Ponto de Vista: Charlotte Ferraz
A luz da manhã, fina e pálida, infiltrava-se pelas persianas. Meu celular estava na mesa de cabeceira, um retângulo preto e silencioso. Peguei-o, não por hábito, mas por uma vaga necessidade de verificar as horas. Meu polegar roçou o ícone de um aplicativo de rede social. Uma pequena bolha de notificação vermelha pulsava. Eva. Claro.
Toquei para abrir. A última postagem da Eva: um carrossel de fotos. Eva, rindo, abraçada ao Damião na mesma abertura de galeria que eu tinha ido. Uma foto a mostrava se inclinando para ele, a cabeça em seu ombro, a mão dele casualmente pousada em sua cintura. Uma foto espontânea, aparentemente. Ou perfeitamente encenada. Não importa. Em outra, eles brindavam com taças de champanhe, seus sorrisos espelhando um ao outro. A legenda dizia: "Uma noite tão mágica com meu amigo mais antigo e querido! Que bom que você me arrastou para fora, D!"
Passei direto, um suspiro escapando dos meus lábios. Não um suspiro de dor ou ciúme, mas de um cansaço profundo. Era tudo tão previsível, tão absolutamente desgastante. A mesma velha história, apenas um filtro diferente. Joguei o celular na cama e me levantei. Hora de trabalhar. Hora de focar nas coisas que realmente importavam.
Meu escritório na Sterling & Finch era um santuário. O zumbido dos computadores, o cheiro nítido de papel, a energia focada dos meus colegas — era tudo limpo, com propósito, um contraste gritante com a bagunça emocional que me esperava em casa. Mergulhei em relatórios de análise de mercado, apresentações para clientes, tudo que exigia intelecto e estratégia, não deixando espaço para a desordem emocional.
Mais tarde naquela tarde, um ping no meu sistema de mensagens interno. Meu chefe, Sr. Harrison. "Charlotte, pode vir à minha sala, por favor?"
Meu estômago deu uma pequena reviravolta, um reflexo de anos de ansiedade de desempenho. Mas desta vez, foi diferente. Senti uma confiança tranquila. Eu vinha entregando resultados.
"Entre, Charlotte." O Sr. Harrison gesticulou para a cadeira em frente à sua grande mesa de mogno. Ele parecia satisfeito, uma expressão rara. "Acabei de falar com o escritório de Londres. Eles ainda estão muito interessados em você."
Um calor familiar se espalhou por mim, rapidamente seguido por uma dor surda. Londres. Três anos atrás, eu recusei aquela promoção, aquela transferência internacional, pelo Damião. Ele tinha sido insistente. "São Paulo é a nossa casa, Charlotte. E quanto a mim? Você simplesmente iria embora?" Ele me fez sentir egoísta, sem amor, por sequer considerar. Então eu fiquei. Por ele.
"Ah?" consegui dizer, minha voz cuidadosamente neutra. "Isso é... surpreendente. Pensei que essa oportunidade já tinha passado."
O Sr. Harrison recostou-se, um leve sorriso brincando em seus lábios. "Bem, seu histórico fala por si. Sua reestruturação das campanhas de mídia social aumentou o engajamento em 30% apenas no segundo trimestre. Londres notou. Eles estão pressionando mais desta vez. A oferta ainda está na mesa, com um pacote ainda melhor, e uma via rápida para Diretora Sênior de Marketing em um ano se você tiver um bom desempenho." Ele fez uma pausa, seu olhar suavizando. "Eu sei que você recusou antes, Charlotte. Por motivos pessoais, se bem me lembro. Há algo te prendendo agora?"
Olhei para ele, realmente olhei para ele. Ele estava me oferecendo tudo o que eu silenciosamente ansiava. Um novo começo. Um desafio. Uma chance de ser eu mesma, sem fardos. A dor surda no meu peito pareceu se dissolver, substituída por uma certeza tranquila.
"Não," eu disse, a palavra saindo mais forte do que eu esperava. "Nada está me prendendo agora. Na verdade... eu terminei com o Damião."
As sobrancelhas do Sr. Harrison se ergueram, mas ele rapidamente se recompôs. "Entendo. Bem, Charlotte, isso certamente é um grande passo. Mas profissionalmente, significa que você está livre para buscar esta oportunidade incrível. Você vai aceitar?"
"Sim," eu disse, um sorriso genuíno finalmente aparecendo. "Sim, eu vou."
Os dias seguintes foram um borrão de papelada, briefings e telefonemas animados com a equipe de Londres. Meus colegas, ao saberem da notícia, ficaram emocionados por mim.
"Bebidas depois do trabalho hoje à noite, Charlotte?" Sarah, uma das minhas amigas mais próximas do trabalho, perguntou, inclinando-se no meu cubículo. "Uma despedida adequada. Podemos ir àquele bar novo no terraço que você gosta."
"Parece perfeito, Sarah," respondi, sentindo uma leveza que não experimentava há anos.
Enquanto arrumávamos nossas coisas, prontos para sair, uma comoção começou na área da recepção. Olhei para cima, e meu coração afundou com um baque surdo. Damião. Ele estava lá, segurando um buquê ridiculamente grande de rosas vermelhas, parecendo o dono do lugar. Ele me viu, seus olhos se iluminando.
"Charlotte!" ele chamou, sua voz ecoando muito alto pelo escritório. Ele passou pela recepcionista perplexa, com as rosas na frente.
Sarah trocou um olhar comigo, um brilho travesso em seus olhos. "Olha só quem apareceu," ela murmurou baixinho.
Ele me alcançou, seu olhar varrendo meus colegas, desafiando-os a comentar. "Eu trouxe isso para você." Ele me estendeu as rosas.
"Ah, Damião," disse Sarah, fingindo doçura. "Rosas vermelhas? Que... tradicional. Você não sabe que a Charlotte agora prefere peônias?" Ela me cutucou, um riso silencioso em seus olhos.
Peguei o buquê. O cheiro forte das rosas era enjoativo. "Obrigada," eu disse, minha voz neutra.
Damião ignorou Sarah. "Precisamos conversar, Charlotte. É urgente." Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente firme. "Vou te levar para almoçar."
"Calma aí, apressadinho," Léo interveio, dando um passo à frente. "A Charlotte já tem planos. Um jantar de despedida conosco, na verdade."
Damião o fuzilou com o olhar. "Isso é importante. Diz respeito a nós. Charlotte, vamos." Ele puxou suavemente, mas com insistência.
Eu mal registrei as rosas na minha mão. Ele estava apenas assumindo o controle, como sempre. "Tudo bem, Léo," eu disse, minha voz cansada. "Eu só... vou com o Damião. Vão na frente. Eu alcanço vocês mais tarde, talvez."
Léo olhou para mim, uma pergunta em seus olhos. Eu dei um pequeno, quase imperceptível, aceno de cabeça. Era mais fácil ir, para acabar logo com isso.
Damião sorriu para Léo, um sorriso triunfante e condescendente. "Não se preocupe, vou garantir que ela volte para o jantar. Vou até pagar uma rodada de bebidas para todos vocês hoje à noite, pelo inconveniente." Ele era todo charme agora, o banqueiro quintessencial suavizando uma pequena perturbação.
Deixei as rosas na mesa da Sarah. "Aproveite," murmurei.
Damião não notou. Ele já estava me puxando em direção ao elevador. Enquanto as portas se fechavam, eu podia sentir seu olhar em mim.
"Você não gosta das rosas, não é?" ele perguntou, um toque de acusação em sua voz.
Olhei para ele. Minha mente ainda estava repassando uma reunião difícil com um cliente. "Hm? Ah. Não, elas estão ótimas." Eu não estava realmente prestando atenção.
"Você disse que gostava de rosas vermelhas uma vez," ele persistiu, uma leve carranca no rosto.
"Na verdade, sou alérgica a elas, Damião," eu disse, uma dor surda no peito. "Lembra? Eu te disse isso, tipo, um ano atrás, quando a Eva me mandou um buquê delas depois daquele baile de caridade."
Seu rosto empalideceu um pouco. "Ah. Certo. Eu... devo ter esquecido. Me desculpe, Char. Vou lembrar da próxima vez, prometo."
Próxima vez. Não haveria uma próxima vez. As palavras pairavam no ar, não ouvidas por ele. Ele nunca se lembrava. Ele nunca me via de verdade. Ele via uma versão de mim que ele havia construído, um acessório conveniente para sua vida perfeita. Minha alergia a rosas vermelhas era apenas uma nota de rodapé em sua narrativa egocêntrica. Ele havia esquecido exatamente da mesma forma que havia esquecido inúmeros outros detalhes sobre mim, sobre nós. Minhas comidas favoritas, minhas ambições de carreira, meus medos mais profundos. Tudo apagado, ou ofuscado pelas necessidades mais urgentes e dramáticas da Eva. A percepção me atingiu, não com um estrondo, mas com a finalidade silenciosa de uma porta se fechando. Realmente não havia mais nada a ser salvo.
"Tudo bem, Damião," eu disse, minha voz neutra. As palavras eram uma dispensa, não uma absolvição.
Ele parou o carro, que freou suavemente. "Chegamos."
Olhei pela janela. Um pequeno aeródromo particular. Um jato particular elegante brilhando na pista. Nenhum restaurante. Nenhuma "conversa". Apenas... uma fuga?
"O que é isso?" perguntei, a confusão quebrando momentaneamente meu distanciamento.
Ele se virou para mim, um sorriso de menino se espalhando por seu rosto, uma visão rara. Era um olhar que eu não via há anos, um flash do homem charmoso que eu um dia pensei que ele era.
"Uma surpresa," ele disse, seus olhos brilhando. "Só nós dois. Sem celulares, sem trabalho, sem Eva. Apenas alguns dias em Paris. Para nos reconectarmos. Para lembrar por que nos apaixonamos." Ele pegou minha mão, seu aperto quente e familiar, mas estranho.
Uma pontada, aguda e inesperada, torceu minhas entranhas. Paris. A cidade do romance. Ele estava tentando. Tarde demais, com muito pouco. Mas ele estava tentando. Quase mencionei as fotos que a Eva postou de uma viagem anterior semanas atrás, fotos dela posando em frente à Torre Eiffel, com o braço do Damião visível no enquadramento de uma delas. Mas qual era o sentido?
Então, outro pensamento, como um banho de água fria. Esta foi a primeira vez em nossos três anos juntos que ele planejou uma viagem romântica, só para nós. A percepção foi gritante. Ele levou a Eva para Paris, para Londres, para inúmeros outros locais exóticos. Mas nunca eu. Não até agora, quando eu já estava com um pé fora da porta. Não era sobre nós. Era sobre ele perder algo. Algo que ele dava como garantido.
Uma parte de mim, a velha e esperançosa Charlotte, queria acreditar nele. Queria se agarrar a este esforço desesperado de última hora. Mas a nova Charlotte, a Charlotte indiferente, simplesmente viu uma oportunidade. Uma saída final e elegante. Isso não era um novo começo. Era um adeus gracioso. Eu o deixaria jogar seu jogo, deixaria ele tentar "consertar" o que estava irremediavelmente quebrado. E então, eu iria embora, deixando-o com suas ilusões.
"Minha bagagem?" perguntei, minha voz calma.
"Já está a bordo," ele disse, um brilho de orgulho em seus olhos. "Pedi para meu assistente cuidar disso. Tudo resolvido."
Dei a ele um pequeno aceno de cabeça, sem compromisso. Minha nova vida em Londres estava esperando. E graças à minha promoção, eu tinha muitos dias de férias para queimar antes de começar. Alguns dias em Paris, então. Por que não? Um cenário final e pitoresco para o fim de uma história longa e cansada.





