De Paciente a Adversária: A Luta de Lia

Dois dias depois, recebi alta.

Ninguém da família Costa veio buscar-me.

Chamei um táxi e fui diretamente para a nossa casa. Ou melhor, a casa dele.

Estava vazia e silenciosa. Parecia abandonada, embora eu só tivesse estado fora por alguns dias.

Comecei a fazer as minhas malas. Roupas, livros, algumas fotografias.

Não havia muito que eu sentisse que era realmente meu.

Enquanto eu estava a fechar a segunda mala, a porta da frente abriu-se.

A minha sogra, a Dona Helena, entrou como um furacão.

"O que pensas que estás a fazer?" ela gritou, os seus olhos fixos nas minhas malas.

"Vou-me embora," disse eu calmamente.

"Embora? Para onde? Depois de tudo o que o meu filho fez por ti? Ele deu-te uma casa, uma vida. E é assim que lhe agradeces? Causando problemas num momento tão feliz?"

"Um momento feliz?" repeti, incrédula. "Eu acabei de perder o meu útero, Helena. Não posso ter filhos."

Ela encolheu os ombros, um gesto de total indiferença.

"Isso é lamentável, claro. Mas o Pedro agora tem um herdeiro. Devias estar feliz por ele. Uma mulher de verdade apoia o seu marido, não o abandona por ciúmes."

A sua crueldade deixou-me sem ar por um momento.

"Ciúmes? A amante dele acabou de ter um filho, e eu é que sou ciumenta?"

"Amante? A Sofia não é uma amante," ela corrigiu-me, com um sorriso desdenhoso. "Ela é a mãe do meu neto. Ela deu a esta família algo que tu nunca poderias dar. Devias saber o teu lugar."

O seu lugar. O meu lugar era, aparentemente, o de uma esposa infértil e obediente, que deveria celebrar a infidelidade do seu marido.

"O meu lugar já não é aqui," disse eu, pegando nas minhas malas.

Ela bloqueou o meu caminho.

"Não vais a lado nenhum. O Pedro precisa de uma esposa ao seu lado. A imagem da nossa família é importante. Vais ficar aqui e comportar-te."

"Sai da minha frente, Helena."

"Ou o quê? Vais chamar a polícia? Não me faças rir. És uma mulher fraca e doente. Ninguém vai acreditar em ti."

Ela tinha razão. Eu sentia-me fraca. A cirurgia tinha deixado o meu corpo dorido e cansado.

Mas a sua arrogância acendeu uma chama dentro de mim.

Empurrei-a para o lado com mais força do que pensei ser capaz. Ela tropeçou para trás, surpresa.

"Eu quero o divórcio, e vou tê-lo. E vou levar tudo o que me pertence por direito."

Ela riu, um som agudo e desagradável.

"Não tens direito a nada. O contrato pré-nupcial que assinaste garante isso. Vais sair desta casa sem um tostão. Boa sorte a tentar sobreviver sozinha."

O contrato pré-nupcial.

Eu tinha-me esquecido completamente dele.

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