Adeus, Meu Filho

Uma porta se abriu no final do corredor e um médico de aparência cansada caminhou em sua direção. O coração de Ricardo parou. Cada passo do homem parecia levar uma eternidade.

"Senhor Ricardo?", o médico disse com uma voz suave, mas firme. "Fizemos tudo o que podíamos. A hemorragia interna era muito severa. Eu sinto muito. Nós perdemos o Felipe."

As palavras não fizeram sentido a princípio. Eram apenas sons. Perderam. Perderam como se perde uma chave, ou um jogo. Mas então o significado o atingiu, com a força de um soco no estômago. Felipe. Seu filho. Seu menino brilhante e dedicado. Tinha ido embora.

As pernas de Ricardo cederam. Ele não caiu, mas se apoiou na parede, o corpo inteiro tremendo incontrolavelmente. Um som baixo e gutural escapou de seus lábios, um som de pura dor animal. O mundo ao seu redor se tornou um borrão, as luzes do hospital se transformando em manchas brilhantes. Ele sentiu uma onda de náusea e se curvou, vomitando o pouco que tinha comido no chão frio do hospital.

Ele não sabe quanto tempo ficou ali, esvaziado, tremendo, até que uma enfermeira o ajudou a se sentar em uma cadeira. Ele voltou para casa no automático, dirigindo o carro velho da família por ruas que de repente pareciam estranhas e hostis.

Ao entrar na casa humilde, o silêncio o engoliu. Era um silêncio que gritava a ausência de Felipe. O cheiro do café que Felipe tinha feito de manhã ainda estava no ar. Seus livros da faculdade estavam empilhados na mesa da cozinha. Tudo estava como ele havia deixado.

O celular de Ricardo vibrou no bolso. Ele o pegou, pensando que poderia ser Sofia, finalmente. Mas era uma notificação de mensagem. Uma foto.

Ele abriu.

A imagem o cegou. Sofia estava no centro da foto, sorrindo de orelha a orelha. Ao seu lado, um homem mais novo, Marcos, seu ex-namorado, a abraçava pela cintura. Na frente deles, um garoto adolescente, Lucas, segurava um troféu dourado enorme. Todos pareciam extasiados, banhados por uma luz de celebração. Abaixo da foto, uma legenda: "Lucas é campeão! Noite inesquecível! Muito orgulho do nosso menino!".

Nosso menino.

Ricardo olhou para a foto, para o sorriso radiante de Sofia, para o luxo discreto do restaurante ao fundo, para a felicidade que parecia explodir da tela. E então ele olhou ao redor de sua pequena e escura sala de estar. Para os móveis gastos. Para as paredes que precisavam de pintura. Para os sapatos de trabalho de Felipe, surrados e sujos, ao lado da porta.

Foi aí que ele quebrou.

Um grito rasgou sua garganta, um som de pura agonia e traição. Ele atirou o celular contra a parede, a tela se estilhaçando em mil pedaços. Ele caiu de joelhos, o peito doendo como se estivesse sendo rasgado por dentro. As lágrimas que ele não conseguiu chorar no hospital vieram em uma torrente, queimando seu rosto. Ele socou o chão, a dor física uma distração bem-vinda da dor que consumia sua alma.

Seu celular, quebrado no chão, começou a tocar. De alguma forma, o aparelho ainda funcionava. Era Sofia. Em um gesto automático, movido por vinte anos de casamento, ele atendeu, o dedo deslizando sobre a tela quebrada.

A voz dela veio, um pouco arrastada pela bebida, mas ainda eufórica.

"Ricardo? Oi, querido. Desculpa a demora, a comemoração foi uma loucura! Você não vai acreditar, o olheiro de um time grande estava lá! O futuro do Lucas está garantido!"

Ricardo não disse nada. Ele apenas ouviu, o coração se transformando em uma pedra de gelo.

Ele ouviu Sofia rir e dizer algo para alguém ao lado dela, provavelmente Marcos. A voz dela ficou abafada, como se ela tivesse coberto o bocal do telefone com a mão, mas Ricardo ainda conseguiu ouvir.

"Não se preocupe, amor. O Ricardo não suspeita de nada. Ele e o Felipe continuam achando que a gente vive com o salário mínimo. Mal sabem eles que o dinheiro que eles ralam pra ganhar mal paga a mensalidade da academia do Lucas."

A risada dela, cúmplice e cruel, foi a última coisa que ele ouziu antes que a chamada caísse.

Ricardo ficou ajoelhado no chão da sala escura, o som daquela risada ecoando no silêncio mortal de sua casa vazia. A dor pela morte de Felipe ainda estava lá, uma ferida aberta e sangrando. Mas agora, uma nova dor, mais sombria e mais profunda, se juntou a ela. A dor da traição. A dor de saber que o sacrifício de seu filho, a vida de seu filho, tinha sido usada para financiar a mentira de sua esposa.

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