Analu Mendes POV:
Meus dedos, tremendo levemente, rolaram pelo feed público de Cristina Ribeiro. Cada foto perfeitamente curada, cada legenda açucarada parecia uma nova facada. Sua vida era um desfile interminável de carros de luxo, roupas de grife e férias exóticas — tudo financiado por Augusto. E lá, exibida com destaque em seu pulso, estava a pulseira de prata que Augusto me deu em nosso quinto aniversário. Era uma peça simples, feita à mão, uma réplica minúscula da minha primeira escultura, um símbolo de nossos sonhos artísticos compartilhados antes que suas ambições o consumissem. Agora, adornava-a, uma bugiganga casualmente jogada de lado.
Isso não era novo. As demonstrações públicas de afeto, as alfinetadas veladas — vinham acontecendo há meses, mesmo depois que Augusto supostamente terminou com ela. Eu havia me tornado insensível a isso, ou assim dizia a mim mesma. Um eco oco da dor que uma vez senti. Tinha se tornado um ritual: acordar, rolar pelo feed dela, sentir a dor familiar, depois empurrá-la para baixo. Mas ver minha pulseira em seu pulso, especialmente depois da humilhação no banheiro, torceu algo profundo dentro de mim.
Um impulso perverso me tomou. Tirei um print da postagem dela, depois outro do colar da Cartier, ainda em sua caixa de veludo, uma piada cruel de reconciliação. Abri minhas próprias redes sociais, uma conta inativa que raramente usava, e postei as duas fotos. A legenda que adicionei foi curta, brutal e totalmente diferente da 'velha' Analu: "Algumas mulheres colecionam arte. Outras colecionam restos."
O telefone tocou quase imediatamente. Era Augusto. Sua voz estava tensa, forçada. "Que porra foi essa, Analu? Você está tentando me arruinar?"
Recostei-me na cabeceira da cama, sentindo uma onda familiar de náusea me invadir. "Arruinar você? Augusto, querido, você faz isso perfeitamente bem sozinho." Minha voz era plana, desprovida de emoção, um contraste gritante com o furacão que eu sentia se formando por dentro. "Você não está feliz? Conseguiu tudo o que queria. A socialite perfeita, o público adorador, os elogios intermináveis. Meus parabéns estão em ordem, não diria?"
Sua raiva explodiu, afiada e instantânea. "Você acha isso engraçado? Acha que isso é algum tipo de jogo? Você está brincando com fogo, Analu! Acha que pode simplesmente me envergonhar, humilhar a Cristina e sair impune?"
"Sair impune do quê, Augusto?", perguntei, minha voz subindo um pouco, uma borda quebradiça se formando ao redor das palavras. "De expor a verdade? Isso é tão terrível? Ou você só está com raiva porque sua ilusão cuidadosamente construída está desmoronando?"
"Você é patética", ele rosnou, o desprezo pingando de sua voz. "Uma mulher amarga e descartada, atacando. Não pense por um segundo que você tem algum poder aqui, Analu. Eu posso transformar sua vida em um inferno. Um inferno do qual você não vai se recuperar." A linha ficou muda com um clique, me deixando com o eco arrepiante de sua ameaça.
Desliguei, minha mão tremendo levemente. Não de medo, mas do esforço que fiz para manter a compostura. Meu estômago se contraiu, uma torção familiar e agonizante que me fez dobrar. Apertei a mão sobre a boca, tentando suprimir as ânsias secas que ameaçavam explodir.
Augusto, fiel à sua palavra, não perdeu tempo. Em poucos dias, Cristina estava em toda parte. Capas de revistas, programas de entrevistas, patrocínios de marcas de luxo. Ele moveu todos os pauzinhos, alavancando sua vasta riqueza e influência para catapultá-la ao estrelato. Eles foram fotografados juntos em todos os eventos de alto perfil, um casal deslumbrante e desafiador. Sua mensagem era clara: eu a escolho.
Então veio o anúncio: Augusto e Cristina seriam os anfitriões da Gala de Arte Anual, o mesmo evento onde Augusto havia comprado meu colar. Era uma declaração descarada e pública, um tapa na cara. A galeria favorita da minha mãe, o lugar onde eu sonhara em ter minha própria exposição, era agora o palco deles.
Uma calma estranha desceu sobre mim. Não era resignação, mas algo mais frio, mais calculista. Augusto esperava que eu explodisse, que eu quebrasse, que eu implorasse. Ele esperava lágrimas. Mas tudo o que eu sentia era uma determinação silenciosa e fervilhante.
Ele ligou novamente, alguns dias antes da gala, seu tom tingido de uma condescendência quase triunfante. "Confio que você comparecerá, Analu? É importante para as aparências." Ele estava me provocando, me testando.
"Claro", respondi, minha voz suave, quase alegre. "Eu não perderia por nada neste mundo. Afinal, ouvi dizer que a Cristina está usando algo bastante... familiar." Eu quase podia ouvir sua mandíbula se contrair do outro lado.
Cristina, previsivelmente, me enviou uma mensagem mais tarde naquele dia. Uma única foto. Era ela, em frente a um espelho, usando meu vestido de noiva. Aquele que eu desenhei meticulosamente, aquele que minha mãe me ajudou a costurar. Um sorriso triunfante brincava em seus lábios. "Algumas coisas simplesmente caem melhor em outras pessoas, não acha, Analu?"
Olhei para a imagem, depois joguei meu celular na cama. Foi um golpe baixo, mas acertou. A dor era uma pulsação surda agora, uma companheira constante. Mas não foi o suficiente para me quebrar. Não mais. Passei pela garrafa de vinho quebrada, pelo colar descuidadamente descartado, e entrei no meu ateliê.
Meu ateliê. Meu santuário. Era onde a verdadeira Analu ainda vivia, embora mal. Lá, coberta por um lençol branco impecável, estava meu bem mais precioso, a escultura que eu fiz para minha mãe. Uma peça delicada e etérea esculpida em mármore branco, representando uma mulher embalando uma pequena chama nascente. Era meu coração tornado tangível, meu luto transformado em arte.
Minha mão foi para o meu estômago, um suspiro agudo e involuntário escapando dos meus lábios. A dor estava se intensificando, uma dor profunda e ardente que irradiava por todo o meu ser. Eu sabia, com uma certeza arrepiante, que o tempo estava se esgotando. Este câncer de estômago agressivo, alimentado por anos de estresse e mágoa, estava me reivindicando mais rápido do que eu previra.
Puxei o lençol da escultura, revelando sua superfície lisa e fria. Meus olhos traçaram as linhas fluidas, as curvas suaves. Minha mãe sempre me disse que a arte era a única maneira de viver para sempre. Eu precisava terminar isso. Não apenas esta escultura, mas minha obra-prima, aquela que realmente me definiria. Aquela que seria meu grito final e desafiador contra a injustiça de tudo. Eu precisava terminar antes que a escuridão me reivindicasse por completo. Eu precisava deixar algo para trás. Não para Augusto, não para Cristina, mas para mim mesma. Para a Analu que ainda acreditava na beleza em meio às cinzas. Eu precisava garantir que minha mãe soubesse que eu me lembrava dela, mesmo enquanto me preparava para me juntar a ela.





