Desejo Inesperado: A Aluna que quebrou todas as Regras

O entardecer dourava Londres com uma luz triste e bonita, o tipo de beleza que dói de olhar.

Na calmaria, o som de passos apressados rasgou o corredor, seguido de uma explosão de energia quando Anne Marie Cooper entrou no apartamento de Sophia Jones como um furacão de salto alto e fúria acumulada.

A porta bateu na parede.

A bolsa voou.

As sandálias foram parar em direções opostas.

E Anne, com os cabelos desgrenhados e os olhos castanhos faiscando, anunciou guerra sem dizer uma palavra.

A sala, porém, parecia o cenário de um funeral, o funeral de um amor idiota.

Cortinas semicerradas, luz apagada. Potes de sorvete vazios formando uma barricada na mesa, lenços espalhados. E no meio do caos, Sophia, de moletom de unicórnio, abraçada a uma almofada cor-de-rosa, encarando a TV desligada como se esperasse que o aparelho devolvesse a dignidade roubada.

Anne piscou.

— Por todos os deuses de Oxford, mulher… você virou uma órfã emocional de pijamas! — exclamou, jogando-se no sofá e abrindo um pacote de batatas fritas. — Fala logo o que aconteceu antes que eu chame um padre, um terapeuta e um exorcista.

Sophia suspirou.

Nem piscou.

— É confortável. — murmurou, com voz rouca. — E ele… ele sempre dizia que eu ficava fofa nesse moletom.

Anne girou a cabeça lentamente, com aquele olhar que mistura pena e fúria contida.

— Ele também dizia que te amava pra sempre, lembra? E, olha só, o "pra sempre" dele durou menos que um milkshake de morango.

Então, com todo respeito à fofura do unicórnio… esse moletom tá oficialmente na lista dos crimes passionais.

Sophia mordeu o lábio.

O peito apertou.

Três semanas desde o fim, mas cada dia doía como se tivesse acabado ontem. Anne respirou fundo, o tom mudando de sarcasmo para ternura protetora.

— Sophie, escuta… eu tenho ódio suficiente guardado pra explodir a cidade se você quiser. Mas preciso que você queira se levantar.

Silêncio.

A única coisa que se ouvia era o farfalhar da embalagem de batata.

— Você precisa transformar essa dor em combustível, não em covil — ela continuou. — Você é a tempestade, não a vítima.

E foi aí que as lembranças vieram, afiadas, cruéis, impossíveis de deter.

Chuva fina.

Um coração acelerado. Uma sacola escondida com o presente perfeito: lingerie vinho rendado. Um sobretudo preto. A chave reserva debaixo do vaso. O amor pronto pra surpreender.

Mas ao abrir a porta… o mundo parou.

A luz amarela, o lençol amassado. E ele, nu, sobre a "melhor amiga", Sabrina.

O som dos gemidos.

O cheiro de sexo.

O riso idiota dele ao perceber a presença dela.

E, por cima de tudo, a frase que partiu algo dentro dela para sempre:

— Eu posso explicar, amor…

Não podia. Não havia explicação possível. A lingerie, o sobretudo, o amor, tudo virou ridículo em segundos.

Sophia nem lembra de soltar as chaves.

Só lembra de correr. E de estar no ônibus de volta pra casa, tentando se cobrir, enquanto um velho tarado olhava pra sua cinta-liga cada vez que o motorista freava. Humilhação com juros e correção monetária.

— Quer que eu repita o que penso dele? — Anne perguntou, mastigando com raiva. — Porque minha lista de xingamentos tem atualizações diárias.

— Não — Sophia murmurou. — Você já disse tudo.

— Eu duvido — rebateu Anne, impiedosa. — Ele é um lixo reciclável de ego masculino. Você se arrumou toda, pronta pra um momento de cinema, e ele estava ensaiando o Kama Sutra com a melhor amiga. Se eu cruzar com aquele imbecil na rua, a manchete vai ser “Mulher arrasa ex-namorado com salto agulha”.

Sophia enterrou o rosto nas mãos.

— Eu só queria que tivesse dado certo, sabe? Que ele visse o quanto eu o amava…

— E ele te mostrou o quanto não merecia amor nenhum, Sophie — Anne cortou, firme. — Ele te traiu porque é covarde, não porque você não era suficiente.

Silêncio.

Pesado, mas necessário.

Sophia respirou, com a voz quase trêmula:

— Foram três anos, Anne. Três.

— Três anos desperdiçados. — Anne rebateu sem hesitar. — Agora chega. Hora de devolver o tempo roubado.

O olhar de Anne mudou — o tom sarcástico deu lugar ao brilho conspiratório de quem planeja um resgate épico.

— Hoje tem festa. Boate nova. Música boa, tequila forte e homens decentes. Você vai tirar esse moletom e se lembrar de quem é.

Sophia piscou, meio rindo.

— E se eu desmoronar na pista?

— Eu te ergo pelos cabelos. — Anne deu um sorriso diabólico. — Mas você não vai, porque hoje você vai lembrar quem é a gostosa aqui.

Sophia arqueou a sobrancelha, confusa.

— A gostosa?

— A própria. A ruiva de filme, inteligente, sensual e dona do próprio palco.

Pesquisa de campo conduzida por mim: rebolar com batom vermelho acelera 50% o processo de cura emocional.

— E os outro 50%?

— Uma boa tequila e uma playlist de vingança.

— Dados comprovados?

— Totalmente empíricos, com base em trauma e glitter.

Sophia riu.

E foi a primeira risada verdadeira em semanas.

Trinta minutos depois, o apartamento parecia um camarim de show.

Secador ligado, cheiro de laquê, batom rolando na bancada, rímel em modo sobrevivência.

E então ela apareceu. No espelho, o reflexo era outro. O vestido preto justo abraçava cada curva. O decote era uma promessa. O salto vermelho, pura rebeldia. Os cabelos ruivos em ondas, os lábios cor de vinho.

Nada nela dizia “vítima”. Tudo gritava “renascida”.

Anne olhou e sorriu com orgulho.

— Lembra dessa sensação?

— Qual?

— A de olhar pra si mesma e pensar: Ele só me traiu porque não sabia lidar com o poder que tinha ao lado.

Sophia soltou o cabelo, ajeitou o batom e sorriu. Um sorriso pequeno. Mas cheio de fogo. Pegou o moletom de unicórnio, dobrou com cuidado, colocou dentro de uma caixa junto com a lingerie, as fotos e o sobretudo. Escreveu em letras firmes na tampa:

“Lixo Emocional, Coleta Amanhã.”

Anne bateu palmas.

— Aleluia. Agora sim. Vamos, rainha. Hoje você dança como se o amanhã estivesse com inveja.

Sophia ergueu o queixo, sentindo o vestido abraçar sua pele e o coração pulsar no ritmo da vida voltando. O corredor parecia diferente, como se o mundo, enfim, respirasse junto com ela.

E quando Anne, já rindo no elevador, sussurrou:

— Ele vai se arrepender, Sophia. Vai lembrar pra sempre quem é a gostosa aqui.

Sophia sorriu para o próprio reflexo e respondeu, firme, com a convicção de quem renasceu das cinzas:

— Eu sou a gostosa aqui.

E, talvez, a pista de dança estivesse prestes a ser o palco da vingança mais elegante que Londres já viu.

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