APRENDENDO A AMAR ...

O medo de que seja uma ilusão me consome. Ando ou corro, não sei ao certo. Mas a cada passo que dou ela recua assustada, até chegar a uma das paredes de vidro. Meu corpo cola no dela e meus lábios buscam desesperados os de Fernanda. É ela! Posso senti-la! Seu sabor, seu cheiro, seu calor. Meu corpo buscando se enfiar no dela, querendo matar a saudade que me consome. Seus lábios não correspondem ao meu beijo, mas não me importo. Ela está viva! Está aqui em meus braços. Solto seus lábios e beijo todo o seu rosto.

- Você está bem...

Seguro seu rosto em minhas mãos e encaro seus olhos assustados pra mim.

- Tive tanto medo de que...

Não quero pensar naquelas coisas de novo. Avanço em sua boca e suas mãos me empurram com força, tentando afastar nossos corpos.

- Me solta!

Diz brava e mesmo não desejando, dou um passo pra trás.

- Quem pensa que é para me beijar assim?

Limpa sua boca grosseiramente.

- Alias! Quem você pensa que eu sou para beijar um estranho?

Estranho? Fico confuso com suas palavras.

- Não sei quem é, nunca o vi em toda a minha vida. Que intimidade acha que tem pra me beijar assim?

- Fernanda...

- Isso é um absurdo.

Estou em choque a encarando.

- Não sei o que andou lendo sobre mim, mas não sou uma vagabunda que você pode sair pegando assim.

- Fernanda... Sou eu...

Digo tentando olhar seus olhos que fogem dos meus. Começa a se afastar, indo em direção ao elevador.

- Espera! Não vai embora.

- Não estou indo embora, só estou me afastando de você.

Seu olhar pra mim é frio e isso me assusta. É ainda mais doloroso que o olhar de decepção que teve antes. Ando em volta dela, sem me aproximar.

- Você fala como se não soubesse quem eu sou.

- Eu não sei quem você é.

Paro de andar, sentindo meu corpo travando

- Como assim?

- Estou aqui apenas para lhe entregar isso.

Estica a mão e vejo que esse tempo todo, segurava um envelope.

- O que é isso?

- Isso estava sobre a minha mesa, em meu escritório.

Aproxima pra que eu pegue o envelope.

- Não sei o que é, mas tem seu nome. Não faço ideia do porque isso estava comigo.

Pego o envelope de sua mão e o vejo lacrado.

- Mas se escrevi seu nome no envelope, é porque deveria te entregar.

Ergo meus olhos pra ela.

- Só não sei porque estaria com algo em meu escritório de um estranho.

- Não sou um estranho.

- Sim, você é!

- Sou o lenhador! Você sabe quem eu sou chapeuzinho!

Fernanda começa a rir.

- Isso é a coisa mais ridícula que já me disseram.

Suspira ao parar de rir.

- Não tenho muito tempo pra perder, tenho muitas coisas para fazer e...

- O que aconteceu com você?

Me aproximo um pouco mais dela.

- Você sumiu e quando volta... Quando volta esta assim.

- Como sabe que eu sumi?

- Como eu sei?

Agora sou eu quem esta rindo, mas de nervoso.

- Fui o culpado do seu sumiço.

- Não foi o que me disseram.

Encaro seus olhos vazios.

- Quando acordei me disseram que eu havia sofrido um acidente e você não era o motorista.

- Você sofreu um acidente?

Solto o envelope e avanço nela tocando seus braços, rosto, em busca de alguma cicatriz. Novamente ela recua de mim.

- Sim! Infelizmente passei dias em coma.

- Meu Deus!

Procurei por ela em todos os hospitais, como nunca a achei? Meus olhos percorrem seu corpo. Não possui qualquer marca aparente.

- Em que hospital esteve?

- Por que a pergunta?

- Me responda.

- Não tenho que responder nada a um estranho.

- Procurei por você em todos os hospitais.

Grito desesperado e Fernanda se vira, desviando os olhos de mim.

- As pessoas da família e as que conheço, já sabem do meu retorno. Já voltei a minha vida normal, amanhã volto para a empresa.

- Você não trabalha mais na empresa da sua família.

- Claro que trabalho, estou tentando ganhar a presidência da empresa. Tentando mostrar ao meu pai que mereço esse cargo.

Minha mente começa a unir as informações. Se pra ela ainda trabalha na empresa e não se lembra de mim... Fernanda perdeu a memória com o acidente. Ela simplesmente esqueceu tudo sobre nós. Olho fundo em seus olhos, tento buscar algo que me diga que tudo isso é mentira. A merda de uma mentira.

- Como sabia meu telefone? Como mandou mensagem me chamando aqui, se não lembra de mim e nem daqui.

Abro meus braços e aponto para o andar de vidro.

- Isso aqui não te lembra nada?

Aponto pra mim.

- Me olha e diz que não sabe quem eu sou.

Fernanda mantém os olhos em mim.

- Não sei quem você é.

Meus olhos se enchem de lágrimas.

- É impossível você não se lembrar dos sentimentos que tem por mim. Impossível não lembrar de tudo que passamos e que eu te amo.

Seus olhos se mantêm frios e o silêncio me dói ainda mais.

- Me diz que não sente nada.

Grito e as lágrimas descem pelo meu rosto.

- Não tem como sentir algo por alguém que nunca vi, nunca existiu na minha vida.

Suas palavras são como um soco em meu coração.

- Não tive perda de memória, todos os meus exames apontaram que estou bem. Me lembro da minha família, de toda a minha vida.

- Você não se lembra de mim e tive, tenho uma passagem muito importante na sua vida. Você me ama!

- Você precisa procurar ajuda.

- Então me explica porque isso estava na sua casa, com o meu nome.

Pego o envelope do chão.

- Por que algo com o meu nome estaria na sua casa?

- Não sei! Mas se esse prédio é do Vinicius, provavelmente ele esqueceu comigo ou se misturou nas minhas coisas na empresa.

- Onde achou meu celular?

- Meu segurança conseguiu. É fácil quando se tem o nome completo da pessoa.

- Não posso acreditar nisso.

Passo a mão em meu rosto.

- Não quero acreditar que tenha me esquecido.

- Acredite no que, você nunca existiu na minha vida. Só vim aqui te entregar isso e voltar para a minha vida. Perdi muito tempo naquele hospital.

Se vira e vai até o elevador. Ando atrás dela e entramos juntos. Estou em pânico com tudo isso, não sei o que fazer. Ela digita a senha do elevador e as portas se fecham. Na verdade eu sei sim. Ela precisa lembrar de mim. Jogo o envelope no chão, empurro seu corpo com o meu e a prendo na parede, avançando em sua boca. Seus lábios brigam contra os meus e suas mãos tentam me afastar. Por segundos sua boca se molda a minha como antes. Por segundos a sensação é de que seus lábios se lembram dos meus. Paro de beijá-la e encaro seus olhos, que parecem mais suaves pra mim.

- Se continuar me atacando assim, serei obrigada a andar com meu segurança. Darei a ordem de não deixar que se aproxime de mim.

As portas do elevador se abrem.

- Me solte, Sr. Lima!

Solto seus braços e meu corpo se afasta do dela.

- Boa noite!

Passa por mim e sai do elevador quase correndo. Vejo na porta do prédio o Vitor. Ela fala algo a ele que me olha furioso. Sua mão se posiciona nas costas da Fernanda e ele a conduz para fora.

Esse filho da mãe está se aproveitando da falta de memória da Fernanda. Pego o envelope do chão e corro pra fora do prédio pra falar com ela, mas já está no carro que logo segue pela rua. Passo a mão em meu cabelo, sem entender que merda está acontecendo. Encaro o envelope e decido abri-lo. Rasgo e puxo de dentro um contrato. Meu coração acelera. É o contrato do prédio, está em meu nome. Vejo dentro do envelope um papel dobrado. Puxo e o abro. É uma carta dela.

"Lenhador...

Aqui esta seu sonho se realizando. É a minha forma de dizer o que sinto.

Espero que seja o suficiente para entender quanto é importante para mim.

Da sua...

Chapeuzinho"

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