ALICE - A DESCOBERTA

NARRAÇÃO JANAÍNA

Meu corpo está quente demais. Abro meus olhos e estou de cara com um rosto muito familiar, que vem tentando ganhar meu coração. Renato está dormindo feito um bebê. Me assusto com seu ronco alto e esse bebê tem um grave problema nas vias respiratórias. Será que ele sempre ronca assim? Isso pode ser um problema para nós. Tenho sono leve e qualquer coisa me incomodaria. Aposto que ainda é de madrugada e acordei por causa do calor do corpo dele e seu ronco alto. Tento me afastar de seus braços e pernas que estão em torno de mim, para olhar o despertador atrás de mim, mas não consigo. Cada tentativa minha de fugir de seu aperto, é um puxão dolorido que ele me dá.

- Não foge Mamute!

Resmunga ainda dormindo e acho engraçado me chamar assim. Subo minha mão entre o pequeno espaço entre nossos corpos e tento acordá-lo.

- Renato!

Toco seu rosto de leve e ele quase me engole em uma sugada de nariz, que segue com um ronco. Meu Deus! Ele não é nada sexy dormindo. Prefiro olhá-lo acordado que dormindo.

- Acorda meu donzelo!

Digo rindo e vejo um olho dele se abrir.

- Me chamou de donzelo?

Pergunta com cara de sono ao abrir o outro olho.

- Sim! Nessa relação estranha, você é o mocinho em perigo, o donzelo. Eu sou o mamute ou dragão que pode te ferir.

Dá um sorriso fofo e avança com os lábios roncadores para os meus, me roubando um beijo.

- Você é igual o dragão do filme Shrek.

Sussurra em minha boca e belisco sua barriga.

- Ai! Isso doeu.

Empurra meu corpo e deita em cima de mim, sem colocar muito pressão sobre mim. A verdade é que tem uma certa parte acordada dele, com uma bela pressão em uma certa parte minha que está adorando.

- Você disse que era meu mamute ou dragão. Por que me bateu?

- Eu falar é uma coisa. Você dizer é outra bem diferente.

- Seu donzelo em perigo exige que seja menos grosseira. Mereço beijos e um pouco de carinho.

Empurra o quadril para o meu sexo, fazendo ainda mais pressão com seu membro.

- Dragões são bravos e comem cabeças.

- Não me importo que engula uma certa cabeça minha.

Fala safado e sua boca logo está em meu pescoço, beijando e chupando minha pele que queima. Viro minha cabeça para o lado, lhe dando mais acesso e meus olhos focam no despertador.

- Merda!

O empurro de cima de mim e Renato vai para o chão.

- Estamos atrasadas!

************

NARRAÇÃO RENATO

Meu mamute/dragão passa por cima de mim, quase pisando em minhas bolas. Ela realmente não possui qualquer delicadeza ou sutileza e amo isso nela.

- Alice vai perder a escola. Temos cinco minutos para sair de casa.

Corre para todo lado e para lado nenhum ao mesmo tempo, enquanto me levanto do chão. Vai para a porta e a abre.

- Nós vamos perder a hora. Acorda a Alice pra mim enquanto me troco.

Fala quase gritando e entra no banheiro. Se Alice não acordou com essa correria e gritaria da Janaína, deve estar em coma. Vou para o quarto da minha pequena e não encontro Alice em lugar nenhum. Vou para a porta do banheiro.

- Alice não está no quarto dela.

- Embaixo da cama!

- Não está!

- Vê se está comendo na cozinha.

Ando em direção a cozinha e tudo está silencioso demais. A pintinha está aprontando. Entro na cozinha e escuto sussurros, mas não identifico de onde vem. Vou andando e fica mais perto a voz dela. Paro em frente a porta do armário.

- Paolaaaa eles estão perto. Muito perto! Se eu sumir é porque o Batman foi pego.

Quem é Paola? Por que está dentro do armário?

- Coco mole te ajuda a ganhar amor. Lembra disso Paola.

Coco mole? O que essa menina está inventando agora? Abro a porta do armário e vejo um pequeno serzinho descabelado, segurando o celular da Janaína.

- Alice, o que faz no armário?

- Adeus Paola!

Diz com voz de quem vai morrer e me seguro para não rir. Ela tem um olho em mim, outro no celular e aperta o botão.

- Adeus Batman!

É a voz de um homem. Parece muito com a voz do meu irmão Diego.

- Com quem estava falando?

Tento pegar o telefone, mas ela é rápida e o enfia embaixo do bracinho.

- Com meu amigo!

- Sua mãedinda sabe que fala escondida com ele no celular dela?

Seus olhinhos viram olhos enormes.

- Imagino que saiba, já que as mensagens ficam salvas. Deve ouvir tudo isso depois.

Digo para apavorá-la ainda mais. Não pode conversar com estranhos escondida assim.

- Ela escuta minhas conversas? Que coisa feia.

Não acredito que vai tentar mudar o problema todo pra cima da Janaína. Vai se sair de vitima. Essa garotinha tem que ser estudada.

- Tem como apagar as mensagens?

- Por que quer apagar?

Pergunto desconfiado. Alice talvez esteja em perigo falando com esse estranho ou até mesmo expondo o que não deve.

- Por que é algo meu e do Paola.

- Tem coisa ai, Dona Alice!

- Se me ensinar a apagar, te ensino a fazer a mãedinda ficar fofa e fazer o que você quiser.

Opa! Isso me interessa e muito. Amolecer mais o coração do meu lindo dragãozinho seria perfeito. Mas em primeiro lugar a segurança da pintinha.

- Antes de te ensinar, preciso ouvir o que diziam.

- Se ouvir, perde a chance de ter a mãedinda te amando e cuidando de você.

- Isso é chantagem!

- Isso é ser inteligente, tio Renato! E essa coisa de chalanchale não existe.

Deus! Como eu amo essa garota.

- Chantagem! Existe sim e você faz muito.

- Temos um acordo?

Respiro bem fundo e tenho um plano. Vou reenviar as mensagens pra mim, antes de apagar. Assim poderei saber o que conversava com o Paola que ela tanto fala.

- Certo!

Pego o celular e antes que perceba, seleciono tudo e mando pra mim. Mostro as mensagens ainda selecionadas e mostro o botão de apagar. Alice está atenta aprendendo. Depois que ouvir as mensagens e se achar algo estranho, vou avisar Janaína sobre essas conversas escondidas. Se esse Paola estiver fazendo algo de ruim a Alice, vou no inferno atrás dele se preciso for.

- Só me prometa que não vai fazer besteira com esse amigo.

Peço finalizando tudo no celular.

- Ele é chato e me mandou assistir documentário. A única coisa que pode acontecer sendo amiga dele é perder a visão vendo coisa chata na televisão. Ele não assiste novela como a gente.

- Agora me diz o que devo fazer com a mãedinda.

- Ainda está de pijama? Perdemos o dia de aula.

Janaína entra na cozinha brava e atrás de mim. Antes de me virar, vejo uma Alice arteira se transformar em uma Alice murcha e sofredora. Caramba! Ela aprendeu direitinho nas novelas.

- Mãedinda!

Fala manhosa e abaixa a cabeça. Praticamente se rasteja até Janaína e estou impressionado com sua atuação. Quero bater palmas e gritar bravo, mas espero para ver até onde vai esse show.

- Acho que não estou bem.

Leva a mão a testa, como a Soraia Azevedo faz, quando vai desmaiar.

- O que você sente meu amor?

Janaína abaixa e segura seu rostinho que parece despencar de novo.

- Eu não sei!

Isso foi voz de choro? Ando para ver se ela consegue fingir lágrimas também. Caramba! Ela consegue. Olho mais perto e seus olhos estão lacrimejando. Uma belíssima atuação.

- Vem comigo! Vamos para o seu quarto.

Janaína pega Alice no colo e segue para o quarto dela. Não posso perder nenhuma cena desse teatro que Alice montou. Será que é assim que ganho amor dela? Minha dragão coração mole coloca a artista mirim na cama e a cobre. Alisa seu rosto e parece muito preocupada. Alice suspira cansada e ando para o outro lado da cama com ela. Sento ao seu lado e tento fazer cara de doente junto.

- Que cara é essa, Renato?

- Não estou me sentindo bem, também.

Suspiro como Alice e puxo a coberta pra mim, ficando igual a pintinha doente de mentira.

- Não estava assim quando acordou!

- Estava estranho e agora piorou.

Tento forçar lágrimas nos olhos, mas não consigo. Como Alice consegue tão rápido?

- Será que foi a pizza de ontem?

- Pode ser...

Respondo junto com Alice.

- Vou pegar minhas coisas para examinar vocês.

Janaína sai da cama e do quarto.

- Tio Renato, não estraga meu momento.

Tenta me empurrar com sua bundinha da cama, mas não consegue.

- Você disse que me ensinaria a ganhar mais amor da sua mãedinda. Estou vendo se funciona, junto com você.

- Faz outro dia, hoje é minha vez de ganhar amor e não ir pra escola.

- Você já perdeu a hora. Vai ficar em casa e tenho que ficar também. Se estiver doente, Janaína não me manda embora.

- Não me atrapalha.

- E se não der certo essa cena de doença?

- Ai a gente vai para o dejeto.

- O que?

- Dejeto! Não acredito que não sabe o que é isso, tio Renato! Se fosse amigo do Paola aprenderia sobre dejetos.

Quero rir alto, mas me controlo, já que Janaína pode voltar a qualquer momento.

- Se não der certo a carinha, vamos para a operação dejeto. Vamos fazer coco pra mãedinda.

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