A Vingança Silenciosa da Ex-Esposa

Dois dias depois, recebi alta do hospital.

Ninguém da família do Diogo veio buscar-me.

Ele nem sequer atendeu as minhas chamadas.

Voltei para a nossa casa, ou o que eu costumava chamar de casa, num táxi.

O silêncio dentro da casa era pesado, opressivo.

O quarto do bebé, que tínhamos decorado com tanto amor, estava com a porta fechada.

Não consegui entrar lá. A dor era demasiado grande.

Fui para o nosso quarto e comecei a fazer as minhas malas.

As minhas mãos moviam-se mecanicamente, a pegar em roupas, livros, as poucas coisas que eram verdadeiramente minhas.

Enquanto eu estava a dobrar uma camisola, o Diogo entrou.

Ele olhou para as malas abertas no chão e franziu a testa.

"O que estás a fazer?"

"Estou a ir embora", respondi, sem olhar para ele.

"Ir embora? Para onde? Não sejas ridícula, Laura."

"Vou divorciar-me de ti, Diogo."

Ele riu, um som incrédulo.

"Divorciar-te? Por causa de um acidente? Estás a perder a cabeça? Nós acabámos de perder um filho, devíamos estar a apoiar-nos um ao outro, não a separar-nos."

"Apoiar-nos um ao outro?", repeti, finalmente a encará-lo. "Tu não estiveste lá, Diogo. Tu escolheste a tua mãe e a tua irmã em vez de mim e do nosso filho. Ele morreu porque tu não te importaste."

"Isso é mentira!", ele gritou, o seu rosto a ficar vermelho de raiva. "Eu importo-me! Mas a minha irmã estava a tentar matar-se! O que é que eu devia fazer?"

"Devias ter chamado uma ambulância para a tua mulher grávida que estava a sangrar no chão!"

"A minha mãe disse que não era grave! Ela disse que estavas a exagerar!"

"E tu acreditaste nela. Tu sempre acreditas nela."

Ficámos em silêncio por um momento, a tensão a encher o ar.

"Não te vou dar o divórcio", disse ele finalmente, a sua voz baixa e ameaçadora.

"Não preciso da tua permissão."

"Pensa bem, Laura. Para onde vais? Não tens dinheiro, não tens emprego. Vais voltar a rastejar para mim dentro de uma semana."

O seu desprezo era palpável. Ele via-me como fraca, dependente.

Talvez eu fosse, antes. Mas a perda do meu filho tinha mudado algo dentro de mim. Tinha-me dado uma força que eu não sabia que possuía.

"Isso é o que vamos ver."

Fechei o fecho da minha mala com um som final e decisivo.

Passei por ele, a mala a rolar atrás de mim.

Ele agarrou o meu braço, a sua força a surpreender-me.

"Tu não vais a lado nenhum."

"Larga-me, Diogo."

"Nós vamos resolver isto. Tu estás apenas magoada e confusa."

"Não estou confusa", disse eu, a minha voz firme. "Eu nunca estive tão lúcida na minha vida. Acabou."

Puxei o meu braço do seu aperto e saí do quarto, sem olhar para trás.

Quando cheguei à porta da frente, ouvi a voz dele uma última vez.

"Vais arrepender-te disto, Laura!"

Eu não respondi. Apenas abri a porta e saí para a luz do sol, deixando para trás a escuridão daquela casa para sempre.

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