Cinco anos antes.
A primeira coisa que Emily ouviu foi a risada de Rodrigo.
Alta.
Solta.
Daquelas que chamavam atenção mesmo no meio da música estourando pelo clube inteiro.
Ela nem precisou procurar muito.
Rodrigo estava em pé em cima de uma cadeira perto da piscina, segurando uma garrafa de cerveja como se fosse dono do lugar.
Idiota.
Completamente idiota.
E mesmo assim...
Emily sorriu.
Porque era impossível não sorrir perto dele.
- EU JURO QUE SE TU PULAR NESSA PISCINA EU VOU EMBORA! - ela gritou no meio da música.
Rodrigo colocou a mão no peito dramaticamente.
- Tu me abandonaria bêbado?
- Com prazer.
- Crueldade feminina me assusta.
Emily revirou os olhos rindo baixo.
E então alguém apareceu ao lado dela.
- Ele vai pular.
Ela nem precisou olhar.
Matheus Albuquerque.
Claro.
Sempre aparecendo do nada com aquela cara de quem já nasceu irritado.
Emily cruzou os braços imediatamente.
- Você segue a gente por hobby ou é problema psicológico?
Matheus ignorou completamente a provocação.
Os olhos presos em Rodrigo do outro lado da piscina.
- Conheço aquele imbecil desde os oito anos.
Ele vai pular.
- Você fala dele como se fosse pai dele.
- Às vezes parece que eu sou.
Emily soltou uma risada sem querer.
Pequena.
Rápida.
Mas Matheus ouviu.
Ela percebeu pelo canto dos olhos.
Droga.
Rodrigo abriu os braços dramaticamente no outro lado da piscina.
- EMILY!
SE EU MORRER TU CUIDA DA MINHA MÃE!
- Rodrigo, desce daí!
- TARDE DEMAIS PRA ME AMAR!
E então ele pulou.
Direto na piscina.
Com roupa, tênis e tudo.
As pessoas começaram a gritar e rir ao redor.
Emily levou a mão ao rosto imediatamente.
- Meu Deus... eu namoro uma criança.
- Finalmente percebeu? - Matheus murmurou ao lado dela.
Ela virou o rosto rápido.
- E você parece um velho de quarenta anos preso no corpo de alguém de vinte.
Pela primeira vez naquela noite...
Matheus sorriu de verdade.
Um sorriso pequeno.
Mas sorriu.
E aquilo pegou Emily desprevenida.
Porque Matheus quase nunca sorria daquele jeito.
Quase nunca parecia leve.
Rodrigo surgiu da água segundos depois, completamente encharcado.
O cabelo escuro caindo na testa.
A camisa grudada no corpo.
Sorrindo como se a vida fosse a coisa mais divertida do mundo.
Emily sentiu o coração apertar.
Era ridículo o quanto amava aquele garoto.
Ridículo até demais.
Rodrigo saiu da piscina rindo e caminhou direto até eles.
Molhando tudo pelo caminho.
Matheus já balançava a cabeça antes mesmo dele chegar perto.
- Tu é doente.
- Mas tu me ama mesmo assim.
- Infelizmente.
Rodrigo abriu um sorriso enorme.
Depois puxou Emily pela cintura sem aviso.
Molhado.
Gelado.
- AH!
RODRIGO!
Ela começou a rir tentando empurrar ele.
- Você tá todo molhado!
- E tu continua linda irritada.
Emily sentiu o rosto esquentar imediatamente.
E Rodrigo percebeu.
Claro que percebeu.
Ele sempre percebia.
Rodrigo aproximou o rosto devagar.
O nariz encostando no dela.
Aquela intimidade fácil que fazia Emily esquecer como respirar.
- Diz que me ama.
Ela sorriu tentando esconder a vergonha.
- Você é convencido demais.
- Diz mesmo assim.
Emily passou os braços pelo pescoço dele lentamente.
E Deus.
Ela amava aquele garoto.
Amava de um jeito inteiro.
Sem defesa.
Sem medo.
- Eu amo você.
Rodrigo fechou os olhos sorrindo.
Como se ouvir aquilo ainda bagunçasse ele por dentro.
E bagunçava.
E Emily sabia.
Porque Rodrigo podia brincar com o mundo inteiro...
menos com ela.
- Caralho... - ele murmurou baixinho. - Eu vou casar contigo qualquer dia desses.
- Você não consegue nem chegar no horário das aulas.
- Isso é apenas detalhes.
Emily começou a rir.
Mas então percebeu o silêncio.
Olhou de lado.
Matheus estava observando os dois.
Quieto.
Com os braços cruzados.
A expressão neutra.
Só que Emily já conhecia ele o suficiente pra perceber pequenas coisas.
O maxilar travado.
Os olhos escuros presos na mão de Rodrigo na cintura dela.
E aquilo irritou ela instantaneamente.
- Qual é o teu problema agora?
Matheus piscou devagar.
Como se tivesse voltando pra realidade.
- Nenhum.
- Mentira.
Você tá com essa cara.
- Que cara?
Emily soltou uma risada sem humor.
- Essa cara de quem acha que o mundo inteiro faz escolhas erradas.
Rodrigo começou a gargalhar imediatamente.
- Ela te conhece muito bem, irmão.
- Infelizmente eu convivo com ela há anos.
Emily empurrou o ombro dele.
- Eu não lembro de ter pedido sua opinião em nenhum momento.
Matheus olhou diretamente pra ela.
E droga.
Emily odiava quando ele fazia aquilo.
Porque o olhar dele parecia firme demais.
Intenso demais.
Como se sempre estivesse tentando enxergar alguma coisa escondida dentro dela.
- Esse é exatamente o problema.
Tu nunca pede opinião de ninguém antes de fazer merda.
- Ah pronto.
Rodrigo entrou no meio dos dois imediatamente.
Literalmente.
Colocando uma mão no ombro de cada um.
- Ok.
Chega.
Vocês dois começam a discutir e daqui a pouco sobra pra mim.
- Porque você vive colocando ele no meio de tudo! - Emily reclamou.
- Eu?!
Ele aparece sozinho igual assombração!
Matheus soltou uma risada baixa.
- Assombração é teu boletim escolar.
- Vai tomar no teu cu, Albuquerque.
Emily começou a rir.
E Rodrigo olhou pra ela sorrindo imediatamente.
Pronto.
Era sempre assim.
Ele vivia pra arrancar aquele sorriso dela.
Matheus observava os dois em silêncio.
E Emily percebeu outra vez.
Aquela sensação estranha.
Como se ele ficasse diferente quando olhava pros dois juntos.
Ela nunca entendeu exatamente o motivo.
Nem queria entender.
Rodrigo puxou Emily mais pra perto e beijou o topo da cabeça dela distraidamente enquanto conversava.
Natural.
Automático.
Como alguém que já pertencia a ela.
- Tu vai dormir lá em casa hoje? - ele perguntou olhando pra ela.
Emily sorriu.
- Seu quarto parece zona de guerra.
- Mas tu ama minha zona de guerra.
- Infelizmente amo.
Rodrigo abriu aquele sorriso torto de novo.
O favorito dela.
O mais perigoso.
Porque fazia Emily esquecer qualquer possibilidade de futuro ruim.
E talvez esse fosse o problema.
Ela amava tanto Rodrigo...
que nunca conseguiu imaginar o mundo sem ele dentro.
Mas então Matheus ficou sério de repente.
Muito sério.
Os olhos saindo dos dois e indo diretamente pra entrada do clube.
O corpo inteiro endurecendo.
Emily franziu a testa imediatamente.
- Matheus?
Ele não respondeu.
Continuava olhando fixamente pra frente.
Como um animal percebendo perigo antes de todo mundo.
E Rodrigo percebeu também.
O sorriso diminuindo devagar.
- Que foi?
Silêncio.
A música continuava alta.
Pessoas riam perto da piscina.
Mas alguma coisa tinha mudado.
Emily sentiu.
Matheus deu um passo à frente lentamente.
Os olhos escuros completamente presos em alguém do outro lado do clube.
E quando falou...
a voz saiu baixa.
Fria.
Perigosa.
- Emily...
teu pai tá vindo pra cá.
O coração dela falhou uma batida.
Mas não foi isso que assustou ela.
Foi o resto.
Porque Augusto Bastos não estava sozinho.
E o homem ao lado dele carregava uma arma na cintura.





