Alma Congelada: A Vingança Dela

Liliana POV:

A noite se arrastou, uma eternidade de observação silenciosa. Eu estava condenada a flutuar, um fantasma em minha própria casa, testemunhando a felicidade artificial construída sobre minha sepultura gelada.

"Rodolfo, você não acha que já é o suficiente?"

A voz de Maísa me tirou do torpor. Ela estava sentada na cama, no quarto principal, olhando para Rodolfo com uma falsa preocupação. O sol já havia nascido, lançando raios dourados pelo quarto.

Ele estava se vestindo, o rosto marcado pela insônia, mas ainda exalando a aura de poder que sempre o definira.

"Suficiente para quê, Maísa?" ele respondeu, a voz arrastada.

"Para a Liliana. Ela já deve ter aprendido a lição, não acha? Ela é orgulhosa, mas não é má."

A bile subiu em minha garganta fantasma. Orgulhosa, sim. Mas não má. E ela, a encarnação da maldade, estava ali, jogando o papel da pacificadora.

"Ela não é má, Maísa. Ela é teimosa. É a única maneira de ela entender que não pode me desafiar. Não pode desrespeitar você."

Maísa suspirou, um som melodramático. "Eu só não quero que você se arrependa, Rodolfo. E se algo acontecer a ela lá dentro? O ar condicionado..."

O ar condicionado! Ela estava jogando com ele. Semeando a dúvida, mas de uma forma que o faria pensar que a ideia era dele.

"Não seja boba, Maísa," Rodolfo disse, mas uma pontada de incerteza atravessou sua voz. "Aquele sistema está quebrado há anos. É impossível que esteja funcionando." Ele se virou, parecendo mais ansioso do que antes. "Mas... talvez seja bom levarmos um médico. Apenas para me certificar de que ela está bem. Para evitar que ela faça mais drama."

Aha. Eu sabia. Ele não estava preocupado comigo. Estava preocupado com a "cena" que eu faria quando saísse. Preocupado em manter sua imagem de protetor, mesmo quando o lobo era ele mesmo.

Minha alma riu, um som sem alegria. Tão previsível. Tão egoísta. Ele queria um médico para ter controle sobre a situação, para me fazer parecer uma histérica que precisava de "ajuda" depois de sua "punição".

Eu me perguntei. Como ele reagiria quando encontrasse meu corpo? O choque, a negação, a culpa. Queria ver isso. Queria vê-lo quebrar. Não por vingança, mas por justiça poética. Ele tinha que sentir a dor que me causou.

"Ela só quer chamar a atenção, Rodolfo," Maísa disse, interrompendo meus pensamentos sombrios. Ela o puxou para perto, os olhos marejados. "Você sabe como ela é. Sempre me odiou, desde que éramos crianças. Ela sempre foi ciumenta de mim, da nossa amizade."

Rodolfo beijou a testa dela. "Eu sei, meu amor. Eu sei. Mas não se preocupe com ela. Ela vai aprender a me valorizar. A valorizar o que tem."

Valorizar o que eu tinha? Eu tinha um marido cego, uma rival dissimulada e uma vida que se desintegrava. Eu não tinha nada para valorizar.

Lembrei-me de como eu tentava explicar a Rodolfo que Maísa não era quem ele pensava. Eu o avisava, sutilmente a princípio, depois mais diretamente. Mas ele nunca ouvia. Ele via Maísa como a vítima eterna, a pobre amiga de infância que eu, a "forasteira", estava tentando afastar.

Eu nunca competi com Maísa pelo amor dele. Eu competi com a ideia dele de Maísa. E com a versão que ela construiu de mim em sua mente. Eu estava exausta. Exausta de lutar por um amor que não era reciproco, por uma verdade que ele se recusava a ver.

Mesmo antes de ser trancada no cofre, eu já estava planejando minha saída. Eu estava juntando meus documentos, contatando um advogado. Eu queria o divórcio. Eu queria minha liberdade. Mas ele me roubou até isso.

Rodolfo voltou para o escritório, seus pensamentos visivelmente atormentados. Ele parou diante da janela, olhando para o vasto jardim, mas sem realmente ver. Ele pegou o telefone.

"Jaime," ele disse, a voz tensa. "Alguma notícia da Liliana? Ela está se comunicando?"

"Não, senhor," Jaime respondeu, a voz distante. "Os guardas disseram que está tudo em silêncio por lá. Nenhuma resposta."

Rodolfo respirou fundo. "Tudo bem. Eu estou indo até lá. Diga aos guardas para abrirem o cofre. E prepare um médico para ir conosco. Preciso ter certeza de que ela está bem."

Um nó de esperança, tão ridículo quanto inútil, se formou em minha alma. Um lampejo de humanidade? Um vislumbre de preocupação?

Maísa surgiu no corredor, seus olhos brilhando com uma satisfação disfarçada. Ela sabia que ele iria. Ela sabia o que ele encontraria.

Rodolfo desligou o telefone. "Eu vou até lá, Maísa. Não se preocupe. Talvez ela esteja apenas... dormindo."

Ele se virou para sair. Maísa hesitou por um momento, então soltou um gemido.

"Ai, Rodolfo... minha cabeça... de repente me sinto tonta."

Ela cambaleou, as mãos no peito, os olhos revirando. Rodolfo correu até ela, a expressão ansiosa.

"Maísa! O que houve? Você está bem?"

Ele a segurou antes que ela caísse, o rosto pálido de preocupação.

"Eu... eu não sei," ela sussurrou, os olhos fixos nele. "Acho que a emoção de ontem... e o frio... me sinto tão fraca."

Rodolfo a pegou nos braços, ignorando completamente o cofre, o médico, e, é claro, a mim.

"Não se preocupe, meu amor. Eu vou te levar para a cama. Você precisa descansar."

Ele a levou de volta para o quarto, com todo o cuidado e ternura que ele nunca me dedicou. Passou a manhã e a tarde ao lado dela, ignorando as chamadas de Jaime, os relatórios dos guardas. Eu era, mais uma vez, uma inconveniência esquecida.

Minha alma, em vez de raiva, sentiu uma estranha serenidade. Ele não merecia minhas lágrimas. Ele não merecia minha raiva. Ele merecia a verdade.

E a verdade, eu sabia, o encontraria.

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