Adeus, Meu Pedro

O meu carro parou de repente na autoestrada.

Fumo branco saía do capô.

Eu estava a caminho do hospital, a minha bolsa de água tinha acabado de romper.

Liguei para o meu marido, Pedro, mas a chamada foi direta para o correio de voz.

Liguei para a minha sogra, Laura, e ela atendeu rapidamente, a sua voz cheia de preocupação.

"Catarina? O que se passa, querida? Já estás no hospital?"

"Mãe, o carro avariou na A5, a caminho de Cascais. A bolsa rompeu. Não consigo contactar o Pedro."

A voz dela ficou tensa.

"Não te preocupes, vou já para aí. Vou tentar ligar ao Pedro. Mantém a calma, respira fundo."

Desliguei e tentei ligar ao Pedro mais dez vezes.

Todas as chamadas foram para o correio de voz.

O pânico começou a instalar-se. As contrações estavam a ficar mais fortes.

Olhei para o trânsito que passava. Ninguém parava. Eu estava sozinha.

Finalmente, a minha sogra ligou de volta.

"Catarina, não consigo falar com o Pedro. O telemóvel dele deve estar sem bateria. A Sofia ligou-me há pouco, em pânico."

Sofia. A prima do Pedro. A sua melhor amiga.

"Ela estava a fazer surf na Praia do Guincho e a prancha partiu-se. Bateu com a cabeça numa rocha. O Pedro foi para lá, ele era o mais próximo."

A minha respiração ficou presa na garganta. Guincho ficava na direção oposta.

"Ele está com ela agora no hospital. Parece que ela engoliu muita água e está com uma pequena concussão. Não é nada de grave, mas ela estava muito assustada."

Uma pequena concussão.

Eu estava a entrar em trabalho de parto, sozinha, no meio de uma autoestrada.

"Mãe, eu preciso dele aqui." A minha voz tremeu.

"Eu sei, querida, eu sei. Já chamei uma ambulância para ti. Eles estão a caminho. Eu encontro-te no hospital."

Laura parecia genuinamente preocupada comigo, mas as suas palavras seguintes fizeram o meu mundo desabar.

"Sê compreensiva com o Pedro. A Sofia não tem mais ninguém. Tu sabes como a vida dela tem sido difícil desde que os pais faleceram. Ela só tem a nós."

Compreensiva?

A vida dela era difícil? E a minha?

Eu estava a carregar o neto dela, o filho dele.

A ambulância chegou. Os paramédicos foram rápidos e profissionais.

No caminho para o hospital, o meu telemóvel vibrou.

Era uma mensagem do Pedro.

"Desculpa, o meu telemóvel morreu. Estou com a Sofia no hospital. Ela magoou-se a fazer surf. Não te preocupes, fico aqui com ela até ela ter alta. A minha mãe já me disse que chamou uma ambulância para ti. Vemo-nos mais tarde. Força."

"Vemo-nos mais tarde."

Ele nem sequer perguntou como eu estava.

Ele nem sequer mencionou o nosso filho.

As lágrimas que eu tinha estado a segurar finalmente caíram.

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