Amor Perdido, Uma Vida Resgatada

Meu coração martelava contra minhas costelas como um pássaro preso. Eu sabia. Eu simplesmente sabia. Jéssica. Algo estava terrivelmente errado. Eu precisava chegar até ela. Eu precisava vê-la.

Saí tropeçando da lanchonete, o ar frio da noite batendo no meu rosto, mas sem fazer nada para limpar a névoa de pânico. Meu velho Celta era pouco confiável, a quilômetros de distância no meu apartamento. Um táxi demoraria muito. Minha mente corria, desesperada.

Naquele momento, um sedã preto elegante parou ao meu lado. A janela desceu, revelando o rosto sombrio de Caio Albuquerque. "Entre, Clara. Eu te levo."

Meu primeiro instinto foi recusar, atacar, mandá-lo para o inferno. Mas Jéssica. O tempo era essencial. Olhei para o banco de trás. Bruna estava lá, agarrando Léo, que parecia sonolento e confuso.

"Não acredito que você ainda está aqui", murmurei, mas abri a porta.

Antes que eu pudesse entrar completamente, a voz de Bruna, afiada e tingida de medo, cortou a noite. "Não me toque! Fique longe de mim, Clara! Ela é louca, Caio! Ela sempre foi louca! Ela pode tentar machucar o Léo!" Ela puxou Léo com mais força, protegendo-o com seu corpo.

Minha cabeça se ergueu. "Louca? Você quer falar sobre loucura, Bruna? Você acha que eu vou machucar meu filho depois de tudo que fiz por ele?" Minha voz era um rosnado baixo. "Vamos falar sobre o seu passado, que tal? Aquele que a Jéssica passou anos encobrindo? Aquele em que você andava com uma gangue de motoqueiros, foi presa várias vezes e teve tantos parceiros casuais que a Jéssica teve que pagar metade da cidade para manter sua reputação intacta?"

O rosto de Bruna ficou branco. Seus olhos dispararam para Caio, depois de volta para mim, um medo desesperado cintilando neles. "Caio, ela está mentindo! Ela só está tentando me chatear por causa da Jéssica! Ela sempre teve ciúmes!"

Inclinei-me para mais perto, minha voz baixando para um sussurro perigoso. "E não vamos esquecer sua pequena... 'condição'. Aquela com a qual a Jéssica estava tão preocupada. Aquela que você teve tanto cuidado para esconder. Aquela sobre a qual seu ex-namorado me avisou antes de desaparecer."

"Pare com isso, Clara!", Caio rugiu, suas mãos agarrando o volante com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. "Do que você está falando? Que condição?"

Bruna, percebendo que estava perdendo o controle, começou a soluçar, lágrimas teatrais escorrendo pelo seu rosto. "Ela está inventando tudo, Caio! Ela só está tentando me machucar porque a Jéssica está morrendo! Ela sabe como sou frágil! Oh, Caio, por favor, não consigo ouvir isso! Vamos embora. Eu pego o Léo e vou para casa. Você pode levar a Clara para o hospital. Apenas... me proteja dela!" Ela enterrou o rosto no cabelo de Léo, seu corpo tremendo de terror fingido.

Ela estava distorcendo a narrativa novamente, se fazendo de vítima, me isolando. Bruna era boa, eu tinha que admitir.

Caio olhou para Bruna, seu rosto uma mistura de confusão e preocupação. "Bruna, querida, acalme-se. Ela não vai te machucar." Mas seus olhos, quando encontraram os meus, continham uma decepção profunda e profunda. "Clara, o que você está fazendo? Você está tentando insinuar algo nojento sobre a Bruna? Isso é baixo, mesmo para você."

No espelho retrovisor, vi Léo espiar por cima do ombro de Bruna. Seu pequeno rosto estava contorcido de raiva. Ele ergueu um caminhão de plástico vermelho brilhante, sua mãozinha o segurando com força. Ele se preparou e, com um grito gutural, o arremessou direto na minha cabeça.

O plástico duro atingiu minha têmpora com um baque nauseante. Uma dor aguda e ofuscante explodiu atrás dos meus olhos. Gritei, agarrando minha cabeça, o impacto enviando um solavanco pelo meu pescoço. Mas a dor física não era nada comparada à agonia emocional de ver meu filho, meu próprio filho, tentar me machucar.

Minha visão ficou turva. Uma onda de náusea me invadiu. Meu filho. A memória dele, pequeno e perfeito, envolto em um cobertor azul, passou pela minha mente. As horas de trabalho de parto, a espera agonizante, a onda avassaladora de amor quando o segurei pela primeira vez. Seus dedinhos agarrando os meus, seus arrulhos suaves, o cheiro doce de talco de bebê. Eu o carreguei por nove meses, o nutri, o amei com cada fibra do meu ser. E agora, ele me odiava. Ele queria me machucar. A ironia cruel disso me rasgou, me deixando ofegante.

Caio, em uma explosão súbita de raiva, pisou no freio. O carro cantou pneu, nos jogando todos para frente. "Léo!", ele rugiu, virando-se para seu filho. Ele arrancou o caminhão da mão de Léo, seu rosto uma máscara de fúria. "O que há de errado com você? Nós não jogamos brinquedos! Nunca!" Com um movimento rápido e decisivo, ele abaixou a janela e jogou o brinquedo em uma lixeira próxima.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Encostei a cabeça no vidro frio da janela, lágrimas silenciosamente traçando caminhos pelo meu rosto. No reflexo, vi meu próprio rosto, pálido e abatido, uma única lágrima brilhando na luz fraca. Odiei ter chorado. Odiei que eles vissem minha fraqueza.

Minha cabeça latejava, mas minha mente voltou para Jéssica. Seu rosto desbotado e cansado, seus olhos cheios de um pedido de desculpas não dito. "Sinto muito, Clara", ela sussurrou para mim algumas semanas atrás, sua voz rouca. "Sinto muito por não poder te dar uma vida melhor. Sinto muito por todo o problema que causei. Se ao menos eu não tivesse sido tão tola, tão ingênua, a Bruna não teria crescido do jeito que cresceu, e você... você não estaria sobrecarregada com tudo isso."

Eu explodi então, os anos de frustração reprimida transbordando. "Sobrecarregada? Jéssica, olhe para mim! Estou afogada em dívidas! Perdi tudo! Minha carreira, minha casa, meu filho! Tudo porque você, em sua infinita bondade, tentou protegê-la!" Arrependi-me das palavras no momento em que saíram da minha boca.

Jéssica desmoronou, seu corpo frágil tremendo de soluços. "Eu sei, eu sei", ela chorou, o rosto enterrado nas mãos. "Eu só queria fazer o certo por ela. Ela era tão zangada, tão perdida. Eu pensei... pensei que poderia consertá-la. Pensei que poderia fazê-la ver o bem em si mesma."

Suas palavras ecoaram em minha mente por dias. Eu estava tão consumida pela minha própria dor, meu próprio ressentimento. Mas Jéssica estava certa. Ela tentou. Ela sempre quis fazer o bem. E Bruna, com sua lógica distorcida, usou essa bondade, esse amor, contra ela. Não foi culpa de Jéssica. Nunca foi culpa de Jéssica. Foi Bruna. Sempre Bruna.

O carro deu outro solavanco, entrando na entrada clara e estéril do Hospital Sírio-Libanês. O cheiro familiar de antisséptico me atingiu, um lembrete sombrio da minha vida passada, uma vida onde eu esperava curar, não ser quebrada.

Uma enfermeira, uma mulher de rosto gentil e olhos cansados, nos encontrou na entrada da emergência. "A Sra. Ferraz está perguntando por sua filha", disse ela suavemente, seu olhar varrendo-me, depois para Bruna. "Ela está no quarto 302. Uma visita pode ajudar, mesmo que um pouco. Às vezes, lhes dá um motivo para lutar."

Meus olhos se fixaram nos de Bruna. "Ela está perguntando por sua filha, Bruna. Sua mãe. Ela quer te ver." Minha voz era firme, não deixando espaço para discussão. Agarrei o braço de Bruna, puxando-a em direção ao elevador. Caio, parecendo atordoado, nos seguiu.

"Não! Me solta, Clara! Eu não quero vê-la! Ela não é minha mãe!", Bruna gritou, lutando contra meu aperto.

Ignorei seus protestos, arrastando-a para o elevador, Caio entrando depois de nós. "Ela está morrendo, Bruna", sussurrei, minha voz crua de emoção. "Você deve isso a ela. A mulher que te criou, que te deu tudo, está chamando por você. Vá até ela."

Eu a empurrei para o quarto branco e estéril. O ar estava denso com o cheiro de doença e o bipe suave das máquinas. Jéssica estava na cama, o rosto pálido e abatido, tubos saindo de seu nariz e braço. Seus olhos, nublados de dor, se abriram. Ela parecia tão pequena, tão frágil.

Observei por um momento, depois me virei para sair, dando-lhes o que pensei ser um momento privado. Ao entrar no corredor, Caio colocou a mão no meu braço.

"Clara, espere", disse ele, sua voz surpreendentemente gentil. "O hospital. Eu já cuidei disso. Todas as contas da Jéssica. Estão pagas."

Minha cabeça se ergueu. "O quê? Por quê?" Eu o encarei, perplexa. Sua generosidade repentina, após anos de indiferença fria, parecia estranha, suspeita. "Qual é a pegadinha, Caio? O que você quer?"

Ele pareceu magoado. "Não há pegadinha, Clara. Eu só... me senti mal. A Jéssica sempre foi gentil comigo. Você me pediu ajuda, e eu não te dei. Eu estava errado."

Minhas sobrancelhas se franziram. "Eu não preciso da sua caridade, Caio. Eu te disse isso há cinco anos. Eu posso pagar as contas da Jéssica. Apenas... devolva. Devolva o dinheiro." Eu havia emprestado tanto, assumido tanta dívida. O pagamento dele, embora bem-intencionado, parecia outra forma de controle, outra maneira de me endividar com ele.

Ele balançou a cabeça. "Não. Considere isso... um pedido de desculpas. Por tudo. Pela forma como as coisas terminaram. Por... pela universidade, por sua educação. Eu sei que estava errado sobre isso. Eu deveria ter te defendido."

Uma risada amarga e sem humor escapou dos meus lábios. "Oh, agora você está arrependido, Caio? Agora, depois de cinco anos me vendo lutar, depois de deixar sua família me tirar tudo, depois que você mesmo rescindiu minha reputação acadêmica, a mesma coisa que você agora afirma se arrepender? Você acha que uma conta de hospital te absolve?" Minha voz estava mais fria do que eu pensava ser possível. "Você tem alguma ideia, Caio, de quantos empregos eu perdi por causa da influência da sua família? Quantas portas foram batidas na minha cara porque a 'ex-esposa desgraçada do Albuquerque' foi considerada inempregável? Por cinco anos, Caio. Cinco anos. Eu não consegui um emprego decente, não na minha área, não em nenhum lugar respeitável, porque você, e sua família, garantiram que eu não tivesse credenciais legítimas. Você finalmente vai parar de obstruir minha vida?"

Ele abriu a boca para protestar, mas antes que pudesse falar, um grito agudo irrompeu do quarto de Jéssica.

"Ela está morrendo! Ela está morrendo! Mamãe Jéssica, não!", a voz de Bruna, crua de pânico, rasgou o silêncio estéril do corredor.

Meu sangue gelou. Passei por Caio, correndo para o quarto. Os olhos de Jéssica estavam arregalados, fixos em mim, um apelo desesperado em suas profundezas. Seu braço, frágil e fino, se estendeu.

"Clara", ela sussurrou, sua voz quase inaudível. "A dívida... os empréstimos... eu sei. A Bruna me contou. Ela me mostrou os papéis. Todo aquele dinheiro... por mim. Minha pobre menina. Você nunca vai sair dessa." Lágrimas escorriam pelo seu rosto, uma mistura de dor e profunda tristeza. "Não... não seja como eu, Clara. Não deixe sua vida ser desperdiçada pelos outros. Salve-se. Eu não valho a pena. Eu não valho esse sofrimento."

Suas palavras, pesadas de desespero, pairavam no ar. Bruna estava parada ao lado da cama, o rosto uma máscara de choque, os olhos arregalados com uma estranha mistura de terror e triunfo.

Então, um bipe agudo e insistente começou. O monitor cardíaco. Uma linha reta. O tom longo e aterrorizante encheu a sala, selando o destino de Jéssica.

Médicos e enfermeiras entraram correndo, uma agitação de movimentos apressados e comandos urgentes. "Código azul! Estamos perdendo ela!"

Eu fiquei lá, paralisada, observando-os trabalhar em Jéssica. Minha Jéssica. A única pessoa que realmente me amou, incondicionalmente. A pessoa por quem eu sacrifiquei tudo. E agora, ela se foi.

O médico, com o rosto sombrio, finalmente balançou a cabeça. "Sinto muito. Fizemos tudo o que podíamos. Hora da morte: 21:47."

Jéssica se foi. E Bruna, sua filha biológica, estava lá. E ela contou a Jéssica sobre minha dívida paralisante, sobre meu sacrifício desesperado, em seus momentos finais. Por quê? O que Bruna disse ou fez para empurrar minha mãe já frágil para o abismo? Um pensamento frio e aterrorizante começou a se formar em minha mente.

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