Os dias passaram rápidos e a viagem se aproximava. Tudo já estava pronto, faltava apenas contar a Tamara, mas isso elas deixaram por último, já que sabiam que a amiga iria surtar quando soubesse.
Anna Laura estava em seu trabalho quando recebeu uma mensagem em seu e-mail. Era fisioterapeuta em um SPA bastante famoso em São Paulo.
Na hora do almoço ela verificou a mensagem e soltou um grito no restaurante onde estava almoçando, todo mundo a olhou, mas não estava nem aí. Decidiu mandar uma mensagem para as amigas no mesmo instante.
Preciso falar com vocês urgente! Chamada de vídeo à noite ok.
Enviou a mesma mensagem para as duas, não mandou no grupo privado delas porque Tamara também participava, apesar de ela raramente falar algo.
Mallu e Viviana ficaram curiosas com a mensagem e quando chegaram do trabalho já conectaram suas webcams.
— Oi migah. — Vivi disse vendo o rosto da amiga do outro lado.
— Oi. — Mallu respondeu cansada. — De boa?
— De boa e você? Parece cansada.
— Aquelas crianças acabam comigo cara, é sério. — Mallu era professora no jardim de infância.
Viviana sorriu.
— Não sei como você tem paciência para trabalhar com tanta criança, é sério.
— Eu achava que seria fácil, sabe são pequenos, fofos, uns amores, problema é quando começam a chorar.
O namorado de Viviana, com quem ela mora, resmungou algo sobre crianças serem insuportáveis. Ela não gostou, mas não comentou nada, eles discutiam por causa desse assunto, mas ela não ia fazer isso na frente da amiga.
— E lá no aquário como está? Já falou sobre a viagem?
Kevin olhou para a namorada de cara feia, ele não concordava com aquela viagem, mas se ela queria ir, problema seu. Vivi não comentou isso com as amigas.
— Tá tudo ótimo, hoje chegou um novo morador, um tubarão martelo, ele tava um pouco arisco, mas logo se acostumou.
— Ai que legal.
— Pois é, e sobre a viagem eu já falei sim e eles vão me dar vinte dias depois descontam nas férias, tudo certo.
Kevin bateu a porta do quarto e Viviana tentou disfarçar, mas Mallu percebeu do outro lado da tela, elas se conheciam muito bem.
— Ele não aceita, não é?
— Não, mas eu já decidi que vou e também não quero falar disso.
— Tá, mas sabe que quando precisar pode me ligar.
— Sei sim, obrigada amiga.
— Boa noite meninas! — Anna Laura acabava de se conectar e percebeu o clima pesada. — Aconteceu algo?
— Não aconteceu nada. — Mallu respondeu disfarçando. — E você tá atrasada, de novo!
— Fui tomar um banho, posso? Ai como vocês são chatas! Credo!
As três acabaram rindo.
— O que você quer tranqueira? Fala logo, eu to cansada e quero ir dormir. — Vivi perguntou olhando de relance para a porta do quarto.
— Então eu recebi uma mensagem ótima hoje no meu e-mail.
— E o que a gente tem a ver com isso? — Mallu provocou e ela revirou os olhos.
— Ai como vocês são chatas. Leiam. — pediu aproximando a tela do celular da webcam.
A mensagem era da companhia marítima que elas fariam o cruzeiro e dizia o seguinte:
PARABÉNS! Você foi contemplado com o sorteio surpresa, onde nós sorteamos um pacote e ele ganha uma passagem extra com tudo pago no mesmo valor do seu pacote! Basta você informar o nome do passageiro e o número do passaporte. Boa viagem!
As meninas ficaram em choque.
— Isso é verdade Anna?
— Cada palavra Malluzinha, eu liguei lá para confirmar e o nosso pacote foi sorteado, quem nós vamos levar?
— Eu não tenho nenhuma amiga para levar. — Mallu disse. — Pelo menos não que mereça esse presente.
— Tem um cara que trabalha comigo lá no aquário, mas é homem ia ficar estranho.
— Com certeza Vivi homem não. Eu também não tenho ninguém, quem nós vamos levar?
As três pensaram por um pouco até que Mallu teve uma ideia.
— Vivi sua irmã tem quantos anos?
— Dezenove por quê?
Mallu arqueou a sobrancelha e Anna Laura riu. Viviana entendeu e balançou a cabeça negando.
— Não. A Lívia não vai com a gente.
— Por que não?
— Porque não Mallu, isso é ridículo, minha irmã não vai nessa viagem!
— Viviana a Mallu teve uma ótima ideia, a gente não tem outra pessoa para levar, por que não pode ser sua irmã?
— Porque ela é uma cabeça de vento! Não tem um pingo de juízo!
— Criatura você vai tá lá! A gente vai tá lá! Vai ficar de olho nela!
— A Anna tem razão, tem que ser ela Viviana, não tem mais ninguém que a gente possa levar.
Depois de debater mais um pouco ficou decidido que Lívia iria junto com elas.
No outro dia, Viviana ligou para irmã que ficou exultante em ir para o cruzeiro e por telefone mesmo ela já passou os dados que seriam necessários. Viviana sabia que a irmã caçula lhe daria trabalho, afinal a menina não tinha juízo nenhum e as duas viviam brigando quando ocupavam o mesmo ambiente.
Mas como as meninas disseram, não tinha outra pessoa para levar, e pensando bem, sua irmã merecia esse presente, afinal a menina tinha se esforçado para conseguir uma bolsa de estudos e no próximo semestre iria começar a faculdade de jornalismo em uma ótima universidade.
...
A viagem seria na próxima semana e faltava o mais importante, a personagem principal saber de tudo, a parte mais difícil.
As amigas combinaram de ir até a casa de Tamara no fim de semana para lhe contar. A mãe dela já sabia e estava de acordo, aproveitaram também que o pai da amiga estava viajando a trabalho, já que ele era contra e queria prender a filha em uma gaiola dourada.
No sábado, às seis da tarde, todas se encontraram em frente à casa da amiga, foram muito bem recebidas por Inês.
— Como ela está tia?
— O mesmo de sempre Mallu. — Inês respondeu triste. — Não sai de casa, não quer mais ir passear, ir ao cinema que ela gostava tanto.
— Acha que ela vai aceitar?
— Eu espero que sim Anna Laura. Eu estarei preocupada por todas vocês ficarem em um navio no meio do oceano durante quinze dias, mas minha filha sempre sonhou com isso e se for para tirá-la dessa tristeza toda, eu apoio.
— Obrigada tia. — Viviana agradeceu de coração pelo apoio.
— De nada querida. Vão lá em cima meninas, ela está no quarto.
Deitada na cama, Tamara ouvia música no celular e se lembrava dos momentos maravilhosos que passou com ele. Doíam-lhe profundamente aquelas lembranças, mas era a única coisa que havia sobrado.
Desbloqueando a tela do celular, ficou vendo as fotos dele no facebook. Fotos dele se divertindo com a atual namorada, jogando futebol. Quantas vezes ela mesma não foi vê-lo jogar e adorava aquilo.
Bateram na porta do quarto e ela secou as lágrimas, e saiu do aplicativo. Levantou para ir abrir e já pronta para dizer à mãe que não estava com fome, mas tomou um enorme susto quando foi esmagada em um abraço de urso.
— Amiga! Que saudade! — as três gritaram ao mesmo tempo enquanto a abraçavam.
— O que estão fazendo aqui? — Tamara questionou quando se livrou do abraço.
— Nossa que jeito caloroso de receber as amigas né Tammy. — Anna Laura reclamou se jogando na cama. Pegou o celular da outra e viu que ela escutava uma música depressiva.
— Desculpe, mas vocês não me avisaram que viriam. — Tamara reclamou tomando o celular da mão da amiga.
— A gente quis fazer surpresa amiga. – Viviana disse carinhosa vendo que ela não havia gostado.
— Vocês sabem que eu não gosto de surpresas.
— Até onde eu sabia você gostava. — Anna Laura soltou debochada e as outras a olharam querendo matá-la.
— Como você tá gatinha? — Mallu abraçou a amiga pelos ombros querendo desfazer o clima pesado.
— To bem e vocês como estão?
Todas responderam que estavam bem e logo elas começaram as fazer brincadeiras uma com a outra. Tammy e Mallu também sentaram na cama e Vivi sen-tou em um puf.
— E então Tammy o que vai fazer nas férias? — Mallu perguntou jogando a isca como elas haviam combinado.
— Descansar, assistir filmes, ler livros, o de sempre.
— Por que não vai viajar? — Vivi sugeriu. — Ver seus avôs.
— Não tô com vontade.
As três se entreolharam, seria uma tarefa difícil.
— Então amiga a gente também vai entrar de férias e vamos viajar juntas.
Tamara olhou para cada uma delas.
— Se vão me chamar para ir junto, a resposta é não. — ela disse levantando.
— Porque não? — Viviana perguntou.
— Porque não quero, não to com vontade.
— Amiga você tá de férias, vai passar trinta dias enfurnada dentro desse quarto?
— Já falei que não Anna.
— Não quer nem pensar na ideia?
— Não Mallu, eu não vou e pronto.
Sentia muita falta de quem era quando estava com ele, corajosa, independente, livre. Hoje era covarde, arredia, presa a um passado que não volta mais.
Quase dois anos se passaram, mas ainda doía como se fosse recente. Tinha tentado ter outros relacionamentos, mas eles só abriram mais ainda a ferida em seu coração, nenhum deles conseguia fazê-la se sentir igual a ele fazia, ninguém jamais conseguiria.





