Do Despejo à Vitória: A Jornada de Clara

O meu casamento terminou no dia em que recebi a notificação de despejo.

O papel branco e frio estava colado na porta do nosso apartamento, com letras pretas e pesadas a anunciar o fim.

O proprietário dizia que não pagávamos o aluguer há três meses.

Eu fiquei ali parada, a olhar para o aviso, sentindo-me completamente vazia. Peguei no meu telemóvel para ligar ao meu marido, Leo.

A chamada tocou uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu.

Liguei outra vez. Desta vez, foi direto para o correio de voz. Ele tinha desligado o telemóvel ou bloqueado o meu número.

Sentei-me nos degraus frios da escada, com a cabeça entre as mãos. Onde estava o dinheiro? Eu tinha transferido a minha parte do aluguer para a conta dele todos os meses, sem falta.

Nesse momento, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido.

"Olá, é a Sofia. Acho que precisamos de conversar. Estou no Café Central, perto da tua casa."

Sofia. A ex-namorada do Leo. A mulher que ele jurou que já não significava nada para ele.

O meu coração começou a bater mais depressa. Levantei-me, com as pernas a tremer um pouco, e caminhei em direção ao café.

Ela estava sentada perto da janela, a mexer num café com leite. Usava um vestido caro que eu nunca poderia pagar.

Quando me viu, sorriu. Não era um sorriso amigável.

"Senta-te, Clara."

Eu não me sentei. Fiquei de pé, a olhar para ela.

"O que é que queres?"

Ela riu-se, um som baixo e controlado.

"O Leo não te contou? Ele está comigo agora. Nós voltámos a estar juntos há alguns meses."

As palavras dela atingiram-me, mas eu mantive a minha expressão neutra.

"E o dinheiro do aluguer?" perguntei, com a voz firme.

Sofia encolheu os ombros, com um ar de indiferença.

"Oh, isso. O Leo precisava dele. Ele teve alguns... investimentos maus. Eu ajudei-o. Com a condição de ele te deixar."

Ela fez uma pausa, olhando para mim como se eu fosse algo sujo no seu sapato.

"Ele fez a sua escolha, Clara. Ele escolheu-me a mim. Ele nunca te amou de verdade. Tu eras apenas conveniente."

Eu não disse nada. Apenas me virei e saí do café.

Enquanto caminhava de volta para o prédio, o meu telemóvel tocou. Era a minha sogra, a mãe do Leo, a Dona Isabel.

Atendi.

"Clara! Onde está o Leo? Ele não atende as minhas chamadas!"

A voz dela era aguda e exigente, como sempre.

"Eu não sei," respondi, com a voz cansada. "Acho que ele está com a Sofia."

Houve um silêncio do outro lado da linha, depois um suspiro irritado.

"Essa mulher outra vez? Clara, tens de controlar o teu marido! O que é que andaste a fazer? És uma esposa inútil! Não consegues sequer manter o teu homem longe de outra mulher?"

Ela continuou a gritar, a culpar-me por tudo.

"Ele gastou todo o nosso dinheiro do aluguer. Fomos despejados."

"O quê?! Despejados? O meu filho não faria isso! Deves tê-lo provocado! És tu a culpada! Sempre soube que não eras boa o suficiente para ele!"

Desliguei a chamada. Não conseguia ouvir mais.

Fiquei ali, em frente à porta selada, com um aviso de despejo a olhar para mim. O meu casamento, a minha casa, tudo tinha desaparecido. E a família dele culpava-me.

Nesse momento, eu soube. O divórcio não era uma opção, era uma necessidade.

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