Até Que a Morte Nos Reúna

Sofia pegou o dinheiro, sentindo o peso da humilhação, mas não demonstrou.

Cumpriu a exigência implícita de João Pedro e se retirou para o quarto de hóspedes, que se tornara seu refúgio e sua prisão.

Os sons da intimidade dele com Juliana ecoavam pela casa, risadas, sussurros.

Palavras de afeto que um dia foram dirigidas a ela.

A angústia era uma companheira constante, o ciúme uma brasa viva.

A dor da perda, a nostalgia de um passado feliz que parecia outra vida.

Ela se deitou na cama, os olhos fixos no teto.

Lembrou-se dos dias na faculdade, das promessas trocadas, dos sonhos compartilhados com João Pedro.

Um sorriso triste brincou em seus lábios.

Aquela seria a última noite que se permitiria sofrer por ele.

Amanhã, uma nova fase começaria. A fase da "Estrela".

A resolução a preencheu, uma força fria e determinada.

Juliana foi a primeira das "companheiras" de João Pedro a permanecer na residência por mais de alguns dias, a primeira a ser integrada à rotina da casa, a participar de eventos como se fosse da família.

Isso indicava uma mudança, um aprofundamento da relação deles, ou talvez apenas mais uma forma de torturar Sofia.

A festa de São João na fazenda de João Pedro no interior da Bahia foi o auge dessa nova dinâmica.

Uma celebração grandiosa, com fogueira, quadrilha, comidas típicas.

João Pedro exibia Juliana como um troféu, cobrindo-a de atenções, de presentes caros.

Sofia era uma sombra, observada com pena pelos convidados, alguns antigos amigos que agora a viam como a esposa trocada, a interesseira que recebera o que merecia.

A humilhação pública era cortante.

Em um momento, durante a festa, Juliana a encurralou perto da varanda.

"Ele me ama, Sofia," Juliana disse, a voz baixa, mas carregada de triunfo. "Sempre me amou, mesmo quando estava com você."

Sofia permaneceu em silêncio.

"Você não imagina o quanto ele sofreu quando você o deixou," Juliana continuou, os olhos brilhando com uma mistura de malícia e dor. "Eu estava lá. Eu o consolei. Eu dei a ele o que você nunca deu: lealdade."

E então, a confissão, disfarçada de preocupação.

"Eu sei que você acha que ele é cruel, mas ele só está magoado. Foi por isso que... que eu disse que fui eu quem doou o rim. Para protegê-lo de mais uma decepção, para mostrar que existia amor verdadeiro na vida dele."

Uma revelação chocante. A profundidade da manipulação de Juliana era assustadora.

"Entregue-o para mim, Sofia," Juliana exigiu, a voz agora dura. "Desista dele completamente. Deixe-o ser feliz."

Sofia a encarou, o rosto impassível. "Ele já não é meu há muito tempo, Juliana."

Um sorriso vitorioso surgiu nos lábios de Juliana.

E então, o grito.

Juliana se desequilibrou, ou fingiu se desequilibrar, perto do mezanino de madeira.

Caiu, o som do corpo batendo no chão ecoando pela festa.

O braço em um ângulo estranho.

Gritos de horror.

João Pedro correu até ela, o pânico em seus olhos.

Juliana, entre lágrimas de dor, apontou para Sofia.

"Ela me empurrou," soluçou.

A armadilha estava montada.

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