Adeus, Pedro: Minha Vida, Meu Filho

Naquela tarde, o sol de Lisboa estava forte, mas o meu coração parecia estar num inverno gelado.

Recebi uma mensagem de texto do meu marido, Pedro.

"Marta, a Ana teve um acidente de carro. Estou a caminho do hospital. Não me esperes para jantar."

Fiquei ali parada, a olhar para a mensagem, o meu cérebro demorou um pouco a processar.

A Ana, a sua ex-namorada.

A minha mão apertou o telemóvel com força. Eu tinha acabado de fazer um teste de gravidez. Positivo.

Queria partilhar a boa notícia com ele, mas agora, esta notícia parecia uma piada cruel.

Liguei-lhe. A chamada foi para o voicemail.

Liguei outra vez. O mesmo.

À terceira tentativa, ele atendeu, a sua voz cheia de impaciência e preocupação, mas nenhuma delas era para mim.

"O que foi? Não te disse que estou ocupado? A Ana está em cirurgia, é grave!"

A sua voz era áspera, como se eu fosse um incómodo.

"Pedro, eu..."

Antes que eu pudesse dizer que estava grávida, a voz de uma enfermeira soou do outro lado da linha, alta e clara.

"Sr. Almeida, a paciente precisa de uma transfusão de sangue, mas o nosso banco de sangue do tipo dela está em baixo. O senhor é o único familiar aqui, pode doar?"

Ouvi o Pedro responder sem hesitar.

"Claro, usem o meu. Usem o sangue que for preciso."

"Pedro, não podes!" Gritei para o telefone, o meu pânico a subir. "O teu pai, a doença cardíaca dele... o médico disse que a vossa família não pode doar sangue!"

O pai dele tinha uma condição cardíaca hereditária rara. O médico tinha sido muito claro connosco: nem ele nem o Pedro deviam doar sangue, pois poderia desencadear um evento cardíaco súbito e fatal.

Ele sabia disto. Eu sabia disto.

Houve um silêncio pesado do outro lado. Depois, a sua voz voltou, fria como gelo.

"Marta, a vida da Ana está em jogo. Isto não é sobre o meu pai. É sobre ela."

"E a tua vida?" A minha voz tremia. "E a nossa família? E o nosso futuro?"

"Não temos futuro se eu deixar a Ana morrer. Cala-te e não me voltes a ligar."

Ele desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, incrédula. O ecrã escuro refletia o meu rosto pálido.

Ele escolheu-a. Ele escolheu arriscar a sua própria vida por ela, ignorando o aviso do médico, ignorando-me a mim, a sua esposa.

Senti um aperto no peito, uma dor surda que se espalhou por todo o meu corpo.

O teste de gravidez na minha outra mão parecia agora um pedaço de lixo.

O nosso bebé. O bebé dele.

Ele nem sequer me deu a oportunidade de lhe contar.

Naquele momento, percebi que o nosso casamento era uma farsa. Eu era apenas uma substituta, um lugar quente até que a sua verdadeira amada precisasse dele.

As lágrimas que eu estava a segurar começaram a cair, quentes e silenciosas.

Não por ele. Mas pelo meu bebé, que nunca conheceria o pai que estava disposto a morrer por outra mulher.

E por mim, por ter sido tão tola.

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