De Incubaora a Vingadora: Ela Não Se Calou

Fiquei ali, completamente paralisada.

Irmão mais velho? O Pedro era filho único. Pelo menos, era o que ele e a sua mãe sempre me tinham dito.

"Que irmão mais velho? Nunca me falaste dele."

O Pedro evitou o meu olhar, passando as mãos pelo cabelo em frustração.

"É complicado, Ana. O meu irmão... ele faleceu há muitos anos."

"Então, o Leo é teu sobrinho? Porque não me disseste a verdade desde o início? Porque inventaste a história do 'melhor amigo'?"

A minha voz tremia. A mentira era pior do que a verdade. Sentia que toda a nossa relação tinha sido construída sobre uma base instável.

"Porque eu não queria que te preocupasses! A minha mãe... ela sofreu muito com a morte do meu irmão. O Leo é a única coisa que lhe resta dele. Eu não queria trazer de volta essas memórias dolorosas."

As suas palavras soavam a desculpas. Desculpas fracas.

"E a mãe do Leo? Onde está ela? A 'desaparecida'?"

Perguntei, o sarcasmo a pingar da minha voz.

O Pedro hesitou. "Eu não sei. Ela deixou o Leo e desapareceu."

Agarrei no relatório de paternidade que ele ainda segurava.

"Esta mentira não faz sentido, Pedro. Se o Leo é teu sobrinho, porque é que a tua mãe o trata como se fosse o Messias? Porque é que toda a vossa família está a esconder isto de mim?"

"Não estás a entender!", ele explodiu, a sua voz a ecoar no quarto. "Estás a fazer disto uma tempestade num copo de água! O que importa é que estamos a cuidar de uma criança inocente!"

"O que importa é que o meu marido mentiu para mim!", gritei de volta, as lágrimas finalmente a brotarem. "Como posso confiar em ti agora?"

Ele olhou para mim, a sua expressão endureceu.

"Se não consegues aceitar o Leo, então talvez não devesses estar aqui."

As suas palavras foram como um soco no estômago.

Ele estava a escolher o sobrinho dele, e as suas mentiras, em vez de mim. A sua esposa.

"Estás a pedir o divórcio?", perguntei, a minha voz um sussurro quebrado.

Ele não respondeu. Apenas me olhou com olhos frios e distantes.

Nesse momento, a porta do quarto abriu-se de repente. A minha sogra, Laura, estava ali, com o Leo a segurar a sua mão.

"O que se passa aqui? Porque estão a gritar? Vão assustar o Leo!"

O seu tom era acusador, os seus olhos fixos em mim.

O Leo escondeu-se atrás da perna dela, a olhar para mim com medo. Senti-me um monstro.

"Mãe, não é nada. A Ana e eu estávamos apenas a ter uma conversa", disse o Pedro, tentando acalmar a situação.

A Laura ignorou-o. Ela caminhou na minha direção, o seu olhar gelado.

"Eu ouvi tudo. Se não consegues aceitar o meu neto, a porta está aberta. O meu filho não precisa de uma mulher que não consegue nem mesmo mostrar um pouco de compaixão por uma criança."

Neto. A palavra ecoou na minha cabeça.

Então era isso. Era tudo sobre o Leo. Eu não era nada.

Olhei para o Pedro, à espera que ele me defendesse. Que ele dissesse à sua mãe para não se meter.

Mas ele ficou em silêncio.

O seu silêncio foi a resposta mais clara de todas.

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