A Vinicultora Rejeitada e o Rei do Luxo

A Sra. Gordon, a mãe de Benjamin, olhou para a minha pequena quinta no Douro com um desprezo que não se preocupou em esconder. Ela colocou um cheque na mesa de madeira rústica, empurrando-o na minha direção com a ponta de um dedo perfeitamente manicurado.

"Cinquenta mil euros. É o suficiente para que uma rapariga como tu viva confortavelmente durante muito tempo."

A sua voz era fria e cortante, como o vento de inverno que soprava pelo vale.

"Pega no dinheiro e desaparece da vida do meu filho. Ele vai casar com a Sofia, a herdeira dos estaleiros navais. Não há lugar para ti no mundo dele."

Olhei para o cheque. Cinquenta mil euros. Era mais dinheiro do que alguma vez tinha visto. Olhei para as minhas mãos, sujas de terra da vinha, e depois para o rosto impecável daquela mulher. Com uma calma que me surpreendeu a mim mesma, peguei no cheque.

"Aceito. Não pelo seu dinheiro, mas como uma compensação. Durante três anos, cuidei de um homem ferido e sem memória. Alimentei-o, vesti-o e dei-lhe um teto. Este dinheiro paga essa dívida. A partir de hoje, não vos devo nada."

A Sra. Gordon sorriu, satisfeita. "És mais inteligente do que pareces. Uma camponesa que sabe o seu lugar."

O seu desprezo era palpável, mas eu já não sentia a dor que esperava. Apenas um vazio gelado.

"Não se preocupe, Sra. Gordon. Eu não quero um homem que me oferece o lugar de amante. Prefiro a minha dignidade e a minha vinha."

Ela riu-se, um som agudo e desagradável. "Dignidade? Uma vinicultora a falar de dignidade. Que piada. O meu filho vai casar com a realeza dos negócios, não com a terra."

Nesse preciso momento, a porta abriu-se e Benjamin entrou. O seu rosto, que antes me olhava com um amor simples e puro, estava agora marcado por uma arrogância que eu mal reconhecia.

"Mãe? Juliette? O que se passa aqui?"

A Sra. Gordon rapidamente escondeu o seu desprezo. "Nada, querido. Estava apenas a despedir-me da Juliette. A dar-lhe os parabéns pelo teu noivado."

Benjamin não pareceu notar a tensão. Ele estava demasiado excitado, demasiado imerso no seu novo mundo de riqueza. Ele carregava várias caixas de veludo.

"Olha o que a família da Sofia me enviou como presente de noivado!" , exclamou ele, abrindo uma das caixas. Dentro, repousava uma garrafa de vinho do Porto de 1815, escura e poeirenta, com um rótulo que gritava história e fortuna. "Consegues imaginar? Um vinho do Porto de 1815! Dizem que vale uma fortuna. Vamos abri-lo no nosso casamento."

O meu coração parou. O ar fugiu dos meus pulmões. As palavras dele ecoaram na minha mente, sobrepondo-se a uma memória que eu tentava desesperadamente enterrar.

Eu tinha-o encontrado perto da minha vinha, inconsciente e a sangrar, ao lado de um carro de luxo destruído. Ele não se lembrava de nada, nem do seu nome. Eu chamei-lhe "Ben" . Durante três anos, ele foi o Ben. Um trabalhador rural simples que aprendeu a amar a terra tanto quanto eu. Apaixonámo-nos debaixo do sol do Douro, entre as vinhas que eram o meu legado.

Numa noite, sentados no alpendre, ele abriu uma garrafa de Porto vintage que a minha avó me tinha deixado. Não era um 1815, mas era o nosso tesouro.

"Juliette" , disse ele, com os olhos a brilhar de sinceridade. "Quando casarmos, vamos encontrar a garrafa de vinho mais rara e antiga do mundo e vamos abri-la para celebrar o nosso amor. Prometo."

A promessa dele era tão real como o sabor do vinho nos nossos lábios. Mas um dia, a sua memória voltou. Ele não era o Ben. Era Benjamin Gordon, herdeiro de um império. A sua família veio buscá-lo, e a confusão no seu rosto foi rapidamente substituída por uma frieza distante.

Ele levou-me para Lisboa, mas não como sua noiva. Instalou-me num anexo da enorme mansão da família, um lugar para uma convidada temporária, ou pior, uma empregada. A família dele olhava-me com desdém. Os empregados sussurravam quando eu passava. O homem que eu amava, o meu Ben, desapareceu, e no seu lugar estava este estranho, Benjamin.

Foi ele que me deu a notícia. O seu noivado com Sofia, um acordo de negócios para fortalecer o império Gordon.

"Mas e nós?" , perguntei, com a voz a tremer.

Ele olhou para mim, sem emoção. "Podes ficar. Podes ser minha amante. Eu cuidarei de ti."

Aquelas palavras destruíram a última réstia de esperança que eu tinha. Recusei. A humilhação era demasiado grande. Aceitei a minha derrota.

Agora, de pé na minha pequena cozinha, vendo-o exibir a mesma promessa que me tinha feito, mas destinada a outra mulher, a dor transformou-se em resolução. Dobrei o cheque e guardei-o no bolso.

"Parabéns pelo noivado, Benjamin" , disse eu, com a voz firme.

Ele pareceu surpreendido com a minha calma. "Obrigado, Juliette. Fico feliz que entendas."

Saí da cozinha, deixando-os com os seus tesouros. Do lado de fora, ouvi os comentários dos empregados que a Sra. Gordon tinha trazido.

"Finalmente, a camponesa vai-se embora."

"O Sr. Benjamin vai casar com alguém do seu nível."

Ignorei-os. Fui diretamente ao meu quarto e comecei a fazer as malas. Tinha de sair dali. Tinha de voltar para casa. Fui online e comprei um bilhete de comboio. A única data disponível era no dia seguinte. O dia do casamento de Benjamin.

Uma ironia cruel. Mas talvez fosse o destino. Um final limpo. Um novo começo.

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