De Peça de Museu a Rainha da Minha Vida

No dia seguinte, agi como se nada tivesse acontecido.

Ignorei os olhares confusos de Heitor, as suas tentativas de conversa.

Às dez da manhã, recebi um e-mail encriptado.

"Agência Fênix. Confirmação de pagamento recebida. O veículo duplicado e a 'duplicata biológica' estão em preparação. A sua nova identidade e documentos de viagem estarão prontos em 48 horas."

Respondi com uma única frase.

"Obrigada pela vossa eficiência."

Fui ao cofre do escritório e retirei a minha pulseira de esmeraldas. A primeira joia que Heitor me deu.

"Para que te lembres sempre que és a minha rainha", disse ele na altura.

Coloquei-a numa pequena caixa e enviei-a por um mensageiro para o escritório da Agência Fênix.

Era a peça final do puzzle. A "duplicata biológica" usaria a pulseira no momento do "acidente".

Enquanto almoçava sozinha num pequeno café, ouvi duas mulheres na mesa ao lado.

"Viste a Liana Alencar na revista? Parece tão triste. Ter tudo não significa ter felicidade."

"Dizem que o marido tem um caso com aquela cantora, a Isabella."

Sorri para o meu café. Eles não sabiam de nada.

O amor, pensei, era como uma cachaça mal envelhecida. Começa com fogo, mas se não for cuidado, torna-se amargo e intragável.

O destino, contudo, tem um sentido de humor perverso.

Naquela tarde, fui a um leilão de antiguidades. Estava à procura de uma peça específica para a minha nova vida em Lisboa.

E lá estavam eles.

Heitor, Isabella e Tiago. Uma família feliz em público.

Isabella viu-me primeiro. O seu sorriso era de puro triunfo.

Ela aproximou-se, segurando a mão de Tiago.

"Liana, que coincidência! Viemos ver umas peças para a nossa nova casa."

A nossa.

Heitor apressou-se, o pânico nos seus olhos.

"Bella, não incomodes a Liana."

"Não estou a incomodar, querido. Estamos apenas a conversar, como uma família."

Tiago olhou para mim, os seus olhos cheios de confusão.

"Mamã, a tia Bella disse que tu vais fazer uma viagem muito longa."

"É verdade, meu amor. A mamã precisa de descansar."

A minha voz era serena. Por dentro, o meu coração estava a ser esmagado.

Heitor tentou pegar no meu braço.

"Liana, vamos conversar."

Afastei-me.

"Não temos nada para conversar."

O leilão começou. E então, vi-o.

Um magnífico alambique de cobre do século XIX. Pertenceu ao meu avô. A família vendeu-o numa época de dificuldades, muito antes de eu nascer.

Era a peça que faltava na coleção do museu.

Levantei a minha placa.

Isabella sussurrou algo ao ouvido de Heitor. Ele levantou a sua placa.

Começou uma guerra de lances entre o meu marido e eu.

O preço subiu.

Isabella, frustrada, puxou o braço de Heitor.

"Deixa-a ficar com o raio do alambique! É um pedaço de lixo velho!"

"Cala-te, Isabella!", sibilou Heitor.

Tiago começou a chorar.

"Eu quero o alambique para a mamã!"

O meu coração partiu-se um pouco mais.

"Eu quero-o", disse eu, a minha voz firme, olhando diretamente para Heitor.

Ele hesitou, depois baixou a sua placa.

"Vendido à senhora Alencar!"

Arrematei o alambique. Heitor repreendeu Isabella e Tiago em voz baixa.

Depois, ele seguiu-a para fora da sala de leilões.

A curiosidade, ou talvez a necessidade de mais uma prova, fez-me segui-los.

Encontrei-os numa sala vazia.

Eles estavam a beijar-se, as mãos de Heitor por todo o corpo dela.

"Porque é que a deixaste ganhar?", exigiu Isabella, ofegante.

"Eu preciso de a manter calma por mais uns tempos, Bella. O lançamento da nova cachaça é na próxima semana. Depois disso, ela é história."

"Prometes? Divórcio?"

"Prometo. Tu e o nosso filho serão a minha única família."

Nosso filho.

Ela estava grávida.

A dor foi tão avassaladora que tive de me apoiar na parede para não cair.

Fugi dali, o som das suas promessas a ecoar nos meus ouvidos.

Cheguei a casa e fui direta para o chuveiro. Deixei a água quente cair sobre mim, tentando lavar a sujidade da traição.

Lembrei-me de como não tínhamos intimidade há meses. Ele sempre dizia que estava cansado, stressado com o trabalho.

Agora eu sabia porquê.

O meu telemóvel vibrou. Uma foto de Isabella.

Ela estava no nosso iate, usando um dos meus biquínis. A legenda: "A aproveitar o que é meu por direito."

Respirei fundo.

Ela era apenas um peão. Um peão que eu usaria para a minha jogada final.

Tiago bateu à porta do meu quarto.

"Mamã? Posso dormir contigo? Tenho medo do escuro."

Abri a porta. Ele abraçou-me com força.

"Tenho medo que vás embora, como a avó."

Abracei-o de volta, o meu coração a despedaçar-se.

"Eu estarei sempre contigo, meu amor. No teu coração."

Heitor chegou mais tarde, o cheiro a mar e a Isabella impregnado nele.

"Ele teve um pesadelo?", perguntou, tentando parecer um pai preocupado.

Não respondi.

Na manhã seguinte, acordei com febre. O stress tinha finalmente cobrado o seu preço.

Heitor e Tiago cuidaram de mim. Trouxeram-me sopa, leram-me histórias.

Uma performance perfeita de uma família perfeita.

Era quase cómico.

No meio da tarde, a campainha tocou.

Heitor foi atender. Ouvi a voz de Isabella.

"Heitor, temos de conversar. Estou grávida. Quero que peças o divórcio. Agora."

Levantei-me da cama. Fui até à sala.

Isabella estava lá, a mão a proteger a sua barriga lisa. Um desafio nos seus olhos.

"Liana. Acho que temos um assunto a resolver."

Sorri. Um sorriso genuíno, pela primeira vez em meses.

"Não temos nada a resolver, Isabella."

Heitor entrou em pânico.

"Isabella, o que estás a fazer aqui? Vai-te embora!"

"Não vou a lado nenhum até teres o que é meu!"

Ela virou-se para Tiago.

"Querido, não queres ter um irmãozinho?"

Heitor agarrou-a pelo braço.

"Eu disse para ires embora!"

Ele empurrou-a para fora e fechou a porta.

Voltou-se para mim, o desespero no seu rosto.

"Liana, eu posso explicar."

"Não precisas."

Ele tentou abraçar-me, beijar-me.

"Eu amo-te, Liana. Só a ti."

Empurrei-o.

"Não me toques."

Tiago, confuso, imitou o gesto do pai e tentou abraçar-me.

"Eu também te amo, mamã."

Beijei-lhe a testa.

"Eu sei, meu amor."

Heitor saiu, dizendo que precisava de "resolver as coisas".

Sabia que ele ia ter com ela.

Uma hora depois, o meu telemóvel vibrou.

Uma notificação do Instagram.

Isabella tinha publicado uma foto. Um teste de gravidez positivo. A legenda: "O futuro é nosso. @HeitorAlencar".

Ela marcou-o.

Ela queria guerra.

Mal sabia ela que a guerra já tinha sido ganha por mim.

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