A Vingança da Maré

Naquela noite, a polícia encontrou-me na praia.

Eles disseram que o meu marido, Pedro, me tinha denunciado por tentar afogar a nossa filha, Sofia.

Olhei para a minha filha de cinco anos, que se agarrava à perna do polícia.

Ela olhou para mim com os seus grandes olhos, cheios de medo e estranheza.

"Mamã, porque é que me empurraste para a água?"

A sua voz infantil soou, e o meu coração sentiu-se oco.

"Eu não te empurrei, Sofia."

A minha voz estava rouca, arranhada pela água salgada e pelo desespero.

Pedro apressou-se, envolvendo Sofia num grande abraço protetor.

Ele olhou para mim com uma fúria fria.

"Inês, eu vi. Eu vi com os meus próprios olhos. Tu empurraste-a."

"Eu não o fiz," repeti, sentindo-me exausta. "Eu estava a tentar salvá-la."

"Salvá-la? De quê? De ti?"

A sua voz estava cheia de desprezo.

A irmã dele, Clara, estava ao lado dele, com os braços cruzados.

"Pedro, eu avisei-te. Ela nunca foi estável. Desde que perdeu o bebé, ela não tem sido a mesma."

Sim, o nosso filho. O nosso filho que morreu antes de nascer.

Isso aconteceu há um ano.

A dor ainda estava lá, um buraco silencioso no meu peito.

Pedro usava isso contra mim sempre que podia.

"Levem-na," disse ele aos polícias, sem sequer olhar para mim. "Ela é um perigo para a minha filha."

A minha filha. Não a nossa filha.

Os polícias hesitaram.

"Senhor, a sua esposa parece estar em choque. Talvez devêssemos levá-la ao hospital."

"Não," disse Pedro, com a voz firme. "Eu quero apresentar queixa. Quero que ela fique longe de nós."

Fui levada para a esquadra.

As luzes fluorescentes zumbiam por cima. O cheiro a café velho e a papel enchia o ar.

Eles fizeram-me perguntas. Eu respondi.

Contei-lhes sobre a onda traiçoeira que apanhou Sofia.

Contei-lhes como saltei atrás dela, como lutei contra a corrente para a manter a flutuar.

Como gritei por ajuda até a minha garganta ficar em carne viva.

Eles ouviram, anotaram, mas os seus olhos estavam cheios de dúvida.

Afinal, era a palavra de uma mãe "instável" contra a de um pai "herói".

Pedro tinha chegado mesmo a tempo de me tirar da água com Sofia.

Para todos os outros na praia, ele era o salvador.

Eu era a vilã.

Mais tarde naquela noite, o meu advogado, Tiago, chegou.

Ele era um velho amigo de família.

"Inês, o que aconteceu?"

Contei-lhe tudo de novo.

Ele ouviu pacientemente, o seu rosto sério.

"O Pedro está a pressionar muito," disse ele. "Ele tem uma testemunha."

"A irmã dele," disse eu, sem surpresa.

"Sim. E a Sofia... a Sofia está a dizer aos assistentes sociais que tu a empurraste."

Senti o chão a desaparecer debaixo dos meus pés.

"Não... ela não pode..."

"Ela é uma criança, Inês. Ela está assustada e confusa. O Pedro e a Clara estiveram a falar com ela durante horas."

Fechei os olhos.

A imagem de Pedro a sussurrar ao ouvido de Sofia, a sua mão a afagar-lhe o cabelo.

Ele estava a envenenar a nossa filha contra mim.

"O que vai acontecer agora?" perguntei.

"Eles querem uma avaliação psiquiátrica. E o Pedro pediu uma ordem de restrição de emergência."

O ar saiu dos meus pulmões.

"Ele não pode fazer isso."

"Ele pode, e fê-lo," disse Tiago suavemente. "Inês, vamos ter de lutar contra isto. Mas não vai ser fácil."

Eu sabia que não seria.

Esta não era a primeira vez que Pedro tentava pintar-me como louca.

Era apenas a primeira vez que ele tinha tido sucesso.

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