A Vingança de Sofia

Quando o médico me disse que o meu noivo, Tiago, tinha chegado, eu estava deitada na cama do hospital, ainda a recuperar da cirurgia.

A enfermeira tinha acabado de trocar o meu saco de soro.

"Senhora, o seu noivo está lá fora," disse ela, com uma expressão de pena no rosto.

"Não o deixem entrar," pedi, com a voz fraca.

"Mas ele diz que precisa de falar consigo sobre o funeral da sua mãe."

Funeral.

Essa palavra atingiu-me com força.

A minha mãe tinha falecido.

No mesmo acidente de carro que me pôs nesta cama de hospital e me fez perder o meu bebé.

E Tiago, o meu noivo, o condutor, saiu ileso.

Porque ele se desviou para me proteger, fazendo com que o lado da minha mãe sofresse o impacto total.

Pelo menos, foi isso que ele me disse.

Mas a verdade era que ele se desviou para proteger a si mesmo.

Eu vi.

Lembro-me de cada segundo. O camião a vir na nossa direção, o guincho dos pneus.

Lembro-me do seu rosto, pálido de medo.

E lembro-me de ele ter virado o volante para a direita, para longe do camião, colocando o lado do passageiro, onde a minha mãe e eu estávamos sentadas, diretamente no caminho do perigo.

Ele escolheu-se a si mesmo em vez de nós.

E agora, ele queria falar sobre o funeral da minha mãe.

Fechei os olhos, a exaustão a pesar em mim.

"Diga-lhe que estou a dormir," murmurei.

A enfermeira hesitou, mas depois saiu silenciosamente.

Momentos depois, o meu telemóvel, que estava na mesa de cabeceira, começou a vibrar.

Era o Tiago.

Ignorei.

Vibrou outra vez.

E outra.

Finalmente, atendi, cansada da sua insistência.

"Sofia, meu amor, porque é que não me deixas entrar?" a voz dele soou ansiosa, cheia de uma preocupação que agora me parecia falsa.

"Estou cansada, Tiago."

"Eu sei, eu sei, mas precisamos de falar sobre a tua mãe. O funeral é amanhã. Eu tratei de tudo, não te preocupes."

Ele tratou de tudo.

Como se isso compensasse alguma coisa.

"Tiago," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente, "vamos acabar com isto."

Houve um silêncio do outro lado da linha.

Depois, a sua voz voltou, mais dura, a preocupação falsa desapareceu.

"Acabar com o quê? O noivado? Estás a brincar comigo, Sofia? Depois de tudo o que eu passei?"

"O que tu passaste?" A minha voz subiu de tom, a incredulidade a dar-me uma força que eu não sabia que tinha. "A minha mãe está morta. O nosso bebé morreu. E tu estás a falar do que passaste?"

"Foi um acidente! Eu tentei salvar-vos! Eu virei o carro para te proteger!"

"Não, não viraste," disse eu, com uma calma assustadora. "Eu vi, Tiago. Eu vi-te a salvar a ti mesmo."

Ele ficou em silêncio novamente.

Quando falou, a sua voz era fria como gelo.

"Tu estás em choque. Não sabes o que estás a dizer. Estás a sofrer e a culpar-me. A tua mãe não te ensinou a ser grata?"

Gratidão.

Ele queria que eu fosse grata por ele ter matado a minha mãe e o meu filho para se salvar.

"Não voltes a falar da minha mãe," sibilei.

"Descansa, Sofia. Vais sentir-te melhor amanhã. Vemo-nos no funeral," disse ele, com uma finalidade que me gelou os ossos.

Ele desligou.

Olhei para o teto branco do hospital.

O funeral era amanhã.

E eu estaria lá.

Mas não como a noiva de luto que ele esperava.

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