A casa de Lucas estava silenciosa demais.
Eu parei na porta da sala, a mochila pesando em um ombro só, e senti um arrepio estranho. Nós tínhamos um acordo: toda terça e quinta, depois do treino, eu vinha para a casa dele estudar. Ele me ajudava com o futsal, eu o ajudava a não reprovar em matemática. Era um acordo que funcionava há anos, desde que éramos crianças.
Mas hoje, o silêncio era denso, quase palpável. Geralmente, eu já ouviria o som da TV ou a mãe dele, Dona Marta, cantando na cozinha.
Nada.
Dei um passo para dentro, fechando a porta com cuidado. Foi quando ouvi. Um som baixo, abafado, vindo do quarto dele no fim do corredor. Uma risada feminina que eu não conhecia, seguida por um sussurro de Lucas.
Meu coração não acelerou, nem senti ciúmes, apenas uma estranha sensação de que eu tinha entrado no lugar errado, na hora errada.
Eu pisquei, confusa. Que casal principal? Que vilã? Era só o Lucas com alguma garota. Não era da minha conta.
Meu plano era simples: ignorar.
Deixei minha mochila no sofá, tirei meus livros de física e meu caderno. Abri na página marcada e comecei a reler o último exercício. O som do meu lápis contra o papel era a única coisa que quebrava o silêncio na sala.
Eu continuei focada no meu livro. Força, massa, aceleração. Coisas que faziam sentido, que tinham regras claras. Diferente do que estava acontecendo no quarto do Lucas.
A porta do corredor se abriu de repente. Lucas saiu de lá, sem camisa, o cabelo bagunçado. Ele parou no meio do caminho quando me viu sentada no sofá, com os livros abertos na mesinha de centro.
Seus olhos se arregalaram. Ele parecia um cervo pego pelos faróis de um carro.
"Duda?" A voz dele era um sussurro chocado. "O que... o que você tá fazendo aqui?"
Eu levantei o olhar do meu livro, calma. Apontei para o relógio na parede da sala.
"São quatro e meia," eu disse, minha voz soando surpreendentemente normal. "Nosso horário de estudo. Você esqueceu?"
Ele engoliu em seco, o rosto pálido. Atrás dele, uma garota apareceu na porta do quarto. Era a vizinha nova, Camila. Ela estava enrolada no lençol dele, e seu rosto expressava uma mistura de surpresa e irritação ao me ver.
Lucas olhou de mim para ela, o pânico crescendo em seu rosto. Ele era promissor no futsal, rápido e ágil, mas para lidar com situações assim, ele era um desastre. Fraco e facilmente manipulável.
Eu apenas o observei, esperando. A situação era dele, não minha.
Eu suspirei e voltei minha atenção para o livro. Que perdessem seu tempo me julgando. Eu tinha uma bolsa de estudos para conseguir.





