Enquanto Meu Mundo Ardia: Onde Estava o Meu Marido?

O cheiro a queimado encheu-me as narinas primeiro, denso e acre.

Abri os olhos, confusa. O nosso apartamento, normalmente silencioso à noite, estava cheio de um som crepitante e distante.

Fumo.

Um fio cinzento passava por baixo da porta do quarto.

"Mãe!" gritei, saltando da cama. A minha barriga de nove meses dificultou o movimento, um peso desajeitado e precioso.

A minha mãe, Helena, que dormia no quarto de hóspedes desde que o seu problema de asma piorou, já estava à porta, a tossir.

"Clara, temos de sair daqui."

O pânico apoderou-se de mim. Corremos para a porta da frente, mas o calor que irradiava da madeira fez-nos recuar. Estava bloqueada pelo fogo.

A minha mão tremia ao pegar no telemóvel. Apenas um número importava. O do meu marido, Pedro.

O telefone chamou uma, duas, três vezes. A cada toque, o fumo ficava mais espesso.

Finalmente, ele atendeu. A sua voz soava distante, com música ao fundo.

"Clara? O que se passa? Estou um bocado ocupado."

"Pedro, o prédio está a arder," disse eu, a voz a falhar por causa do fumo e do medo. "Estamos presas. Eu e a minha mãe. Não conseguimos sair."

Houve uma pausa. Ouvi uma voz feminina ao fundo, a rir. Sofia. A sua amiga de infância.

"Um incêndio? Tens a certeza de que não é só o alarme de alguém? Já ligaste para os bombeiros?" A sua voz estava cheia de irritação, não de preocupação.

"Sim, claro que liguei! Mas eles ainda não chegaram. Pedro, por favor. Eu estou com medo."

"Ouve, Clara, a Sofia está a ter uma emergência aqui. Um cano de gás rebentou no apartamento dela. É muito perigoso. Tenho de a ajudar primeiro. Os bombeiros são profissionais, eles vão tratar de ti. Acalma-te e espera por eles."

Um cano de gás.

Ele estava a comparar um talvez com um inferno real.

"Pedro..." comecei, mas as palavras morreram na minha garganta.

"Tenho de ir. Liga-me quando estiveres segura," disse ele, e a chamada terminou.

O telemóvel caiu da minha mão. O som que fez ao bater no chão foi abafado pelo rugido crescente das chamas.

A minha mãe agarrou-se a mim, o seu corpo a tremer com a tosse.

Naquele momento, rodeada de fumo e com o meu filho por nascer a mexer-se dentro de mim, percebi que estava completamente sozinha.

O meu marido tinha feito a sua escolha.

E não éramos nós.

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