Corações Partidos: A Teia da Traição

Dois dias depois, recebi alta do hospital.

Pedro veio buscar-me. O seu rosto estava sombrio, os seus olhos evitavam os meus.

O silêncio no carro era pesado, denso.

Quando chegámos a casa, o ar parecia parado, poeirento.

Tudo me lembrava o Lucas. Os seus pequenos sapatos de dinossauro à porta. O seu desenho colorido preso com um íman no frigorífico. O seu cheiro ainda pairava no seu quarto.

Entrei no quarto dele e fechei a porta.

Sentei-me no chão, abracei o seu urso de peluche favorito, e chorei.

Chorei pela sua risada que nunca mais ouviria, pelos seus abraços que nunca mais sentiria, por todos os futuros que lhe foram roubados.

Pedro bateu à porta.

"Clara, por favor. Precisamos de conversar."

Abri a porta. A minha cara estava inchada, os meus olhos ardiam.

"Não há nada para conversar. Quero que saias."

Ele olhou para mim, a dor evidente no seu rosto.

"Não posso deixar-te sozinha assim."

"Não estou sozinha," disse eu, a voz vazia. "Estou com a memória do meu filho. É mais do que tu tens."

Ele recuou como se eu lhe tivesse batido.

"Isso não é justo, Clara."

"Justo? Queres falar sobre o que é justo? O meu filho de seis anos está morto. Isso é justo? Tu mentires-me enquanto ele estava num caixão frio, isso é justo?"

A minha voz subiu a cada palavra.

"Eu estava a cuidar da Sofia! Ela estava traumatizada!"

"E eu? E o teu filho? Nós não importávamos?"

"Claro que importavam! Eu amo-te, Clara! E amava o Lucas mais do que a vida!"

"Não me parece," cuspi as palavras. "Pega nas tuas coisas e sai. Vou ligar a um advogado amanhã."

Ele ficou ali parado por um longo momento, o seu peito a subir e a descer rapidamente.

Finalmente, ele assentiu, derrotado.

"Tudo bem. Se é isso que queres."

Ele foi para o nosso quarto e começou a fazer as malas.

Eu fiquei na porta do quarto do Lucas, a observá-lo. Cada movimento dele parecia lento, deliberado.

Ele não discutiu. Não implorou.

Ele simplesmente aceitou.

E isso doeu mais do que qualquer grito.

Mostrou-me que, no fundo, ele já tinha desistido de nós. Talvez há muito tempo.

Quando ele saiu, a casa ficou terrivelmente silenciosa.

O silêncio era um monstro, a devorar tudo.

Naquela noite, não consegui dormir.

Fiquei a olhar para o teto, a reviver o acidente vezes sem conta na minha cabeça.

O clarão. O som. A escuridão.

Havia algo errado. Uma peça do puzzle que não encaixava.

Porque é que a Sofia só teve arranhões, enquanto o Lucas... enquanto eu fiquei em coma?

Estávamos todos no mesmo carro.

O meu instinto dizia-me que algo estava terrivelmente errado.

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