Embriões Roubados: O Preço da Crueldade

A porta do quarto abriu-se e o meu sogro, o Sr. Almeida, entrou.

Ele era um homem severo, com um ar permanentemente desaprovador.

O seu olhar passou por mim e fixou-se na minha mãe, que tinha acordado com o barulho.

"Sofia," disse ele, a sua voz dura como pedra. "Precisamos de conversar sobre a sua filha."

A minha mãe levantou-se, o cansaço evidente no seu rosto. "António, por favor, agora não. A Helena acabou de..."

"Agora sim," ele interrompeu-a. "O Pedro ligou-me. A Helena está a perturbá-lo enquanto ele está a tentar ajudar uma amiga em necessidade. Que tipo de esposa faz uma coisa dessas?"

Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.

Perturbá-lo?

"Eu perdi o meu filho," disse eu, a minha voz a sair mais forte do que esperava. "O seu neto."

O Sr. Almeida olhou para mim com desdém.

"Foi um acidente trágico, sim. Mas a vida continua. O Pedro fez o que qualquer homem decente faria: ajudar uma mulher indefesa. A Clara estava em pânico."

"E eu? Eu não estava em pânico? Eu estava sozinha, a sangrar na estrada!" A minha voz subiu, cheia de uma raiva que eu não sabia que tinha.

"Havia paramédicos para isso," ele retorquiu friamente. "O dever do Pedro era para com os vivos e presentes. Tu estavas a ser cuidada. A Clara e o cão dela não."

A minha mãe interveio, a sua voz a tremer de raiva. "Como te atreves, António? A minha filha quase morreu! Ela perdeu o bebé dela! E tu estás preocupado com um cão?"

"Esse 'cão' é a única companhia que a Clara tem!" ele gritou. "Vocês, mulheres, são sempre tão dramáticas! O Pedro está a fazer o bem! Devias ter ensinado a tua filha a ser mais compreensiva e menos egoísta!"

As suas palavras eram veneno.

Egoísta.

Eu era egoísta por querer o meu marido ao meu lado depois de perder o nosso filho.

Olhei para o rosto zangado do meu sogro e vi o Pedro daqui a vinte anos. A mesma falta de empatia, a mesma crueldade disfarçada de dever.

"Eu quero o divórcio," disse eu, a decisão a formar-se clara e sólida na minha mente.

O Sr. Almeida riu-se, um som feio e trocista.

"Divórcio? Não sejas ridícula. Vais superar isto. Casamentos passam por coisas piores. Vais para casa, vais ser uma boa esposa e vais apoiar o teu marido."

"Não," eu disse, olhando-o diretamente nos olhos. "Acabou. Eu não vou voltar para ele."

"Vais fazer o que eu digo!" ele rosnou, dando um passo em direção à minha cama.

A minha mãe colocou-se entre nós. "Sai daqui, António. Agora."

Ele olhou para ela, depois para mim, com o rosto vermelho de fúria.

"Tu vais arrepender-te disto, Helena. A nossa família não tolera este tipo de desrespeito."

Ele virou-se e saiu, batendo a porta com força atrás de si.

O silêncio que ele deixou era pesado.

Olhei para a minha mãe. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas também de uma determinação feroz.

"Fizeste a coisa certa, minha querida," disse ela suavemente, pegando na minha mão. "Fizeste a coisa certa."

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