Entre a Fúria e o Arrependimento

Sofia respirou fundo o ar quente e úmido do Rio de Janeiro, um cheiro que não sentia há quatro longos anos.

A mansão de Ricardo na Zona Sul erguia-se imponente à sua frente, exatamente como nas suas memórias, mas algo parecia diferente, talvez ela mesma.

Quatro anos em Lisboa a tinham mudado, a tinham tornado designer de moda, noiva de Lucas.

O seu plano era simples: visitar o túmulo dos pais no aniversário de falecimento deles, apresentar Lucas a Ricardo e aos pais dele, João e Helena, que sempre a trataram como neta.

Uma formalidade, nada mais.

Ainda se lembrava da frieza de Ricardo ao mandá-la para Lisboa, aos dezoito anos, depois de descobrir o seu diário e a sua paixão adolescente por ele, o melhor amigo do seu falecido pai, seu tutor.

Ele dissera que era para o seu bem, para ela amadurecer longe dele.

E ela amadurecera.

O telemóvel vibrou na sua mão. Era Lucas.

"Amor, tudo pronto para o nosso casamento no próximo mês?"

A voz dele, quente e segura, sempre a acalmava.

"Sim, meu bem, tudo perfeito. Mal posso esperar."

"E a conversa com o Ricardo? Achas que vai ser tranquilo?"

"Espero que sim, Lucas. Ele é meu tutor, quero a bênção dele, mesmo que seja só formalidade."

Desligou com um sorriso. Lucas era o seu porto seguro, o seu amor maduro.

Empurrou o pesado portão de ferro e entrou no jardim que conhecia tão bem.

Ao chegar à porta principal, antes que pudesse tocar a campainha, uma mulher alta, loira e com um ar arrogante abriu-a.

Sofia gelou.

Beatriz.

A sua perseguidora no colégio, a personificação dos seus pesadelos adolescentes.

"Pois não?" Beatriz perguntou, com um sorriso desdenhoso.

Sofia engoliu em seco. "Eu sou Sofia. Vim falar com o Ricardo."

Beatriz arqueou uma sobrancelha. "Ah, a órfãzinha. Ricardo está ocupado. E, a propósito, sou Beatriz, a noiva dele."

Noiva? Ricardo ia casar-se com Beatriz? A mulher que tornara a sua vida um inferno?

O mundo de Sofia pareceu girar.

Nesse momento, Ricardo surgiu atrás de Beatriz, impecável no seu fato caro.

Os olhos dele, antes paternais e depois confusos, agora eram frios como gelo.

"Sofia. Que surpresa desagradável."

A voz dele cortou-a mais do que qualquer faca.

"Ricardo, eu..."

"Beatriz é minha noiva," ele interrompeu. "A partir de hoje, vais chamá-la de tia Beatriz. Entendido?"

Tia Beatriz. A ordem ecoou na sua cabeça, humilhante, absurda.

Sofia olhou para o homem que um dia amara, que a criara, e viu um estranho.

Um estranho cruel, aliado à sua maior inimiga.

Ela tentou falar sobre Lucas, sobre o seu próprio casamento, mas as palavras não saíam.

Beatriz sorriu, vitoriosa.

"Seja bem-vinda de volta, queridinha."

A voz dela era puro veneno.

Sofia sentiu o chão fugir-lhe dos pés. O seu regresso ao Rio começava da pior maneira possível.

Ela queria apenas cumprir o ritual e ir embora, mas percebeu que seria muito mais complicado.

Engoliu em seco, a humilhação a queimar-lhe o rosto.

"Sim, Ricardo."

A sua voz saiu baixa, quase um sussurro.

Beatriz observava-a, triunfante. Ricardo mantinha a expressão dura.

Sofia pensou em Lucas, na vida que construíam juntos em Lisboa.

Isso deu-lhe uma centelha de força.

Ela não ia deixar que eles a destruíssem. Não outra vez.

Apresentaria o noivo, visitaria o túmulo dos pais e partiria para sempre.

Era só aguentar alguns dias.

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