Ponto de Vista: Eloísa
Acordei com o bipe rítmico de uma máquina e os sons suaves e abafados de um hospital. Uma dor surda latejava atrás dos meus olhos. Por um momento, fiquei desorientada, o teto branco estéril acima de mim uma tela em branco. Então as memórias da noite anterior voltaram com tudo, uma onda de dor e fúria.
"Eloísa? Você acordou."
Virei a cabeça. Bernardo estava sentado na cadeira ao lado da minha cama, seu rosto uma máscara de preocupação cansada. Ele parecia não ter dormido. Seu terno caro estava amassado, seu cabelo ligeiramente desgrenhado. A imagem perfeita de um amante preocupado. A atuação era impecável.
"Graças a Deus", ele suspirou, pegando minha mão. "Quando me ligaram... quando disseram que te encontraram desmaiada na rua... eu pensei..." Ele deixou a frase no ar, sua voz grossa de emoção fingida.
Olhei para a mão dele cobrindo a minha. A mesma mão que me segurou na noite passada. A mesma mão que teria assinado os papéis para me esquartejar por peças de reposição. Senti nada além de um nojo frio e pesado.
"O que aconteceu?", perguntei, minha voz rouca.
"Você está com febre. Exaustão, desidratação... o médico disse que você tem se esgotado", disse ele, seu polegar acariciando as costas da minha mão. O gesto, antes um conforto, agora parecia uma violação. "A culpa é minha. Eu deveria ter feito você descansar."
Olhei para ele, olhei de verdade. Para a preocupação cuidadosamente construída em sua testa, a dor ensaiada em seus olhos. Como eu nunca vi o ator por baixo?
"Preciso de um pouco de água", eu disse, minha voz plana. Foi a primeira coisa que pensei para fazê-lo me soltar.
"Claro", disse ele, levantando-se de um pulo, ansioso para bancar o cuidador. "Vou buscar para você. Não se mova."
Ele saiu apressado do quarto. Ao fazer isso, seu celular, que estava em seu colo, escorregou e caiu no assento da cadeira. Ele não percebeu.
Um instante de silêncio. Depois outro. Ele se foi.
Meu coração martelava no peito. Lembrei-me de uma época em que o teria chamado de volta, preocupada que ele tivesse esquecido sua linha de vida para o mundo. Agora, era uma oportunidade.
Com uma onda de adrenalina, sentei-me, ignorando a tontura, e peguei o celular. Minhas mãos tremiam, mas minha mente estava clara. A senha dele. Todo ano, no meu aniversário, ele a mudava para a nova data. *Uma pequena homenagem à minha gênia favorita*, ele costumava dizer. *Meu mundo gira em torno de você.*
Digitei os quatro dígitos: 1-4-0-8. 14 de agosto. Meu aniversário.
O celular desbloqueou.
A tela se acendeu, e a primeira coisa que vi foi sua lista de contatos. Fixado no topo, marcado com um emoji de coração, estava um nome. Dafne. Não "Dafne Ferraz". Apenas... Dafne. Simples. Íntimo. Permanente.
Meu próprio nome não estava em lugar nenhum nos contatos principais. Rolei para baixo, passando por associados de negócios e membros da família. Lá estava eu, arquivada sob 'E'. Apenas "Eloísa Pires". Sem emoji. Sem apelido carinhoso. Clínico. Assim como meu projeto de pesquisa.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Deslizei para suas redes sociais. Seu perfil público era um santuário cuidadosamente curado para seu relacionamento com Dafne. Fotos deles em bailes de caridade, em iates, em jantares de família. Uma vida da qual eu nunca fiz parte. Uma vida que eu estava ativamente financiando com meu trabalho e, aparentemente, com meu próprio corpo.
Em cada foto, ele era o noivo devotado, o homem poderoso apaixonado por sua parceira linda e frágil. Não havia vestígio de mim. Era como se os últimos sete anos da minha vida, da nossa vida, tivessem sido meticulosamente apagados de seu registro público. Eu era um fantasma.
A porta rangeu ao abrir.
Meu sangue virou gelo. Bernardo estava de volta.
Atrapalhei-me com o celular, enfiando-o debaixo do meu travesseiro bem a tempo de ele entrar completamente no quarto. Fechei os olhos com força, minha respiração superficial, fingindo dormir.
"Eloísa?", ele sussurrou, sua voz próxima. Eu podia sentir o cheiro de seu perfume caro. "Eu trouxe um pouco de água para você."
Eu não me movi. Concentrei-me em manter minha respiração regular, lenta. Uma habilidade que aperfeiçoei durante longas noites esperando os experimentos terminarem.
Ouvi-o colocar o copo na mesa de cabeceira. Um suspiro pesado. "Você realmente me assustou, sabia?"
Um momento de silêncio. Então, o farfalhar suave dele pegando algo da cadeira. Seu celular. Meu coração era um pássaro frenético batendo contra minhas costelas. Eu o deixei desbloqueado? Ele viu?
Ele soltou outro suspiro, mais suave, de alívio. Ele pensou que eu ainda estava dormindo. Então, o clique-clique-clique suave dele digitando.
Uma notificação de mensagem soou suavemente. Mesmo com os olhos fechados, eu podia imaginar a tela. Uma mensagem de Dafne.
Ouvi-o digitar uma resposta rápida. Então ele se inclinou, seus lábios roçando minha testa. "Durma bem, meu amor", ele sussurrou.
As palavras, antes o som mais doce do mundo, eram agora uma mentira venenosa. Senti uma onda de náusea.
Ele ficou ali por mais um momento, então ouvi seus passos se afastarem. A porta clicou ao fechar.
Ele se foi. De novo.
Esperei, contando os segundos, até ter certeza. Então abri os olhos. O quarto estava vazio. O copo de água estava na mesinha de cabeceira, intocado.
Para onde ele foi com tanta pressa? Para responder à mensagem dela? Para correr para o lado dela?
Um sorriso amargo torceu meus lábios. Ontem à noite ele estava se preparando para me servir a sobremesa favorita de sua noiva. Esta noite, ele deixou sua namorada doente no hospital para ir atender a todos os caprichos de sua noiva.
Eu não ia beber a água dele. Eu não ia esperar que ele voltasse.
Apertei o botão de chamada da enfermeira. Disse a ela que estava me sentindo melhor, que queria fazer meus exames finais e receber alta. Fui uma paciente modelo, calma e cooperativa.
Uma hora depois, eu estava vestida e assinando os papéis da alta. O nome de Bernardo estava listado como meu contato de emergência. Olhei para ele, então deliberadamente o risquei e escrevi o nome do meu irmão: Felipe Pires.
Bem quando eu estava prestes a sair, Bernardo voltou correndo, sem fôlego, segurando uma pequena e elegante caixa de uma confeitaria famosa. "Eloísa! Você está de pé! Eu... eu te trouxe aquele cheesecake que você ama. A fila estava insana."
Ele esteve fora por mais de uma hora.
"Eu já recebi alta", eu disse, minha voz vazia de emoção. "Você chegou tarde demais."
Ele olhou da caixa de cheesecake para o meu rosto, um lampejo de confusão em seus olhos. "Mas... eu te prometi..."
Passei por ele sem outra palavra.
O apartamento parecia diferente quando voltei. Era nosso apartamento, um lugar que compartilhamos secretamente por três anos. Ele pagava o aluguel, eu decorava. Cada peça de mobiliário, cada livro na prateleira, era uma memória. O sofá macio onde passamos inúmeras noites assistindo a filmes antigos. A poltrona gasta onde ele se sentava e me observava trabalhar em minhas equações, com um olhar que eu pensava ser de admiração em seu rosto.
Agora, o lugar todo parecia contaminado. Olhei para a vida que havíamos construído, e tudo o que vi foi um palco, um adereço em sua grande decepção.
Eu tinha que apagar tudo. Tudo.
Comecei a tirar livros das prateleiras, pronta para encaixotá-los, mas uma onda de tontura e exaustão pura e esmagadora me atingiu. Meu corpo ainda estava fraco da febre, do choque emocional.
Ainda não. Eu não conseguia fazer isso ainda.
Retirei-me para o meu quarto, o único cômodo que era verdadeiramente meu, e tranquei a porta.
Ouvi Bernardo entrar um pouco mais tarde. Ele bateu suavemente na minha porta. "Eloísa? Ainda está brava? Desculpe pelo cheesecake."
Eu não respondi.
Ouvi-o suspirar do outro lado da porta. "Ok. Descanse um pouco. Conversamos amanhã."
Ele ainda achava que era por causa de uma sobremesa perdida. Ele não tinha ideia de que era um homem morto andando. Ele não tinha ideia de que eu já estava fazendo as malas para uma nova vida, um novo país, uma nova identidade. E ele nunca mais me veria.
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