Amor Incondicional, Nova Família

Juntei os cacos de vidro com cuidado, um por um. Cada pedaço refletia uma parte diferente do meu estúdio, o único lugar nesta casa que realmente parecia meu.

Lembrei-me do nosso álbum de casamento. Estava guardado no fundo de um armário, coberto de poeira. Eu o folheei uma vez, meses atrás. Em quase todas as fotos da festa, eu estava no canto, ao lado de Rafael, que sempre parecia estar olhando para outra pessoa. Eu era um acessório em meu próprio casamento.

Rafael chegou em casa mais cedo. Ele me encontrou na cozinha, jogando os cacos de vidro no lixo. Seus olhos foram do meu rosto para o lixo.

"O que você fez para irritar o Lucas de novo? Ele me ligou chorando, disse que você gritou com ele."

A acusação era automática, a culpa sempre minha.

"Eu não gritei com ele, Rafael. Ele quebrou nossa foto de família."

"E por que ele faria isso? Crianças não fazem essas coisas sem motivo. Você deve ter feito algo."

Ele era juiz e júri, e o veredito era sempre o mesmo.

Uma lembrança do dia do nosso casamento brilhou em minha mente. Ele estava em pé ao meu lado, no altar, e sussurrou: "Eu vou te proteger de tudo e de todos. Nós seremos uma família."

A ironia era tão amarga que quase me fez rir. O homem que prometeu me proteger era agora meu principal acusador, seu rosto uma máscara de decepção, não por seu filho, mas por mim.

Ele ajeitou a gravata, mudando de assunto, como sempre fazia quando a conversa se tornava desconfortável para ele.

"Amanhã temos o jantar anual da empresa. A Patrícia vai estar lá, então, por favor, se comporte. Sem dramas."

Era uma ordem, não um pedido. Ele esperava minha submissão habitual.

Mas algo dentro de mim havia se quebrado junto com aquele porta-retratos.

"Eu não vou."

As palavras saíram firmes, sem hesitação.

Rafael parou, virando-se lentamente. Ele me olhou como se eu tivesse falado em uma língua estrangeira.

"O que você disse?"

"Eu disse que não vou" , repeti, olhando diretamente em seus olhos.

Ele ficou chocado, sem palavras. Eu nunca o havia desafiado antes.

No dia seguinte, enquanto Rafael estava no trabalho, a campainha tocou. Era Patrícia. Ela entrou sem ser convidada, com um sorriso falso no rosto.

"Vim ver como o meu pequeno Lucas está. Ele parecia tão chateado ontem."

Ela andava pela casa como se fosse a dona, passando os dedos pelos móveis que eu escolhi, ajeitando uma almofada no sofá que eu projetei. Seu braço roçou o de Rafael quando ele chegou mais tarde, um toque que durou um segundo a mais do que o necessário.

Lucas desceu as escadas correndo. Ao ver Patrícia, seu rosto se iluminou.

"Mamãe!"

Ele correu para os braços dela, um abraço apertado que ele nunca me dera. A palavra "mamãe" , dita na minha frente, foi outra facada.

Como se fosse combinado, a porta se abriu novamente e Dona Helena entrou.

"Patrícia, querida! Que bom ver você aqui!" , ela exclamou, ignorando completamente a minha presença. Ela abraçou Patrícia, alisando seus cabelos. "Você parece maravilhosa. Este lugar fica mais iluminado com você aqui."

Eu me senti invisível, um fantasma na minha própria casa.

Lembrei-me de uma noite, logo no início do meu casamento. Eu estava arrumando o escritório de Rafael e encontrei uma caixa de sapatos no fundo de uma gaveta. Dentro, havia dezenas de cartas de amor, escritas por ele para Patrícia durante os anos em que estiveram juntos.

Quando o confrontei, ele ficou furioso. Disse que era o passado, que eu não tinha o direito de invadir sua privacidade. Ele prometeu que havia acabado.

Mas agora, vendo-o olhar para ela, eu sabia que ele nunca a havia esquecido. Ele a mantinha por perto, alimentando uma esperança que envenenava nosso casamento.

Patrícia se virou para mim, seu olhar cheio de uma falsa preocupação.

"Querida, você não parece bem. Esse estresse todo não faz bem para... você sabe."

Era uma referência cruel à minha dificuldade para engravidar, ao aborto espontâneo que sofri, um sofrimento que eles atribuíam à minha "instabilidade emocional" .

Em vez de recuar ou me justificar, eu apenas a encarei. Meu rosto estava em branco, uma tela sem emoção. Mantive seu olhar por um longo momento e depois, sem dizer uma única palavra, virei as costas e subi para o meu quarto.

Mais tarde, ouvi vozes animadas na sala de estar. Desci e vi uma cena que selou meu destino naquela casa.

Dona Helena estava tirando uma pulseira de veludo de sua bolsa. Era uma joia de família, uma peça de ouro delicada com pequenas safiras. Eu a havia admirado uma vez, e Dona Helena me disse que era reservada para a "verdadeira mulher da família Costa" .

Ela pegou a mão de Patrícia e colocou a pulseira em seu pulso.

"Sempre achei que ficaria melhor em você, Patrícia. Combina com seus olhos."

Patrícia sorriu, um sorriso vitorioso, e olhou para mim por cima do ombro de Dona Helena. A mensagem era clara. Eu era a intrusa. E meu tempo ali havia acabado.

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