A vida era muito boa. Juliana sabia disso. Ela tinha as melhores roupas, o melhor celular, o relógio mais caro e chique, o carro do ano, sapatos de marca. Estudava na universidade mais cara, fazia o curso que sempre quis fazer, não era obrigada a nada, seus pais eram maleáveis, apoiavam suas maluquices, como essa de dar apoio ao grupo de "delinquentes" da parte inferior de São Paulo. Juliana ajudava na organização das aulas dos garotos que estavam em liberdade condicional ou para os que precisavam fazer serviço comunitário para pagar as quebras de lei que faziam. Era completamente voluntário, mas ela gostava de estar ali, observar as pessoas, a diversidade delas. Era quase natural. E conseguia fazer amizade fácil com eles, conversava, ria, ajudava, era uma parte do seu dia que apreciava muito. E sem contar que contava como atividade extra para a faculdade então ela juntava tudo em um pacote perfeito.
Mas mesmo com tudo isso, ela ainda sentia que algo faltava, algo dentro dela parecia incompleto, como se, por mais dramático que pudesse soar - faltasse uma parte de si.
Nesse dia lá estava Juliana arrumando os materiais para o grupo que viria naquela noite. Eles iam fazer aula de economia domestica, para que no natal que se aproximava, fizessem o jantar de fim de ano como finalização de seu serviço.
Ela viu os homens entrando, cerca de seis entre 17-25 anos, e logo viu um rosto bem familiar. Juliana sorriu ao ver o garoto de cabelos vermelhos entrar na sala mascando um chiclete, as tatuagens a mostra em seu pescoço, uma bandana preta na cabeça, camisa branca larga e uma calça rasgada. - Você aqui de novo. - falou cruzando os braços com um meio sorriso, como se quisesse o chamar atenção, mas não conseguia. Tantas vezes tinha o visto ali... apenas se preocupava, mais uma vez e ele iria para a cadeia, de verdade.
- Não resisto a saudade que sinto de você - o de cabelos vermelhos disse, colocando uma mão dramaticamente no coração.
Juliana riu - O que aprontou dessa vez?
- Racha.
- De novo? - arregalou os olhos.
O garoto deu de ombros - Não resisto. - e sorriu, mascando o chiclete e indo ate o fundo da sala, sentando em uma cadeira.
O professor oficial chegou e foi passando as coordenadas, logo 6 marmanjos estavam fazendo cookies com gotas de chocolate. Tinha ate um marombado se esforçando bastante, colocando as gotas milimetricamente em cada bola da massa.
- Thiago, você precisa se esforçar - Juliana chegou ate a mesa do garoto de cabelos vermelhos.
- Mas eu estou Juliana, se você soubesse o quanto sou ruim cozinhando ia saber que isso aqui ta uma maravilha, alias, - chegou mais perto dela com um sorriso safado no rosto - não é a cara que diz algo sobre a comida, e sim o gosto.
Juliana sorriu, se algum dos chefes dos restaurantes caros em que frequentava ouvisse isso teria um aneurisma - Não concordo.
- Claro que não, sua patricinha, mas vamos apostar?
- Apostar o que? - ela perguntou desconfiada.
- Se o gosto estiver bom, independente da cara, você vai ir visitar minha quebrada hoje a noite, vai rolar uma festinha lá.
Juliana olhou para o cookie completamente horroroso em cima da bancada e para a proposta do avermelhado. Fazia quase um ano que Thiago a chamava para conhecer o "submundo" dele, como dizia, e Juliana estratégicamente negava, ainda não tinha chegado a hora - Aquele lugar não é pra mim.
- Você já foi por acaso pra saber? Você precisa se aventurar um pouco na vida patricinha, vai acabar explodindo dentro dessa sua bolha de perfeição. - piscou um olho.
- Tá mas, o que eu ganho se eu não gostar mesmo, o que eu acho bem mais provável. - falhou olhando a coisa horrorosa na mesa.
- Hmmmm - Thiago pensou - Eu entro no tal viciados em bebida que você tanto diz.
- Os alcoólicos anônimos? - Juliana soltou uma risada baixa - Mas isso é você quem acaba ganhando, não eu.
- Você já tem tudo Juliana, não tem graça.
Ela riu mais uma vez - Tudo bem, eu aceito. Não tem possibilidade nenhuma disso aqui tá bom. - disse olhando Thiago colocar os cookies no forno e a olhar com deboche no rosto.
40 minutos depois lá estava Juliana em frente as bolas amassadas com algumas manchas mais escuras. Aquilo parecia coco triturado, ela não conseguia nem olhar.
Thiago cortou um pedaço e colocou em um pratinho, logo os outros homens da sala se aproximaram para assistir a cena. Juliana fez cara de nojo, pegou um pedaço do cookie, fechou os olhos, parou de respirar e colocou na boca.
Foi uma explosão de chocolate cremoso que ela nem conseguiu disfarçar que estava ruim, porque estava maravilhoso, o gosto estava maravilhoso. Ela abriu os olhos vendo o rosto de Thiago que já estava com um sorriso giganta - AH GANHEI! - disse pulando com os braços pra cima.
- Merda - Juliana disse.
- Oh, ganhei e ainda vi você praguejar, hoje o dia promete!
Ela bufou - Preciso terminar de ver os outro.
- Sem problemas, eu te espero pra irmos juntos.





