Alma Penada, Amor Perdido

Eu flutuo no ar, uma alma penada, observando a cena que se desenrola na minha própria casa.

Arthur, o homem que eu amei, segura um bebê nos braços. Ao seu lado, Isabella, a mulher que tomou o meu lugar, sorri com uma felicidade que me revira o estômago.

Eles estão radiantes.

Amigos e familiares que um dia foram meus também, agora os cercam. Eles riem, parabenizam o novo casal, celebram a nova vida.

"Arthur, você parece outra pessoa! Tão mais feliz!" , diz uma mulher que já foi minha amiga.

"É a Isabella, ela é um anjo. Trouxe luz para a vida dele" , responde outro, e todos concordam.

Ninguém se lembra de mim. Ou melhor, se lembram, mas da forma errada.

"Ainda bem que o Leo sumiu. Era tão possessivo, só sufocava o Arthur."

"Verdade. Vivia doente, sempre se fazendo de vítima. Um peso morto."

Cada palavra deles é uma facada, mesmo que eu não tenha mais um corpo para sentir a dor física. Sinto aqui, na essência do que sobrou de mim. Uma dor fria, vazia.

Eles não sabem de nada. Não sabem dos sacrifícios, das noites em claro, do meu corpo se definhando para que ele, Arthur, pudesse viver.

Arthur olha para o bebê em seus braços, e um sorriso genuíno, algo que eu não via há muito tempo, ilumina seu rosto. Ele parece completo.

Ele se vira para um amigo que pergunta de mim.

"Alguma notícia do Leo?"

Arthur suspira, um ar de enfado.

"Nenhuma. Deve estar por aí, fazendo birra. Aquele garoto nunca soube lidar com a realidade."

Ele continua, a voz baixa, mas eu escuto cada sílaba.

"Ele pode voltar quando quiser, desde que peça desculpas e entenda que agora as coisas são diferentes. Ele precisa aceitar a Isabella e o nosso filho."

Aceitar? Eles acham que eu simplesmente fui embora? Que abandonei tudo por um capricho?

A ironia queima.

Lembro-me das noites em que rezei em frente a todos os santos que conhecia, pedindo pela saúde de Arthur. Lembro-me do dia em que os médicos disseram que não havia mais esperança, a não ser por um transplante experimental, um coração artificial caríssimo e de altíssimo risco.

Lembro-me de assinar os papéis.

Lembro-me da cirurgia.

Lembro-me de dar a ele meu futuro para que ele pudesse ter um presente.

E ele não sabe.

Ou talvez, ele saiba e escolheu esquecer.

Isabella, astuta, se aproxima dele e toca seu peito, exatamente onde o coração artificial pulsa debaixo da pele.

"Meu amor, não pense mais nisso. O que importa é que estamos juntos. Eu daria minha vida por você, você sabe disso."

Arthur a abraça, grato.

"Eu sei, meu amor. Você me salvou. Você é minha heroína."

Minha heroína.

Ele acredita que foi ela. Acredita que a fortuna dela pagou pela cirurgia. Acredita que o amor dela o curou.

Uma mentira perfeitamente construída.

Um amigo, um pouco bêbado, se aproxima de Arthur.

"Mas e o Leo? Ele não tinha aquela doença rara no coração? O médico não disse que só um milagre o salvaria?"

Arthur franze a testa, a memória parecendo uma inconveniência.

"Sim, ele tinha. Mas a Isabella... ela encontrou uma cura, um tratamento novo. Ela cuidou de tudo."

Ele olha para Isabella, os olhos cheios de uma admiração cega.

"O sacrifício que ela fez por mim... foi imenso. Já o Leo, só sabia reclamar."

A cegueira dele é absoluta. Ele reescreveu nossa história, me apagou das partes importantes e me transformou no vilão.

Um sacrifício em vão. O meu sacrifício.

E agora, eu entendo. A origem da minha desgraça não foi minha doença. Foi o amor doentio que eu sentia por ele.

Foi a decisão dele de ter um filho com outra mulher, enquanto eu estava sendo deixado para morrer, sozinho, em uma ilha deserta.

Ele precisava de um herdeiro. E precisava se livrar de mim.

A festa continua, a música alta, as risadas ecoando pela casa que um dia foi meu lar. E eu, invisível, sou apenas uma testemunha silenciosa da minha própria inexistência.

Uma alma penada, presa à dor da traição.

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