Debaixo Da Bananeira

Eu estava na sala, quase arrancando os cabelos, quando ouvi a voz de Dona Dulceneia vinda da cozinha.

— Menina, você viu o escândalo de ontem?

Olhei em volta, mas, claro, Dona Dulceneia não estava em lugar nenhum. A voz, irritante e esganiçada, vinha do Zezinho, meu papagaio. A desgraça do bicho estava repetindo as fofocas da velha!

— Você viu que a Zuleica tá grávida do irmão do padeiro? — Zezinho continuou, balançando as asas como se estivesse se divertindo com aquilo.

— Zezinho, eu juro que vou te depenar se você continuar com essas fofocas! — cruzei os braços e fui até a gaiola, encarando o papagaio como se ele fosse entender. — Eu já aguento a Dona Dulceneia espalhando essas besteiras pela cidade toda. Agora você vem pra dentro de casa me atormentar com isso?

Ele inclinou a cabeça para o lado, meio que debochado, como se estivesse me desafiando.

— Mas é verdade, viu? — ele insistiu, sacudindo as penas. — Eu ouvi ela dizer!

Dei uma risada nervosa. Aquilo era uma loucura. Eu estava, literalmente, discutindo com um papagaio fofoqueiro.

— Você ouviu, né? Você e o resto da cidade! — respirei fundo, tentando manter a paciência. — E eu aqui, me preocupando com uma bananeira!

— Bananeira, bananeira, bananeira... — Zezinho começou a repetir, e eu só não quebrei o vaso na mesa porque me controlei.

Foi nessa hora que a porta se abriu e Natália apareceu, com aquele jeito descontraído de sempre, segurando uma sacola de laranja.

— Eita, mas tá tendo discussão acalorada por aqui! — ela riu, se aproximando da gaiola de Zezinho. — Esse papagaio aí tá cada vez mais afiado, hein?

— Nem me fala, Nati. — passei a mão pelo rosto, exausta. — Ele tá repetindo tudo o que ouve da Dona Dulceneia. Aí, fica jogando essas fofocas na minha cabeça o dia todo.

Natália largou as laranjas em cima da mesa e se encostou no batente da porta, me encarando com aquela cara de quem ia soltar uma verdade que eu provavelmente não estava preparada para ouvir.

— Amiga, me diz uma coisa. Não tá na hora de parar de se preocupar com essa bananeira, não?

Suspirei, já sabendo onde aquilo ia dar.

— Natália, a gente já falou sobre isso. Aquela bananeira tem história. Meu pai plantou, lembra?

Ela ergueu uma sobrancelha, já armando seu argumento.

— Lembro. E também lembro que você tá gastando suas férias se estressando com essa confusão. — ela cruzou os braços. — Rafa, você tem noção que tem uma praia linda a cinco quilômetros daqui e você tá aqui, brigando com um papagaio e defendendo uma bananeira?

— Não é só uma bananeira! — apontei para fora da janela, onde o tal pé de bananeira brilhava ao sol como se fosse um monumento histórico. — Aquela árvore é o que sobrou da memória do meu pai! Não vou deixar ninguém cortar!

Natália revirou os olhos.

— Rafa, olha só. Entendo a importância sentimental. Mas você tá deixando de viver! Essas férias eram pra ser teu momento de relaxar, curtir, sair desse stress todo. Entretanto, você tá aí, emburrada, brigando com o Daniel da fábrica, brigando com o Zezinho... — ela apontou pro papagaio, que, nesse momento, estava alheio a tudo, roendo um pedaço de madeira.

— Não tô emburrada! — cruzei os braços, me defendendo. — Só acho que eles podiam deixar a bananeira lá. Qual o problema, hein? Tem tanto espaço naquele terreno!

— Amiga, eles vão construir uma fábrica! Não dá para ficar desviando de árvore, ainda mais de uma só porque você tem apego emocional. — ela fez uma pausa, me encarando com um olhar mais suave. — Entendo sua dor. Sei que é uma ligação com teu pai, mas... ele ia querer te ver feliz, não te desgastando por causa de uma árvore.

Fiquei quieta por um segundo, tentando absorver o que ela estava dizendo. A verdade é que eu sabia que ela tinha razão, porém... era complicado demais deixar pra lá.

— É fácil falar. — me virei de costas, encarando a janela e a tal bananeira de novo. — Eu só... sinto que, se eu deixar eles cortarem, é como se eu estivesse abandonando o que restou do meu pai. E se eu não fizer isso, quem vai fazer?

— Você não tá abandonando nada, Rafa. — Natália se aproximou e colocou a mão no meu ombro. — O que teu pai deixou pra você não tá só naquela árvore. Tá nas suas lembranças, no que ele te ensinou. Essa bananeira não define isso.

Suspirei. O peso nas minhas costas parecia dobrar a cada segundo daquela conversa. Eu não queria admitir que ela estava certa, mas, ao mesmo tempo, parte de mim sabia que insistir nessa briga estava me desgastando.

— Talvez eu esteja sendo teimosa. — murmurei, ainda encarando a janela.

— Só um pouquinho. — ela sorriu, apertando de leve meu ombro. — Sua teimosia também é uma herança de família, né?

Dei uma risada curta, meio sem graça.

— Meu pai era o mais teimoso de todos. E olha onde eu fui parar.

— Defendendo uma árvore e discutindo com um papagaio. — Natália riu alto. — Você é única, amiga.

Zezinho, como se tivesse percebido que estava sendo parte da piada, soltou mais uma das suas pérolas:

— Teimosa! Teimosa!

Revirei os olhos, me sentindo derrotada pelo papagaio.

— É isso, agora até o Zezinho tá contra mim.

— Zezinho tá é certo. — Natália balançou a cabeça. — Amiga, relaxa. Aproveita suas férias. Vai dar um tempo dessa confusão com o Correia. Sabe o que você devia fazer?

— O quê?

— Ir até a praia, pegar um sol e, quem sabe, dar uma chance pro dono da fábrica. — ela deu uma piscadinha sugestiva.

Revirei os olhos, no entanto, dessa vez foi mais em diversão do que irritação.

— Ah, não começa com isso também.

— Só tô dizendo. Vai que...

Antes que eu pudesse responder, Zezinho resolveu encerrar a conversa de uma forma muito característica dele:

— Vai que... vai que... — repetiu, balançando a cabeça de um lado pro outro.

Natália caiu na gargalhada, e eu acabei rindo junto, porém, desistir estava fora de questão.

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