Ana: A Descoberta Por Detrás da Ferida

Horas mais tarde, o meu pai entrou no quarto. A sua roupa estava chamuscada, o rosto coberto de fuligem e o seu braço estava numa ligadura improvisada.

"Pai!"

Corri para ele, ignorando a dor aguda na minha barriga. Ele abraçou-me com o seu braço bom.

"Está tudo bem, minha filha. Eu estou aqui."

"O que aconteceu? Eu estava tão preocupada!"

"O fogo começou no andar de baixo. O fumo espalhou-se rapidamente. Fiquei preso com alguns colegas, mas os bombeiros conseguiram chegar até nós. Torci o pulso a ajudar a arrombar uma porta, mas estou bem."

Ele sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, o seu corpo exausto finalmente a ceder.

"E o Pedro?", perguntou ele, olhando à volta. "Ele não estava contigo?"

Eu não consegui responder. Apenas abanei a cabeça, e as lágrimas voltaram.

O meu pai entendeu tudo sem que eu precisasse de dizer uma palavra. A sua expressão endureceu.

Nesse momento, Pedro entrou no quarto. A sua roupa também estava suja de fumo, e ele parecia exausto, mas ileso.

Quando me viu nos braços do meu pai, ele parou.

"Ana... Sr. Almeida... Eu posso explicar."

O meu pai levantou-se lentamente. A sua voz era baixa e perigosa.

"Explicar o quê, Pedro? Explicar porque é que a minha filha, a tua noiva, estava sozinha e apavorada depois de uma cirurgia enquanto tu estavas noutro lugar?"

"A Laura estava presa! Ela ia morrer! Eu tinha de a ajudar!"

"E a minha filha? E eu? O prédio da minha empresa estava em chamas, e tu nem sequer te lembraste de mim?", disse o meu pai, a sua voz a subir de tom.

"Eu sabia que o senhor era capaz de se safar sozinho! A Ana estava segura aqui!"

"Segura? Ela estava a ligar para o pai que ela pensava que podia estar a morrer, sozinha! Tu fizeste uma escolha, rapaz. E não foi a minha filha."

Pedro olhou para mim, os seus olhos a suplicar.

"Ana, por favor. Diz alguma coisa."

Eu olhei para ele, o homem que eu amava, e senti um vazio gelado.

"O meu pai tem razão, Pedro. Tu fizeste uma escolha."

Tirei o anel de noivado do meu dedo. A joia cara pareceu subitamente barata e sem valor. Estendi-lha.

"Acabou. Não me posso casar com um homem que me deixaria para salvar outra pessoa."

Os olhos dele arregalaram-se, chocados.

"Ana, não podes estar a falar a sério! Por causa disto? Foi uma emergência!"

"Sim, foi. E nessa emergência, eu não fui a tua prioridade. O meu pai não foi a tua prioridade. A Laura foi. Fica com ela."

Ele não pegou no anel. A sua expressão mudou de súplica para raiva.

"Isto é ridículo! Estás a ser egoísta! A vida de uma pessoa estava em risco!"

"A vida do meu pai também!", gritei, a minha voz a falhar. "E eu precisava de ti aqui!"

"Estás a exagerar. O teu pai está bem, tu estás bem. Estás a fazer uma tempestade num copo de água só para me fazeres sentir culpado!"

O meu pai deu um passo à frente.

"Sai. Agora."

Pedro olhou para o meu pai, depois para mim, e finalmente saiu do quarto, batendo a porta com força.

Eu desabei na cama, a soluçar. O meu pai sentou-se ao meu lado e abraçou-me, deixando-me chorar no seu ombro.

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