Cifra$ Do Coração

Lá estava eu, toda trabalhada na minha CEO vibe, quando esse tal de Lucas chegou pra assumir seu cargo ao meu lado. Cara, eu tava esperando um "oi, tudo bem?", mas o figura me cumprimenta todo formal, como se estivéssemos numa dessas reuniões chatas da alta diretoria.

Ele estende a mão, todo sério, e solta um:

— Lucas Medeiros, prazer em conhecê-la, senhora.

Senhora? Sério que ele usou essa palavra? Aí já vi que ia dar merda. Por que diabos um sócio me trataria daquele jeito? Ok, ok, deveríamos ter respeito um pelo outro, porém, aquilo era difícil engolir numa boa.

Eu, com meu jeitinho descolado, dou um sorriso de lado e respondo:

— Relaxa, Lucas, sem formalidades. A gente é sócio aqui, não precisa me chamar de senhora, parece até que eu tenho 100 anos.

Ele fica lá meio sem jeito, olhando pra mão que ele estendeu e depois para mim, como se estivesse processando o que acabei de dizer. E é aí que eu decido soltar o aviso:

— E só pra constar, não vou deixar você, por ser homem, chegar aqui mandando em mim, beleza? Somos sócios nessa empresa, e você tá lidando com uma mulher de personalidade forte.

O cara arregala os olhos, meio surpreso, e finalmente solta um:

— Ah, claro, entendi. Sem problemas.

No entanto, eu sei que esses caras, esses homens de terno e gravata, demoram um pouco pra absorver que uma mulher pode, sim, comandar a porra toda. Ele poderia ser um problema e eu precisava estar sempre à um passo a frente em qualquer situação que ele pudesse causar.

Aí eu, aproveitando o momento, completo:

— Sócio, beleza? Se tiver algum problema com isso, já avisa agora pra eu não perder tempo. E olha, não subestima não, que posso ser bem mais brava do que parece.

Ele dá uma risadinha nervosa, como quem diz "Tá bom, tô ligado", mas eu sei que vai demorar um tempo até cair a ficha. Eu já tô nesse jogo há um tempo, e sei como é. Homens, às vezes, precisam de um choque de realidade.

Cada olhada dele para mim parecia que estava me julgando com alguma coisa. Não posso negar que comecei a pensar em diversas coisas que ele deveria pensar ao me olhar tanto e, entre elas, estava o fato de que eu era acima do peso. Existiam homens preconceituosos e ele poderia ser um deles.

Daí em diante, as coisas começam a fluir, porém, eu continuo firme no meu propósito de não deixar o Lucas se achar o rei da cocada preta. Em reuniões, ele tenta falar mais alto, dar uma de mandão, e eu só olho para ele com cara de "sério mesmo?". Às vezes, solto um comentário sarcástico só pra lembrar que a decisão aqui não é só dele.

E claro, tem aqueles momentos em que ele tenta ser o "cavalheiro", segurando a porta pra mim, oferecendo café. Eu aceito, claro, entretanto, sempre com aquela cara de quem não precisa da ajuda dele pra nada. Sabe como é, não dá para perder a pose.

No fundo, acho que ele tá começando a entender que eu não tô aqui pra ser só uma figurante. Eu sou a figura principal desse filme, e ele pode até ser o coadjuvante, mas não vai me tirar do protagonismo.

E assim a vida segue, entre reuniões, cafezinhos e a constante batalha pelo respeito e reconhecimento. Às vezes, parece que a gente tá numa eterna partida de xadrez, porém, eu tô aqui, jogando o meu jogo, sendo a rainha do meu tabuleiro. E que o Lucas se acostume, porque eu não tô aqui pra brincadeira.

Mas, veja só, parece que o Lucas começou a pegar o jeito. Acho que meu recado afundou na cabeça dele como uma flecha, e agora ele tá mais na dele. Às vezes, até percebo uns olhares meio perdidos, como se estivesse tentando entender o que se passa nessa mente brilhante que vos fala.

Num desses dias, estávamos numa reunião meio tensa, cheia de gráficos e números que mais pareciam hieróglifos. O Lucas, todo cheio de si, solta uma sugestão meio sem noção, do tipo que eu já vi derrubar impérios corporativos.

Eu, com toda a diplomacia que consigo reunir, olho pra ele e solto um:

— Lucas, meu caro, acho que precisamos repensar essa estratégia. Não acredito que seja a melhor abordagem, sabe?

A expressão dele ficou meio "what?", mas acho que ele entendeu que aqui não é um jogo de um homem só. De repente, percebo que os outros na sala começam a concordar comigo, e o Lucas lá, no canto, meio isolado na ideia dele.

Saímos da reunião e, no corredor, ele se aproxima, um tanto humilde, e diz:

— Você estava certa, Sofia. Acho que ainda tenho muito a aprender nesse mundo dos negócios.

Soltei um riso sarcástico e disse:

— Ah, não me agradeça ainda. Isso é só o começo. Não sei o que você costumava fazer antes e nem me interessa. O que importa agora é o que você pode fazer ou não por essa empresa.

— Vou dar o meu melhor. — respondeu ele.

Mas, lá, no fundo, admito que senti uma pontinha de respeito por ele. Talvez, só talvez, o cara tenha potencial.

Desde então, a relação melhorou. Aprendemos a trabalhar juntos, cada um no seu quadrado, todavia, com um entendimento mútuo de que aqui não tem chefe supremo. Gosto de acreditar que ele entendeu que não sou uma CEO convencional, que vou à luta e que, se preciso, viro o jogo.

Claro, ainda tem aqueles momentos de tensão, mas acho que faz parte. A vida não seria divertida se tudo fosse um mar de rosas, né? E no final das contas, estamos construindo algo bacana, com as nossas personalidades fortes, mas complementares.

Meu tempo era valioso e, independente de todos os boatos que começavam rolar pelos corredores da empresa, tentava me manter firme. Até quando eu ignoraria as más línguas? Bom, não sabia, até porque não era boa em engolir sapos calada.

Quem diria, hein? Eu, a rebelde sem causa, agora sócia de um cara que, aos poucos, tá aprendendo a jogar esse jogo do mundo dos negócios. E que fique claro, Lucas, se você achar que vai chegar e mudar as regras, já aviso que a rainha aqui não aceita ser peão de ninguém. Estamos juntos nessa, querendo ou não.

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