A chuva caía incessante nas ruas de Berlim, lavando os paralelepípedos com um ritmo constante e melancólico. A cidade, coberta por uma neblina espessa, parecia uma pintura borrada, onde as luzes dos carros e postes refletiam no asfalto molhado. Maya Almeida, envolta em um casaco escuro, caminhava com passos firmes, ignorando o frio que penetrava sua pele. Seu destino era o escritório de advocacia mais renomado da cidade: Thorne & Associados.
Ela odiava aquele lugar, mas o trabalho precisava ser feito. A fusão entre sua empresa e a de Gabriel Thorne era inevitável. Não era questão de escolha, e sim de sobrevivência no mercado. Ainda assim, a ideia de ter que encarar aquele homem novamente a deixava inquieta.
Gabriel Thorne... O simples pensamento de seu nome fazia seu estômago revirar. Ele era arrogante, frio e meticuloso. Já haviam se enfrentado inúmeras vezes em reuniões, cada uma mais tensa que a outra. O jeito condescendente com que ele a olhava, como se sempre estivesse um passo à frente, a fazia querer enganá-lo. Como alguém podia ser tão insuportável e, ao mesmo tempo, tão magnético?, pensava ela, enquanto apertava o passo para evitar se molhar ainda mais.
O prédio moderno onde a empresa dele estava localizada tinha janelas amplas que refletiam a escuridão do céu. Maya parou em frente à entrada, respirou fundo e entrou. Não era hora de hesitar. O som de seus sapatos ecoava no mármore do hall enquanto ela caminhava em direção ao elevador, tentando se preparar mentalmente para o encontro que teria.
Ao sair do escritório, foi recebida pela recepcionista, que indicou a sala de reuniões. Maya entrou, sentindo o peso da tensão no ar. Gabriel já estava lá, sentado à cabeceira da longa mesa de vidro, com uma expressão que beirava a indiferença. Ele vestia um terno impecável, e seu cabelo estava perfeitamente penteado, como sempre. Seus olhos azuis rapidamente encontraram os de Maya, e ela viu aquele brilho calculista que tanto a irritava.
- Srta. Almeida - ele disse, a voz grave e suave como seda, mas com um tom que sempre parecia esconder algo mais. - Que bom que conseguiu chegar com a tempestade lá fora.
Maya se esforçou para manter o rosto neutro, apesar da irritação crescente.
- Sr. Thorne, não vamos perder tempo, certo? Tenho outras reuniões hoje. - Ela se sentou à mesa, mantendo a distância entre eles.
Gabriel inclinou-se levemente para frente, seus olhos nunca deixando os dela.
- Claro, não vamos perder tempo. Afinal, quanto mais rápido resolvermos isso, mais rápido podemos seguir com nossas prioridades.
A insinuação implícita fez o sangue de Maya ferver. Ela sabia que ele adorava essas pequenas provocações, mas não lhe daria o prazer de uma reação. Mantém a calma, Maya, disse a si mesma. Eles trocaram olhares por um instante, e o silêncio entre eles tornou-se palpável, pesado, como se ambos esperassem pelo movimento do outro.
O encontro seguiu conforme esperado - formal, com frases curtas e diretas. No entanto, o ambiente entre eles parecia carregado de algo mais, algo que ia além da rivalidade profissional. As trocas de palavras afiadas eram apenas a superfície de um conflito muito mais profundo.
Após mais de uma hora, a reunião finalmente terminou, e Maya levantou-se, pronta para sair o mais rápido possível daquele espaço. Mas, ao virar-se para a porta, a voz de Gabriel a deteve.
- Almeida, você realmente acha que tudo se resume ao que está no papel? - Sua voz tinha uma qualidade mais sombria agora.
Maya virou-se lentamente, enfrentando-o com olhos desafiadores.
- E o que mais haveria além disso, Thorne?
Gabriel se levantou, caminhando até a janela e olhando para a cidade que se estendia abaixo.
- Eu apenas espero que você esteja preparada para o que está por vir. Nem tudo é tão simples quanto parece.
Maya o observou por um momento, sem saber se aquilo era uma ameaça ou algum tipo de aviso. Mas, conhecendo Gabriel talvez fossem os dois. Sem dizer mais nada, ela saiu, sentindo o coração bater mais rápido do que gostaria. Havia algo estranho naquele encontro, algo que a incomodava de um jeito que ela não sabia explicar.
Quando as portas do elevador se fecharam atrás dela, Maya sabia que aquele era apenas o começo de uma batalha que iria muito além dos documentos que eles assinaram. E talvez, só talvez, Gabriel Thorne fosse mais perigoso do que ela estava preparada para enfrentar.





