você está tão nervosa, Tania?

- Porque você é minha agenciada, e vai obedecer! - gritou, batendo o salto no chão. - Se me desafiar, não me culpe pelo que eu fizer!

Helena riu, sem humor.

- Que milagre. Achei que você já tivesse esquecido que eu sou sua agenciada.

O olhar de Tania escureceu.

E antes que Helena pudesse reagir, sentiu um empurrão violento nas costas.

Seu corpo foi lançado para frente, caindo dentro de um depósito escuro no final do corredor.

O celular deslizou pelo chão e desapareceu entre as sombras.

A porta se fechou com um estalo.

Do lado de fora, os passos de Tania se afastaram lentamente - firmes, impiedosos.

Helena ficou imóvel por um instante.

Depois soltou um suspiro breve, encostando a cabeça na porta.

Não havia medo em seus olhos - apenas o velho cansaço, misturado com frieza.

Desde que entrara na Vox Talents, aprendera a engolir humilhações em silêncio. No início, Camila fingia cortesia - dava pequenos trabalhos à irmã, como se fosse caridade, mas com o tempo, as máscaras caíram, e Camila não queria dividir o palco. Queria tudo: a fama, os holofotes... e o nome Rodrigues para si.

"Se eu não conseguir esse roteiro," pensou Helena, "vou sair dessa empresa. De uma vez por todas."

O silêncio a envolvia - até que um som suave o quebrou.

Um pequeno ruído. Um soluço contido.

Helena franziu o cenho, atenta.

Entre as caixas empilhadas, algo brilhou - um reflexo tênue de luz.

Ela se aproximou devagar, os saltos tocando o chão com cautela.

E então o viu.

Um menino, não mais do que cinco ou seis anos, encolhido no canto.

Os olhos grandes e escuros a observavam em silêncio, assustados, mas com algo que a fez estremecer - uma estranha familiaridade.

Helena parou, o coração acelerando sem motivo aparente.

A voz dela saiu suave, quase um sussurro.

- Ei... - ela se abaixou. - O que está fazendo aqui, docinho?

Nenhuma resposta.

Apenas o olhar firme da criança, profundo demais para alguém tão pequeno.

Um arrepio subiu pela espinha de Helena.

O bar do outro lado da porta parecia distante, irreal.

E a pergunta ecoou dentro dela, sombria e inevitável:

"O que uma criança estava fazendo sozinha... no depósito de um bar?"

- Oi, querido... - Helena se abaixou, suavizando a voz. - Como você se chama? Como entrou aqui?

Silêncio.

Ela tentou de novo, em tom gentil, fazendo pequenas perguntas. Mas o menino permanecia imóvel, os olhos arregalados, o corpo encolhido no canto - como um animalzinho selvagem, acuado e assustado.

Helena suspirou, cansada.

Um depósito abafado, cheio de caixas e cheiros de poeira - um refúgio improvisado para quem não tinha mais onde pertencer.

O tempo parecia se arrastar.

A lâmpada acima deles piscou uma, duas vezes... e então apagou-se com um estalo seco.

A escuridão tomou o lugar por completo.

Por alguns segundos, tudo o que Helena ouvia era sua própria respiração, até que um som suave - quase imperceptível - cortou o silêncio.

Ela franziu o cenho, pois o som vinha do menino.

Dentes batendo.

- Está com medo do escuro? - perguntou em voz baixa, tentando soar divertida.

O barulhinho cessou... por um instante. E depois voltou, mais alto.

Helena balançou a cabeça, um sorriso cansado surgindo.

- Tão pequeno e já tão medroso... - murmurou, quase com ternura.

Levantou-se devagar, massageando as têmporas. O corpo inteiro doía - consequência da noite anterior, dos sorrisos falsos, das taças de vinho e dos olhares cheios de interesse falso.

Deu alguns passos até o menino. Ele recuou, pálido de medo.

Mas Helena apenas se deixou escorregar até o chão, sentando-se ao lado dele.

Encostou-se na parede fria, fechou os olhos e murmurou:

- Calma, não vou te morder, pequenino.

O silêncio voltou.

E então, o cansaço venceu.

Em poucos minutos, Helena adormeceu.

Quando despertou, sentiu algo quente encostado em sua perna.

Baixou o olhar - e o coração derreteu.

O menininho estava deitado ao lado dela, a cabecinha apoiada em sua coxa.

Uma das mãozinhas agarrava com força a barra da blusa dela, como se temesse que ela desaparecesse.

Helena riu baixinho.

- Ai, meu Deus... que coisinha mais linda...

Estendeu a mão, com um sorriso terno, e acariciou-lhe os cabelos.

Mas no instante em que o fez, o sorriso sumiu.

A pele dele estava quente demais.

- Você está com febre! - sussurrou, alarmada, tocando-lhe a testa novamente. - Não... não é possível...

O medo subiu pela garganta. A febre era alta. Perigosa, e o pior, Tania só voltaria depois da audição, então, poderiam ficar presos ali por horas.

Helena se levantou num pulo, olhando ao redor, desesperada.

Foi então que viu: Um fino facho de luz atravessava a penumbra, cortando o ar.

A lâmpada estava queimada.

Mas havia claridade.

Ergueu o olhar.

No teto, uma pequena claraboia deixava passar os primeiros raios do amanhecer.

Esperança.

Helena arrastou uma escada velha até a parede e virou-se para o menino.

- Ei, pequenino... venha cá. Eu te ajudo a sair, tudo bem?

O garoto balançou a cabeça com força, os olhos firmes, desafiadores.

Helena o encarou, e entendeu.

Ele não queria deixá-la.

Um sorriso cansado e doce curvou seus lábios.

- Então você é leal, é isso? Quer ficar aqui e sofrer comigo? - brincou, beliscando de leve suas bochechas. - Mas escute, herói... a janela é pequena. Eu não passo. Se você sair, pode buscar ajuda. Tudo bem?

O menino hesitou, e Helena sentiu o coração apertar.

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