Ponto de vista: Kim Whitley
Estou deitado na cama, enrolado em uma toalha após ter tomado o banho mais gelado de toda a minha vida. Ainda confuso, me peguei pensando em Annie saindo do meu quarto de cabeça baixa, sem defesa alguma. Ela parecia tão pequena e desprotegida naquele momento, como se fosse uma Annie diferente. Naturalmente, ela era a garota que aparecia em nossas brigas com mais frequência, a Annie de palavras curtas e grossas, de fugas constantes e submissa à minha aproximação. Esse foi o poder que pouco a pouco descobri que tinha e passei a usá-lo a favor do meu prazer.
Ter Annie perto é como ter um doce e não poder comê-lo, apenas sentir o cheiro e saborear com a hipnotização do desejo e da tentação. Comecei a cada briga me aproximar mais, percebendo o efeito aumentar a cada passo de aproximação, mas nunca foi algo parecido como hoje. Sempre mantive limites, mas fui incapaz de controlar agora. Sentir seu corpo tão próximo ao meu, ver seus lábios perto dos meus, ter seu olhar demonstrando apenas desejo ao observar meu corpo.
Eu sei que ela não sabe que seus olhos transmitiam tudo, naquele momento quando a encostei na parede, todas minhas forças foram embora quando a vi encarar meu pau daquela forma desejosa. A visão dos seus lábios deixando escapar uma respiração entrecortada e das suas bochechas se transformando em um vermelho-vivo, fez meu pau pulsar de desejo.
Não sei quando esse sentimento nasceu em mim, sempre fugi da sua aproximação por motivos que nunca cogitei me perguntar de verdade. Apenas uma lembrança passageira de adolescente que eu não ousava me aprofundar, me fazia sentir que deveria ficar o mais longe possível dela. Era o instinto de autopreservação que controlava os meus atos na época. Agora, o meu corpo apenas senti intensamente tudo a sua volta, enquanto minha mente e meus desejos assumem o controle.
Minha razão para de funcionar quando Annie se aproxima. Coisas sem sentido saem descontroladamente pela minha boca, palavras que antigamente eu diria sem medo algum e que agora me deixam com um peso na consciência. Que me faz sentir culpa e repensar cada detalhe da nossa discussão terminando com mais dor de cabeça e confusão.
Annie foi criada cheia de mimos, repertórios educados e gentis. Não como eu, criado em meio a gangues, máfias de más influências e de mulheres que nunca se valorizavam, como minha mãe. Mulheres que leiloavam os seus corpos a qualquer preço e entregava o prêmio para aquele que desse o lance mais alto. Sem mimos, sem palavras bonitas.
Annie é diferente, assim como seus lindos olhos azuis da cor do mar e cabelos negros compridos. Seu corpo sedutor e sem nenhum defeito, com a pele clara como as nuvens e a sua postura sempre esguia e perfeita. Ela tem todos os pontos de alguém que possui um nível social mais alto do que eu. Sem dúvida alguma, tínhamos uma montanha de diferenças. E parece que a única coisa que nos aproxima são as nossas bocas mal-educadas, um com o outro. Eu a deixo descontrolada, e ela me deixa perdido.
Olho para o teto, sentindo um peso invisível afundar o meu coração na escuridão com o olhar de Annie me perseguindo. Eu não queria machucá-la, poderia ser qualquer pessoa menos ela. Eu a odeio e isso é um fato, mas o desejo que nos ronda está me atormentando. Não consigo ter controle do que saí de mim, inclusive a vontade de pedir desculpas. Eu vi dor nos olhos dela e não quero ver isso em um rosto tão bonito como aquele.
Preciso pedir perdão, sinto como se fosse uma necessidade tirar a imagem triste da Annie da minha mente. Esse simples pensamento me traz um cansaço mental que me acompanha há meses, fazendo-me cair em um sono profundo enquanto as sombras puxavam aquele pesadelo que sempre me atormentava, noite após noite.
***
São duas horas da tarde quando desço para almoçar, ainda carregado com os meus pensamentos atormentados. Caminho em direção à sala de jantar, notando que a mesa está posta e apenas Helena está sentada. Puxo a cadeira ao seu lado em silêncio, não escutando nada além de um profundo tilintar de talheres que vem sem dúvida da cozinha.
- Onde estão todos? - pergunto para Helena. Ela está com a cara fechada, o que já não é mais novidade desde Christina foi embora e que sua aversão a Robert surgiu.
- Estão todos na cozinha - diz dando de ombros.
- E por que você também não está lá? - pergunto observando-a.
Ela parece muito com nossa mãe e isso infelizmente me deixa um pouco abatido. Helena é uma menina incrível e inteligente, mas que foi uma moeda de troca para mamãe sem nem pensar no assunto, o fato dela ser tão pequena e já saber disso me preocupa. Andrew era a sua companhia, mesmo com o dobro da idade de qualquer um de nós, ele era muito apegado a ela como um irmão mais velho. Porque mesmo que eu não gostasse, era o que ele realmente era para todos, menos para... Christina.
Helena só tinha oito anos quando nos trouxeram para cá, entretanto, ela ainda não entendia o porquê estávamos aqui. O motivo pelo qual não podermos ficar com a mamãe.
- Porque Robert está lá - comenta como se fosse o óbvio, mas deixando transparecer suas lágrimas que ela enxuga tranquilamente.
- O que você tem contra ele, Helena? - sondo tentando entendê-la.
Eu não me dou bem com Robert, mas ele é um bom pai. Tanto para mim como para meus irmãos, isso eu não posso mentir. Nosso relacionamento só não dá certo por conta de Annie, nossas brigas são uma barreira afetiva.
- Você não entende, ninguém entende - insiste deixando as lágrimas caírem. Ela se levanta e caminha em direção à porta.
- Ele é seu pai, Helena - contesto fazendo-a parar subitamente.
Sinto sua apreensão com a mudança do assunto, ela me encara e observo seus olhos tristes e repleto de dor.
- Eu não tenho pai. Eu não tenho ninguém - sentencia antes de sair.
Helena está prestes a completar onze anos. Tinha se passado apenas dois quando aconteceu a sua primeira perda, e um ano do adeus de Christina. Ela precisa de mais tempo, perdeu tanta coisa em um período tão curto, que eu me pergunto como ela se manteve tão forte sem demonstrar nenhum sentimento como fez agora. Helena é solitária desde que nos trouxeram para o Texas. Ela não tem amigos no colégio, não fala com ninguém além de mim, que ela pouco se aproxima, e Evan. Costumo vê-la às vezes com Annie, infelizmente em situações raras e Robert é o único que ainda tenta se aproximar.
No começo, pensava que era por obrigação, no entanto, vejo que agora ele realmente a vê como uma filha. Helena precisa de cuidados, nem eu ou até mesmo Evan podemos dar a ela. Tenho sombras demais e Evan é muito novo. Ela precisa de alguém com tempo para oferecer amor incondicional, algo que só um pai pode dar. Era o que Andrew fazia, mesmo não sendo a obrigação dele. E por fim, para todos nós.
Fecho meus olhos, tentando esquecer as brigas que tivemos, os cuidados intensos que ele tinha com todos nós e as nossas brincadeiras. O seu amor de irmão e pai. Eu o amava, porém, nunca disse isso a ele. Nunca pedi perdão. Sinto meus olhos encherem de lágrimas e tento segurá-las. Odeio chorar, um homem crescido não deve chorar por algo que prometi deixar para trás.
Olho para o alto, tentando fazer com que elas ficassem onde deveriam estar, mas não consigo. Sinto que é tarde demais quando elas começam a descer pelo meu rosto, seguido do olhar intenso de Annie sobre mim. Ela senta à minha frente e desvia seu olhar do meu, me dando silenciosamente um momento para me recompor, é o que eu faço. Respiro fundo e seco as minhas lágrimas, tentando em vão voltar ao meu estado, a qual me transformei. Um homem tranquilo e repleto de escuridão.
Observo Annie, fazia muito tempo que eu não sentia aquele olhar singelo e compreensivo por parte dela. Se ela soubesse o que aquele olhar significa para mim, ela jamais me olharia novamente dessa forma.
Noto ao analisá-la, sua blusa extremamente aberta, isso faz com que novos sentimentos surjam. Annie costumava usar roupas que são sensuais demais, ou de menos. Essa, sem dúvida, é sensual demais.
Ela está apenas de sutiã, seus seios são pequenos, mas parecem incrivelmente macios. O pensamento deles em minha boca e mãos fez com que algo acordasse dentro de mim. Não consigo desviar meu olhar, é como uma sessão de hipnose que só acontece com a regressão ao presente quando o hipnotizador estala os dedos, é o que acontece. Tenho a sensação que estou sendo observado e levanto o meu olhar em direção aos de Annie. Não desvio o olhar, também não consigo mantê-lo por muito tempo.
Ela abre a boca para dizer algo, mas para quando seu pai entra na sala com Evan.
- Cadê Helena? - pergunta Robert.
Olho para ele notando seu olhar preocupado.
- Ela foi deitar. Disse que não está com fome - minto. Ele não diz nada, apenas senta e assim como Evan, começa a se servir. Em seguida, Annie e eu fazemos o mesmo.
Ela não me olha mais durante o jantar, e também não puxa nenhuma conversa com ninguém na mesa, assim como eu. O cômodo está em um silêncio infinito. Todos calados, acanhados pelos próprios pensamentos, até que Robert quebra o silêncio assim que Evan começa a retirar seu prato, fazendo uma grande questão pairar no ar.
- Quem irá lavar os pratos hoje? - questiona olhando infelizmente diretamente para mim e Annie.
Sempre sou o primeiro a sair da mesa para não ter a oportunidade de ser o primeiro escolhido do final da semana, já que esse terá que lavar os pratos também durante os outros dias, mas parece que hoje não é meu dia de sorte.
Levanto-me, recolhendo os pratos assim como Annie que me ajuda a levar tudo para a pia, enquanto Evan e Robert vão à sala. Eles se afastam, me deixando sozinho com Annie, que em nenhum momento dirige sequer uma palavra a mim, mesmo quando entramos na cozinha. O fato é que eu não consigo parar de olhar para ela, todo ar do ambiente parece ter mudado, ficado tenso.
Observo Annie fazer o trabalho que eu deveria estar fazendo. Ela está concentrada demais em ensaboar e enxaguar os pratos, tão concentrada que não levanta o olhar para longe de sua tarefa. Ela está me evitando como se eu nem estivesse ali e isso é irritante. Além de ser um fator para começar uma briga, será que ela não percebe que isso me irrita? É uma sensação terrível tê-la ali, sem parecer nem mesmo me notar. Com meu ego inflado demais para aguentar, me vejo com duas únicas escolhas, pego a opção que para mim sempre parece errada.
- Como estão as coisas na escola? - investigo e a vejo pela primeira vez me encarar, com uma sobrancelha levantada, surpresa. Ela estava esperando outra reação.
Respiro fundo tentando quase em vão não deixar as sensações dentro de mim se descontrolem. Tenho que puxar uma conversa normal com ela e sem brigas, ou jamais chegarei no meu pedido de desculpas que realmente tem que sair da minha boca.
- Vai bem, obrigada - ela diz dando de ombros, voltando para a sua tarefa. Sei que ela é uma ótima aluna.
Estudamos na mesma instituição, e para todo o bem, em anos diferentes. Eu sempre a observava de longe, notando que sempre ficava rodeada pelas duas amigas malucas dela. Tinha o costume de ficar sozinho, tentando não chamar mais atenção da qual eu já conseguia sem nenhum esforço.
- Como estão as aulas? - Annie pergunta, entregando o último prato lavado.
- Bem, também - respondo dando de ombros.
- Você soube que vou coordenar o teatro do final do semestre? - sonda sorrindo. Aquele sorriso lindo e enorme que infelizmente, pouco é direcionado a mim.
- Sim, soube que vai ser uma interpretação da peça de Romeu e Julieta de Shakespeare ― digo, pensando em como sou sortudo por estar no último ano e por conseguir escapar das aulas de teatro.
- Eu sempre quis interpretá-la e agora é minha chance! Meu tio dizia que esse é o único romance que vale a pena ser lido e interpretado - acrescenta, deixando o sorriso de lado que logo foi tomado por um triste.
Observo-a respirar fundo, e logo ela se vira para começar a guardar os pratos que já tinha secado.
- Aposto que ele ficaria orgulhoso - falo, tentando puxar novamente seu sorriso de volta.
- Aposto que sim.
Ela não fala mais. Vejo que a conversa não fez bem para ela e não queria que ela ficasse triste, essa realmente não era minha intenção.
- Desculpa, Annie - peço e espero a sua reação. Eu queria que aquele pedido de desculpas valesse por todas às vezes que eu devia e que queria pedir, mas que era tão difícil sair.
Ela se vira para mim com as lágrimas escorrendo pelos seus lindos olhos azuis, que acabam de cortar o meu coração já atormentando.
- Annie... - começo sem saber exatamente o que dizer, não sou bom em nada relacionado a sentimentos, ou a Annie.
- Eu só estou perdida aqui, Kim.
Aproximo-me dela, tocando o seu rosto e secando as novas lágrimas que começaram a cair, que rapidamente para quando ela percebe minha mão em seu rosto. Ela tira minha mão e se afasta como um foguete. Tento me aproximar de novo, mas só causo ainda mais o afastamento dela.
- Não precisa fazer isso, Kim. Eu sei secar minhas lágrimas - afirma, andando em direção à porta. Vou atrás dela e seguro seu braço e viro-a para mim.
- Eu também perdi alguém que eu amei muito, Annie. Lágrimas não são para se envergonhar - reitero, mesmo que em meu íntimo eu sinta algo diferente.
Toco seu rosto novamente, acariciando sua bochecha.
- Eu queria que minhas lágrimas fossem por alguém que amo - responde me olhando e voltando a sua postura firme mesmo com minha mão ao redor de seu braço.
- É por minha causa que você chora? Me desculpe. Me desculpe pelo que aconteceu no meu quarto, eu não sei o que deu em mim. Sei como tudo anda estranho, eu não sei bem o que está acontecendo - tento me justificar mostrando minha confusão.
Tenho plena consciência do que estou sentindo, é como um turbilhão de ódio e desejo misturados com tantos outros sentimentos que afloraram dentro de mim. Eu não sei quem está mais perdido, eu ou ela. Queria uma resposta dela para tudo que eu disse, mas não recebo.
Solto seu braço e levo minhas duas mãos para seu rosto tentando secar as lágrimas que ainda escorrem. Aproximo-me tanto do seu rosto que sinto sua respiração misturada na minha como hoje de tarde. Noto sua boca rosada, que parece tão saborosa que desejo beijá-la. Aproximo o suficiente para que nossos corpos se toquem, minha mão desce para a sua cintura. Sinto seus seios encostarem em meu peitoral, suas mãos que distraidamente pousam no meu peito. Penso por alguns segundos que ela irá me afastar, porém, ela não o faz, apenas faz um carinho onde meu coração bate forte, ansioso e confuso. Desço meus lábios prontos, a poucos milímetros do dela. Estamos tão perto, até que ouço a porta da cozinha ser aberta e duas vozes extremamente conhecidas.
- Ei! - Alexia e Lili dizem em uníssono.
- O que está acontecendo aqui? - pergunta Lili.
Afasto-me de Annie rapidamente, assim como ela que parece se recompor em segundos. Ela caminha em direção as duas garotas e as puxa para longe sem olhar para trás, me deixando com aquele desejo fervendo por todo meu corpo. Eu queria tanto beijá-la, que não enxergava o tamanho da loucura caso isso tivesse acontecido. Não posso tê-la, afinal ela é proibida. Annie é boa demais para um cara como eu.





