Divórcio Forjado: O Jogo do Destino

Passei a noite no sofá, agarrada a uma almofada, o meu corpo a doer e a minha mente a girar. O sono não veio. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto do Pedro, contorcido de dor e raiva.

De manhã, a casa estava estranhamente silenciosa. Helena não estava na cozinha a fazer barulho. O Pedro não saiu do escritório.

Levantei-me, os meus membros rígidos, e fui ver o Leo. Ele estava a acordar, a balbuciar no seu berço, o seu rosto inocente e feliz.

Peguei nele, o seu cheiro familiar e o seu calor a darem-me uma pequena centelha de força.

"Não te preocupes, meu amor," sussurrei no seu cabelo macio. "A mamã vai resolver isto."

Mas como? Eu não tinha provas, apenas a minha palavra. E a minha palavra já não valia nada.

A porta do escritório abriu-se. O Pedro saiu, já vestido com um fato. Ele não olhou para mim nem para o Leo.

"Vesti-te," disse ele, a sua voz fria e distante. "O advogado está à nossa espera às dez."

"Pedro, por favor, não faças isto."

Ele ignorou-me, indo para a cozinha para fazer café.

A Helena apareceu vinda do seu quarto, também vestida para sair. Ela olhou para mim com desprezo.

"Ainda estás aqui? Pensei que já terias tido a decência de ir embora."

Eu agarrei o Leo com mais força.

"Esta também é a minha casa. E este é o teu neto."

Helena bufou.

"Ele não é meu neto. Ele é a prova da tua vergonha."

A crueldade nas suas palavras roubou-me o fôlego. Como podia ela ser tão insensível? Ela tinha adorado o Leo desde o dia em que ele nasceu.

O Pedro voltou para a sala, uma chávena de café na mão.

"Mãe, para com isso. Vamos resolver isto civilizadamente."

"Civilizadamente?" Helena riu. "Ela desonrou o nosso nome de família, e tu queres ser 'civilizado'? Devias expulsá-la para a rua!"

"Já disse que vou tratar disto," disse o Pedro com firmeza. Ele finalmente olhou para mim. "Clara, tens uma hora."

Com isso, ele e a Helena saíram de casa, deixando-me sozinha com o meu filho e o meu mundo a desmoronar-se.

Eu sabia que não podia ficar ali. A atmosfera estava envenenada.

Vesti o Leo e a mim mesma. Fiz uma pequena mala com algumas das nossas coisas essenciais. Olhei para o nosso apartamento, para as fotos de nós os três a sorrir nas paredes. Parecia uma vida de outra pessoa.

O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Hesitei, mas atendi.

"Clara? Sou eu, o Tiago."

O meu coração parou por um segundo. Tiago. O homem que estava no centro deste pesadelo.

"Tiago? Como conseguiste o meu número?"

"Pedi-o a um colega. Ouvi dizer que não foste trabalhar. Está tudo bem?"

A sua voz soava genuinamente preocupada.

As lágrimas brotaram dos meus olhos. Eu não sabia em quem confiar, mas estava desesperada.

"Não, Tiago. Nada está bem."

A minha voz falhou, e comecei a soluçar ao telefone.

"Clara, o que se passa? Onde estás? Eu posso ajudar."

Hesitei. Podia confiar nele? Mas que outra opção eu tinha?

"Estou em casa. Mas estou de saída."

"Não vás a lado nenhum. Eu vou aí. Dá-me vinte minutos."

Ele desligou antes que eu pudesse protestar.

Parte de mim estava apavorada. E se o Pedro estivesse certo? E se o Tiago tivesse aproveitado-se de mim naquela noite?

Mas outra parte de mim, a parte que o conhecia como um colega simpático e respeitoso, agarrava-se à esperança de que ele pudesse ter algumas respostas.

Ele era a minha única pista.

Vinte minutos depois, o intercomunicador tocou. Era o Tiago. Deixei-o entrar.

Ele entrou no apartamento, o seu rosto cheio de preocupação.

"Clara, pareces horrível. O que aconteceu?"

Eu não consegui conter-me. Contei-lhe tudo. O teste de ADN, a acusação do Pedro, o divórcio iminente.

Enquanto eu falava, o rosto do Tiago passou da preocupação para o choque, e depois para uma raiva sombria.

"Aquele filho da mãe," disse ele entre dentes. "Como se atreve ele a acusar-te de uma coisa dessas?"

"Tiago," eu disse, a minha voz um sussurro. "A noite da festa da empresa... tens a certeza de que não aconteceu nada? Eu estava tão bêbada."

Ele olhou-me diretamente nos olhos, a sua expressão séria e sincera.

"Clara, eu juro pela minha vida. Não te toquei. Levei-te para o quarto do hotel, pedi um café para ti, e esperei no corredor até ter a certeza de que estavas segura e a dormir. Depois fui-me embora. Podes perguntar ao pessoal do hotel."

Eu olhei para ele, procurando qualquer sinal de mentira. Não vi nenhum. Apenas honestidade e raiva em meu nome.

Senti uma onda de alívio, mas foi rapidamente substituída pela confusão.

"Então como é que isto é possível? O teste de ADN não mente."

O Tiago franziu a testa, a sua mente a trabalhar.

"Um teste de ADN pode ser adulterado. Ou pode haver um erro. Ou..." Ele parou, olhando para o Leo, que estava a brincar com um brinquedo no chão.

"Ou o quê?" perguntei.

"Ou o Pedro não é quem tu pensas que ele é," disse o Tiago em voz baixa. "Clara, há quanto tempo conheces a família dele? Sabes tudo sobre eles?"

A pergunta apanhou-me de surpresa.

"Conheço o Pedro há cinco anos. A mãe dele... ela nunca gostou muito de mim, mas eu pensei que era apenas uma sogra protetora."

"E o pai dele?"

"O pai dele faleceu quando o Pedro era adolescente. Ele não fala muito sobre isso."

O Tiago andava de um lado para o outro na sala.

"Algo aqui não bate certo, Clara. Uma acusação tão rápida, a recusa em ouvir-te, a insistência no divórcio... parece tudo demasiado... planeado."

As suas palavras enviaram um arrepio pela minha espinha.

Planeado? Poderia o Pedro... poderia ele estar a tentar livrar-se de mim?

Mas porquê? E como é que ele explicaria o teste de ADN?

"Eu não entendo," disse eu, abanando a cabeça. "Nada disto faz sentido."

"Vamos descobrir," disse o Tiago, a sua voz firme. "Mas primeiro, precisas de sair daqui. Podes ficar no meu apartamento de hóspedes. É seguro, e o Pedro não sabe onde é."

Eu hesitei. Ir com o Tiago podia parecer suspeito.

Mas para onde mais podia eu ir? Os meus pais viviam noutra cidade. Os meus amigos... eu não queria sobrecarregá-los com esta confusão.

Olhei para o Leo. Eu tinha de o proteger.

"Ok," disse eu, tomando uma decisão. "Obrigada, Tiago."

Ele deu-me um pequeno sorriso tranquilizador.

"Não te preocupes, Clara. Vamos chegar ao fundo disto. Juntos."

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