Dezoito Chamadas e Um Adeus

A conta do hospital chegou numa manhã de terça-feira. Vinha num envelope pardo e discreto, mas o seu peso parecia afundar a mesa da cozinha.

Era a fatura final do parto e da unidade de cuidados intensivos neonatais.

Para o meu filho, Leo.

Que viveu apenas sete horas.

O meu corpo arrefeceu. As minhas mãos tremiam enquanto eu olhava para os números. Cada zero parecia um buraco vazio, um lembrete do que eu tinha perdido.

O fogo. A fumaça. A minha luta desesperada por ar no sexto andar do nosso prédio de apartamentos.

A memória voltou com força total.

Eu estava presa, o corredor cheio de uma fumaça negra e espessa. Liguei para o meu marido, Miguel, uma, duas, dezoito vezes.

Quando ele finalmente atendeu, a sua voz estava irritada, distante.

"Clara, o que foi? Estou ocupado."

"Miguel, fogo! O prédio está a arder, estou presa!"

A minha voz era um grito rouco, rasgado pela fumaça.

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi a voz chorosa da sua meia-irmã, Sofia.

"Miguel, o meu tornozelo dói tanto. Podes ir buscar-me mais gelo?"

A voz dela era fraca, patética.

Miguel voltou ao telefone, a sua impaciência clara.

"Olha, os bombeiros já devem estar a chegar. A Sofia torceu o tornozelo a descer as escadas, está em pânico. Tenho de cuidar dela. Acalma-te e espera por ajuda."

Ele desligou.

Esperar por ajuda.

Eu estava grávida de oito meses do filho dele.

Olhei para a conta na minha mão. O nome de Miguel estava listado como o cônjuge responsável. Responsável.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

Peguei no meu telemóvel e disquei o número dele. Era hora de acertar as contas.

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