Corações Partidos, Verdades Expostas

Cheguei ao hospital de táxi, o coração a bater descontroladamente no meu peito.

Encontrei a minha irmã Sofia na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados.

"Como é que ele está?" perguntei, a minha voz a falhar.

"Estabilizou, por agora. Os médicos disseram que as próximas horas são críticas. Foi um ataque massivo, Ana."

Ela abraçou-me com força, e eu desabei, o peso da noite a cair sobre mim.

"Onde está o Pedro?" ela perguntou, afastando-se. "Eu liguei-lhe primeiro, mas ele não atendeu. Pensei que ele viria contigo."

Engoli em seco, o sabor amargo da mentira dele na minha boca. "Ele... ele está fora da cidade. A trabalho."

Sofia franziu o sobrolho. "A trabalho? Que estranho, ele disse-me na semana passada que esta semana ia ser calma."

Eu não consegui responder. A mentira parecia pesada e suja.

Ficámos em silêncio, a olhar para a porta fechada da UCI, rezando. As horas arrastavam-se. Cada vez que um médico saía, o nosso coração parava.

O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Pedro.

"O teu pai está melhor? Desculpa por mais cedo. Fiquei em pânico. Falamos quando eu voltar."

Não havia menção a Clara. Nenhuma explicação real. Apenas uma desculpa esfarrapada.

Apaguei a mensagem sem responder. A raiva era uma brasa quente dentro de mim.

De repente, o telemóvel de Sofia tocou. Ela atendeu, a sua expressão mudando de preocupação para confusão.

"Clara? Sim, estamos no Hospital da Luz... O quê? Como é que soubeste?"

O meu corpo inteiro ficou tenso.

Sofia ouviu por mais um momento e depois desligou, virando-se para mim com uma expressão estranha.

"Era a Clara. Ela disse que o Pedro lhe ligou, muito preocupado. Disse que estava a caminho de Lisboa e pediu-lhe para vir aqui, para nos dar apoio, já que ele não podia."

A audácia. A pura e incrível audácia deixou-me sem palavras.

Ele não só me mentiu, como agora estava a usar a amante dele para se fazer de marido preocupado à distância. Ele enviou-a para a minha frente para representar o papel de amiga solidária.

"Ela está a vir para cá," disse Sofia, ainda sem perceber a dimensão da situação. "Foi simpático da parte dela, não foi?"

Eu não disse nada. Apenas assenti, um sorriso gelado a formar-se nos meus lábios.

Se a Clara queria vir, que viesse. Se o Pedro queria jogar este jogo, então íamos jogar.

Mas íamos jogar segundo as minhas regras.

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