Ele Escolheu a Outra: Meu Mundo em Chamas

Rastejei pelo chão, a única zona onde ainda havia um pouco de oxigénio.

A cada movimento, uma dor aguda atravessava a minha barriga. O meu corpo gritava em protesto, mas a minha mente estava focada num único objetivo: a porta.

O fumo picava-me os olhos, a tosse rasgava-me a garganta.

Consegui chegar ao corredor. As chamas lambiam as paredes do apartamento ao fundo, um inferno laranja e crepitante.

O pânico deu lugar a um instinto de sobrevivência frio e calculista.

Um vizinho, o senhor Afonso, um reformado que vivia na porta ao lado, apareceu no meio do fumo, com um pano molhado a cobrir o rosto.

"Menina Eva! Por aqui! As escadas estão bloqueadas, temos de ir pela saída de emergência dos fundos!"

Ele agarrou no meu braço, a sua força surpreendente para a sua idade, e puxou-me através do caos.

A cada passo, sentia o meu filho agitar-se dentro de mim, como se também ele sentisse o perigo.

"Aguenta, meu amor," sussurrei para a minha barriga. "A mamã vai tirar-nos daqui."

Finalmente, chegámos a uma porta de metal. O senhor Afonso forçou-a com o ombro e o ar fresco da noite invadiu os nossos pulmões.

Lá fora, o som das sirenes era ensurdecedor. Bombeiros corriam por todo o lado, as luzes vermelhas e azuis pintavam o edifício em chamas.

Assim que pisei a relva segura, as minhas pernas cederam.

Uma dor lancinante, mais forte do que qualquer coisa que já tinha sentido, explodiu no meu ventre.

Olhei para baixo. Havia sangue a escorrer pelas minhas pernas.

"Ajuda," consegui dizer antes de a escuridão me engolir.

Acordei num quarto de hospital branco e estéril. O cheiro a antisséptico substituiu o cheiro a fumo.

Uma enfermeira estava a ajustar o soro no meu braço.

"O meu bebé," foi a primeira coisa que disse, a minha voz rouca. "O meu filho está bem?"

A enfermeira olhou para mim com uma compaixão que me gelou o sangue. Ela não precisou de dizer nada.

Um médico entrou no quarto, o seu rosto sério.

"Senhora Eva," começou ele, com uma voz calma e profissional. "Devido à inalação de fumo e ao stress extremo, entrou em trabalho de parto prematuro. Fizemos tudo o que podíamos."

Ele fez uma pausa.

"Lamento imenso. Perdemos o bebé."

O mundo parou. As palavras dele ecoaram no silêncio do quarto, mas não pareciam reais.

A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Estava vazia. Plana. O peso, a vida que carreguei durante oito meses, tinha desaparecido.

Não chorei. Não gritei.

Fiquei apenas a olhar para a parede branca, sentindo um vazio tão grande que parecia que o meu próprio corpo tinha sido consumido pelo fogo.

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