Abandonada no Asfalto Molhado

O som de metal a rasgar foi a última coisa que ouvi com clareza.

O nosso carro girou na estrada molhada, uma, duas vezes.

O meu corpo foi atirado contra o cinto de segurança, que se cravou no meu peito e na minha barriga de grávida.

Depois, o silêncio.

A minha visão estava turva, cheirava a queimado.

Virei a cabeça devagar. Miguel, o meu marido, estava ao meu lado, a mexer-se.

Ele não olhou para mim.

Não perguntou se eu estava bem.

Ele pegou no telemóvel dele, os dedos a tremer enquanto marcava um número.

A voz dele saiu num sussurro urgente.

"Sofia? Estás bem? Onde estás?"

Sofia. A melhor amiga dele.

Uma dor aguda, que não tinha nada a ver com o acidente, atravessou-me.

Eu estava presa no carro, a carregar o filho dele, e a primeira pessoa em quem ele pensou foi nela.

As sirenes começaram a ouvir-se ao longe.

Miguel continuava a falar ao telemóvel, a voz dele cheia de uma preocupação que ele não me mostrou.

"Fica onde estás, eu vou já ter contigo. Não, não te preocupes comigo. Eu estou bem."

Ele desligou e finalmente virou-se para mim.

Havia um corte na testa dele, mas os olhos estavam focados noutra coisa.

"Lara, preciso de sair. A Sofia viu tudo, ela está em choque."

"E eu?", a minha voz era um fio. "E o bebé?"

Ele hesitou por um segundo. Apenas um segundo.

"Os paramédicos estão a chegar. Vão cuidar de ti."

Ele tentou abrir a porta, mas estava encravada. Ele deu um murro no vidro, a frustração evidente.

Os socorristas chegaram, partiram o vidro e tiraram-no.

Eu vi-o a correr pela estrada, na direção oposta, sem olhar para trás.

Um paramédico inclinou-se sobre mim.

"Senhora, consegue ouvir-me? Como se sente?"

Senti uma humidade quente a escorrer pelas minhas pernas.

"O meu bebé...", sussurrei, antes de a escuridão me engolir.

Acordei numa cama de hospital. A primeira coisa que fiz foi levar a mão à minha barriga.

Estava mais pequena. Vazia.

Uma enfermeira entrou no quarto, o rosto dela era uma máscara de compaixão profissional.

"Lara, o seu marido está lá fora. E a mãe dele também."

Antes que eu pudesse responder, a porta abriu-se com força.

Era Helena, a minha sogra. O rosto dela estava vermelho de fúria.

Ela nem sequer olhou para o meu estado, para os tubos ligados ao meu braço.

A voz dela era um chicote.

"O que é que fizeste? Olha para o estado do meu filho! Sempre soube que eras um perigo ao volante!"

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