A Voz da Prova

Acordei num quarto de hospital branco e silencioso. A primeira coisa que senti foi o vazio. A minha barriga, antes redonda e pesada, estava agora mole e estranhamente leve.

Uma enfermeira de rosto gentil estava a ajustar o meu soro. Ela viu que eu estava acordada e deu-me um pequeno sorriso triste.

"Como se sente?"

Eu não respondi, apenas levei a mão ao meu ventre. O vazio ali era uma resposta mais alta do que qualquer palavra.

Ela entendeu. Os seus olhos encheram-se de compaixão.

"A senhora teve sorte. Os bombeiros chegaram mesmo a tempo. O stresse e a hipotermia induziram um parto prematuro."

Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado.

"Fizemos tudo o que podíamos, mas o bebé... o seu filho era demasiado pequeno. Lamento muito."

As lágrimas que eu não tinha chorado no carro começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Eu não soluçava, não gritava. Era apenas uma dor oca, um rio silencioso de perda.

O meu filho tinha-se ido. O nosso bebé, que tínhamos esperado durante dois anos.

A porta abriu-se e o Tiago entrou, seguido pela sua mãe, Isabel, e o seu padrasto, Rui, que também era o pai de Catarina.

Eles não pareciam preocupados. Pareciam irritados.

"Laura, que susto nos pregaste," disse a Isabel, sem se aproximar da cama.

O Tiago ficou ao pé da porta, os braços cruzados. Ele nem sequer olhava para mim.

"O que é que estavas a fazer na Baixa com uma tempestade daquelas? Foi uma imprudência," disse o Rui, a sua voz dura como pedra.

Eu olhei para eles, um por um. Três rostos, nenhuma simpatia.

"Onde está a Catarina?" perguntei, a minha voz rouca.

"Está em casa, a descansar," respondeu o Tiago, finalmente a olhar para mim, "Ficou muito abalada com tudo isto."

Abalada. Ela estava abalada. E eu? O que é que eu estava?

"O nosso filho morreu, Tiago."

As palavras saíram diretas, sem emoção.

O Tiago encolheu os ombros, um gesto pequeno e terrível.

"Foi uma fatalidade. Uma tragédia. Mas não podes culpar-me. Eu estava a cuidar da minha irmã."

Naquele momento, algo dentro de mim partiu-se e voltou a juntar-se de uma forma nova, dura e fria. O amor que eu sentia por ele, a esperança que eu tinha na nossa família, tudo se transformou em pó.

"Quero o divórcio," eu disse, a minha voz surpreendentemente firme.

O silêncio no quarto foi pesado.

O Rui riu-se, um som feio.

"Divórcio? Não sejas dramática, rapariga. Passaste por um trauma, não estás a pensar com clareza."

"Pelo contrário," eu disse, olhando diretamente para o Tiago, "Estou a pensar com mais clareza do que nunca."

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