Adeus, Leo: Minha Vida Começa Agora

Quando recebi a chamada do hospital, estava a ajudar a minha sogra, Sofia, a regar as suas orquídeas premiadas.

"Senhora Eva Costa? O seu pai, o senhor Miguel Costa, sofreu um ataque cardíaco. Está em estado crítico na UCI."

A minha mão tremeu, o regador caiu e partiu-se no chão de mármore polido.

A água espalhou-se, molhando a bainha do vestido caro de Sofia.

Ela franziu o sobrolho, o seu rosto normalmente calmo mostrava um claro descontentamento.

"Eva, o que se passa contigo? Olha para a confusão que fizeste."

Tentei explicar, a minha voz a sair com dificuldade, "Mãe, o meu pai... ele está no hospital."

"Ah, o teu pai," ela disse, com um tom desdenhoso. "Ele não tem seguro de saúde, pois não? Espero que não estejas a pensar em usar o dinheiro da nossa família para o tratar."

O meu marido, Leo, desceu as escadas nesse momento, o seu cabelo perfeitamente penteado e o seu fato caro impecavelmente passado.

"O que se passa? Ouvi um barulho."

Corri para ele, agarrando-lhe o braço como se fosse a minha única tábua de salvação. "Leo, o meu pai teve um ataque cardíaco. Precisamos de ir para o hospital. Agora."

Leo olhou para a mãe, depois para mim, e suspirou.

"Eva, acalma-te. Sabes que dia é hoje? É o aniversário de casamento dos meus pais. Temos uma grande festa planeada esta noite."

Ele continuou, a sua voz baixa e razoável, como se estivesse a falar com uma criança. "Além disso, a Clara está a chegar do estrangeiro. Ela vem especialmente para a festa. Não podemos simplesmente cancelar tudo."

Clara. A sua ex-namorada. A mulher que a mãe dele sempre quis como nora.

O meu coração sentiu-se pesado. "Leo, o meu pai está a morrer."

"Não sejas dramática," ele disse, afastando a minha mão do seu braço. "Vou transferir algum dinheiro para ti. Pega num táxi e vai ao hospital. Vê como ele está e depois vem para a festa. Não te atrases."

Ele nem sequer olhou para mim quando disse isto, já estava a pegar no telemóvel para fazer a transferência.

Fiquei ali, paralisada, a ver o meu marido e a minha sogra a discutirem os arranjos de flores para a festa como se nada tivesse acontecido.

O dinheiro apareceu na minha conta. 500 euros.

O suficiente para um táxi e talvez para as despesas iniciais.

Mas não era do dinheiro que eu precisava. Era dele. Do meu marido.

Olhei para o telemóvel dele. A foto de perfil do WhatsApp dele era uma selfie que tirámos nas nossas férias em Santorini, eu a sorrir para a câmara, ele a beijar-me a bochecha.

Uma mentira feliz.

Senti um gosto amargo na boca.

Leo e a mãe dele já tinham saído da sala, as suas vozes a desaparecerem pelo corredor, a discutirem a cor das toalhas de mesa.

Fiquei sozinha com as orquídeas e o chão molhado.

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