Entre Grades e o Coração Partido

Eu soltei uma risada curta, sem humor nenhum.

"Ajudar? Você já me 'ajudou' o suficiente, João. Acho que por uma vida inteira."

Minha voz era calma, mas cada palavra era afiada. Eu não ia dar a ele o prazer de me ver descontrolada.

João franziu a testa, fingindo confusão.

"Eu não estou entendendo essa sua hostilidade, Maria. Eu errei com você, terminei nosso namoro de um jeito péssimo, eu sei. Mas te acusar de tudo isso... é injusto."

A senhora que estava perto, Dona Elvira, se aproximou com cautela. Ela conhecia minha mãe desde que eu era criança.

"Maria, minha filha, não fale assim com o rapaz. O João sempre foi um bom menino. Ele só quer o seu bem."

Ela colocou uma mão no meu ombro, um gesto que deveria ser de conforto, mas que só aumentou minha irritação. Como as pessoas podiam ser tão cegas?

"Dona Elvira, a senhora não sabe de nada" , eu respondi, tentando manter a polidez, mas minha paciência estava no fim.

Eu me virei e comecei a andar para longe daquele lugar, para longe dele. Eu precisava de ar. Cada segundo perto de João era sufocante. Pensei em tudo que perdi. Pensei nos meus vinte e poucos anos, na minha juventude jogada no lixo. Pensei no dinheiro que eu juntei, centavo por centavo, vendendo bala e água no semáforo, um dinheiro que sumiu, que eu usei para pagar um advogado que mal me defendeu. Pensei na casa, no rosto da minha mãe se iluminando toda vez que a gente falava sobre ter nosso próprio teto. Tudo se foi por causa da ambição dele.

De repente, um choro fino me tirou dos meus pensamentos.

"Mamãe!"

Leo, meu filho de quatro anos, estava correndo na minha direção, tropeçando nos próprios pés. A vizinha que cuidava dele enquanto eu vinha ao cemitério vinha logo atrás, ofegante.

"Desculpa, Maria, ele viu você saindo e não teve quem segurasse."

Eu me ajoelhei e o abracei forte. O cheiro do cabelo dele me acalmou instantaneamente. Leo era a única coisa boa que tinha me acontecido desde que saí daquele buraco.

"Tá tudo bem, meu amor. A mamãe já tá aqui."

João observava a cena de longe, uma expressão estranha no rosto. Ele se aproximou devagar.

"Filho? Você tem um filho?" , ele perguntou, o tom de voz misturando surpresa e algo que parecia... acusação. "Eu não sabia. A vida na prisão deve ter sido dura mesmo."

A insinuação era nojenta, clara como o dia. Ele estava sugerindo que Leo era fruto de alguma coisa que aconteceu lá dentro. A raiva voltou com força total.

Eu me levantei, com Leo seguro no meu colo. Encarei João diretamente nos olhos.

"Primeiro: a minha vida não te diz respeito. Segundo: ele não é seu. Nunca ouse pensar uma coisa dessas."

Fui o mais clara possível. Cada palavra era uma barreira que eu erguia entre o meu presente e o passado horrível que ele representava.

João levantou as mãos, num gesto de rendição.

"Calma, Maria, eu não quis dizer isso. É só que... Nós tínhamos tantos planos, não tínhamos? Eu ainda penso nisso, sabe? No que a gente poderia ter sido."

Ele falou com uma nostalgia doentia, como se a nossa história tivesse sido apenas um romance que não deu certo. Como se ele não tivesse me apunhalado pelas costas, rido enquanto eu afundava e depois continuado a vida dele sobre os destroços da minha. Ele não tinha a menor noção da profundidade do estrago que causou. Ou, o que era pior, ele tinha e simplesmente não se importava.

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