Eu tenho um acordo com Patrícia Costa, minha namorada, ou melhor, a mulher que o público pensa que é minha namorada, ela me paga toda vez que me trai, e o valor depende de quão pública é a traição.
É um arranjo peculiar, eu sei, mas tem funcionado para nós, ou pelo menos, para mim financeiramente, nos últimos dois anos.
Eu sou João Ribeiro, um designer de moda que saiu da favela, e ela é Patrícia Costa, herdeira de uma das maiores corporações têxteis do país.
Nosso relacionamento é uma farsa bem construída, uma peça de teatro para a mídia e para a alta sociedade, ela ganha a imagem de uma mulher moderna e engajada socialmente, que namora um "artista da comunidade", e eu ganho dinheiro, muito dinheiro.
Com cada foto dela beijando outro homem em uma festa badalada, com cada manchete de fofoca insinuando uma nova aventura, minha conta bancária engordava, cheguei a um ponto em que o dinheiro não era mais um número abstrato, era uma realidade sólida que me permitia viver em um apartamento de luxo com vista para a cidade inteira, um lugar que eu nunca imaginei que poderia chamar de meu.
Acumulei uma fortuna considerável, o suficiente para garantir que meu pai adotivo, o homem que me criou, tivesse a melhor assistência médica e uma vida confortável, longe das dificuldades que enfrentamos por tanto tempo.
Cada transferência bancária era um lembrete agridoce do meu papel, o de "cornudo de luxo", como uma revista de fofocas me apelidou uma vez, a humilhação era o preço, mas a segurança financeira da minha família parecia, por um tempo, uma troca justa.
Mas então, algo mudou, há uma semana, recebi uma transferência, não era como as outras, o valor era absurdamente alto, dez vezes mais do que o usual, uma quantia que poderia comprar um apartamento inteiro na zona sul do Rio de Janeiro.
O dinheiro caiu na minha conta sem aviso, sem explicação, mas eu sabia, no fundo da minha alma, o que aquilo significava, o valor era tão exorbitante que só podia corresponder a uma traição de proporções épicas, uma que superava todas as outras.
Aquele número no extrato bancário foi o catalisador, o ponto final, olhei para o teto do meu apartamento caro e senti um vazio imenso, o dinheiro não comprava dignidade, não apagava a sensação de ser um acessório, um objeto descartável.
Naquele momento, eu decidi, já chega.
No dia seguinte, agi com uma rapidez que surpreenderia até a mim mesmo, liguei para meu gerente de banco e dei instruções para transferir a maior parte do dinheiro para uma conta de investimento segura, vendi o carro esportivo que Patrícia me deu e doei as roupas de grife que enchiam meu armário.
Empacotei uma única mala com minhas coisas essenciais, meus cadernos de desenho, minhas agulhas e linhas, e as poucas fotos que eu tinha do meu pai e da minha comunidade, meu novo plano era simples, voltar para casa, para a favela onde cresci, e usar minha experiência e o dinheiro que acumulei para criar algo real, algo com propósito.
Eu ia abrir uma escola de moda e design para os jovens da comunidade, para ensiná-los a prosperar, a ter uma profissão, a evitar as armadilhas da exploração que eu conhecia tão bem.
Estava terminando de arrumar a mala quando meu celular tocou, era ela, Patrícia.
"João, querido, o que é essa história que seu motorista me contou? Você está de mudança?"
Sua voz era casual, como se estivesse perguntando sobre o tempo.
"Estou, Patrícia."
Respondi, minha voz firme.
"Estou voltando para casa."
Houve uma pausa, depois uma risada debochada.
"Voltando para aquele buraco? E vai fazer o quê? Virar professorzinho de corte e costura para os pivetes de lá?"
O desprezo em sua voz era palpável, mas, pela primeira vez, não me atingiu.
"Prefiro ser um professor de verdade do que seu namorado de mentira."
Desliguei o telefone antes que ela pudesse responder, no silêncio que se seguiu, a imagem do meu passado recente passou pela minha cabeça, eu me lembrei do porquê aceitei esse acordo no início, a pobreza, o desespero, o desejo de dar uma vida melhor ao meu pai, o homem que me tirou da rua e me deu um nome, um lar.
No começo, eu até tentei acreditar que poderia haver algo real entre nós, Patrícia era bonita, inteligente, parecia fascinada pelo meu trabalho, pelo meu "mundo exótico", como ela gostava de dizer, mas a fascinação dela era como a de um colecionador por um objeto raro.
Ela me exibia em festas, me apresentava a seus amigos ricos como seu "achado", seu "projeto social", e então, vinha a primeira traição, a primeira foto na coluna social, o primeiro pagamento.
A sociedade ao nosso redor nunca acreditou em nós, de qualquer forma, eu era constantemente alvo de olhares de pena e de escárnio, os sussurros me seguiam nos eventos, "Olha o namorado de aluguel da Patrícia", "Coitado, engole tudo por dinheiro", "O que uma herdeira como ela viu num cara da favela?".
Eu suportei tudo, engoli a humilhação, transformei a dor em números na minha conta bancária, disse a mim mesmo que era um sacrifício necessário, mas aquela última transferência, aquela quantia obscena, me fez perceber que o preço havia se tornado alto demais.
Não era mais sobre sobrevivência, era sobre minha alma, e eu não estava mais disposto a vendê-la.





