Faz três anos.
Três anos desde que o cheiro de metal retorcido e pneu queimado se tornou uma memória permanente.
Três anos desde que a vida de Maria Eduarda se partiu em duas.
Ela estava sentada no banco do motorista do velho sedã, o carro que era de Rafael. O couro dos bancos estava gasto, e o ar ainda guardava um fantasma do perfume dele, uma mistura de colônia amadeirada e café.
Era o aniversário da morte dele.
A garagem estava silenciosa, a única luz vinha da lâmpada nua pendurada no teto, lançando sombras longas e dançantes. Duda, como ele a chamava, apenas olhava para o painel empoeirado. Ela não dirigia o carro com frequência, era doloroso demais, mas hoje, ela precisava. Precisava sentir essa conexão, mesmo que fosse apenas com um objeto inanimado.
Ela girou a chave na ignição. O motor tossiu, relutante, mas pegou. O rádio antigo, um modelo com botões físicos e um pequeno visor digital, ligou junto com o carro.
Mas em vez de música, apenas estática. Um chiado alto e irritante.
Duda esticou a mão para desligá-lo, mas parou.
No meio do ruído branco, um som. Uma palavra.
"...perigo..."
A voz era um sussurro distorcido, quase inaudível. Duda franziu a testa, se inclinando para mais perto do alto-falante.
"O que foi isso?"
Apenas estática.
Ela balançou a cabeça. Estava imaginando coisas. O luto faz isso, prega peças na mente. Ela desligou o rádio e o motor, e o silêncio da garagem pareceu ainda mais pesado.
O celular dela vibrou no console central. O nome na tela fez seu estômago revirar.
Carolina.
Sua melhor amiga. A rocha em que ela se apoiou durante os últimos três anos.
Duda atendeu.
"Oi, Carol."
"Duda! Querida, eu estava pensando em você. Como você está hoje?"
A voz de Carolina era suave, cheia de uma preocupação ensaiada que, por três anos, Duda tinha aceitado como genuína.
"Estou bem. Só... você sabe. É o dia."
"Eu sei, meu bem, eu sei. Por isso liguei. Queria te tirar de casa. Que tal um café? Ou podemos ir ao cinema, ver aquela comédia boba que você queria."
Duda olhou para o volante do carro de Rafael.
"Eu não sei, Carol. Não estou com muito ânimo."
"Duda, já se passaram três anos. Rafael não ia querer que você vivesse assim, presa no passado. Você precisa seguir em frente. Vender essa casa, vender esse carro velho. Começar de novo."
Cada palavra era um pequeno corte. Vender o carro? O último pedaço de Rafael que ela tinha?
"O carro não está à venda, Carolina."
A frieza na voz de Duda surpreendeu até a si mesma.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Tudo bem, querida. Foi só uma sugestão. Me liga se mudar de ideia, ok? Te amo."
"Também te amo."
Duda desligou, mas a sensação de desconforto permaneceu. Mover-se. Todos diziam isso. Mas como, quando a verdade parecia tão incompleta? Um acidente. Um motorista que dormiu ao volante, bateu de frente com o carro de Rafael. Simples assim. Limpo demais.
Rafael era um arquiteto brilhante, mas nos meses antes de morrer, ele estava diferente. Preocupado. Ele passava noites em claro em seu escritório, cercado por plantas e documentos. Ele mencionou algo sobre a Titan, a construtora para a qual trabalhava em um grande projeto. "Eles estão cortando custos onde não deveriam, Duda. Isso é perigoso."
A polícia nunca investigou isso. Foi apenas um trágico acidente.
Movida por um impulso que ela não entendia, Duda ligou o carro novamente. A estática do rádio voltou, mais alta desta vez.
E então, a voz.
Clara como o dia. Inconfundível.
Era a voz de Rafael.
"Não foi um acidente."
O coração de Maria Eduarda parou. O ar ficou preso em seus pulmões. Ela olhou para o rádio, os olhos arregalados de terror e espanto. A voz não vinha da estação; vinha do próprio carro.
"Rafael?" ela sussurrou, a voz trêmula.
A estática voltou, mas então, mais uma frase, cortada, com esforço.
"A verdade... eles mentiram..."
Duda começou a tremer incontrolavelmente. Isso não era real. Não podia ser. Era o luto, a dor, sua mente finalmente se quebrando.
Ela se lembrava do dia do acidente como se fosse ontem. Carolina aparecendo em sua porta, o rosto uma máscara de tristeza, antes mesmo de a polícia chegar. Como ela sabia? Carolina a abraçou, a confortou, cuidou de todos os arranjos do funeral. Ela esteve lá em cada momento de choro, em cada noite de insônia.
Mas agora, a memória daquele dia parecia diferente. Contaminada.
"Onde você está, Rafael? Fale comigo!" ela gritou para o painel.
A resposta veio, mais fraca, como um eco distante.
"A chave... no som..."
Depois disso, silêncio. Apenas o zumbido do motor e o chiado do rádio.
Maria Eduarda desligou o carro. Ela não estava mais de luto. A dor ainda estava lá, uma brasa quente em seu peito, mas agora estava coberta por uma camada de gelo. Algo novo nasceu naquele momento: uma determinação fria e afiada.
Ela não era mais a viúva em luto.
Ela era Maria Eduarda, a jornalista investigativa.
E ela iria descobrir a verdade.
Ela olhou para o sistema de som do carro, não mais como uma relíquia, mas como a primeira peça de um quebra-cabeça. A chave.
Sua dor se transformou em força. Seu luto, em uma missão. Ela não descansaria até que cada pessoa responsável pela morte de seu marido pagasse.
E a voz dele, vinda de algum lugar além do véu, seria seu guia.





